– Comecemos pelo princípio dos princípios: o que é biblioterapia? Qual é a diferença entre ler por prazer e ler por terapia?

A biblioterapia é uma prática que explora o impacto psicológico e emocional que as histórias têm no ser humano e põe em marcha o potencial transformador dessas histórias. O grande objectivo da biblioterapia é cuidar do desenvolvimento contínuo do ser humano e contribuir para o seu bem-estar.

– Como chegou à biblioterapia?

Dedico o primeiro capítulo do meu livro “Ler Para Viver” a esse percurso. Quando reflecti sobre este caminho, tornei-me consciente que tudo começou na primeira infância, quando descobri o prazer de ler. Essa descoberta fez dos livros uma parte de mim e das minhas rotinas — estou sempre a ler um livro. Quem lê por prazer e alimenta o hábito regular de ler desenvolve, mesmo que inconscientemente, uma intuição terapêutica das histórias. Isto é, sabe que gosta de ler, sente que ler lhe faz bem e às vezes até já escolhe o que vai ler a seguir de acordo com estados de espírito ou à procura de respostas para certas necessidades. Quando em 2011/2012 li pela primeira vez a palavra em inglês — bibliotherapy — percebi que andava há muito tempo a cuidar de mim através das leituras que escolhia (e também a cuidar dos outros através dos livros que oferecia ou recomendava). Procurei informação sobre o tema e fiquei estarrecida quando percebi que as raízes da biblioterapia eram historicamente muito remotas e que havia já um corpo científico considerável sobre a prática biblioterapêutica e a sua eficácia, mesmo que aqui em Portugal muito pouca gente soubesse do que se tratava.

– E quando é que ‘deu o salto’?

Como tinha somado ao meu prazer de ler uma experiência de treze anos a trabalhar no comércio do livro, achei que poderia dedicar-me um dia à biblioterapia em exclusivo. E assim fiz, em 2015 despedi-me da empresa onde trabalhava e comecei sozinha o meu caminho nesta área, dedicando-me ao ramos da biblioterapia de desenvolvimento.

– Há outra?

Sim, a biblioterapia clínica, mas essa fica fora do meu alcance porque não sou profissional de saúde; mas em equipa, devidamente acompanhada por médicos, enfermeiros ou psicólogos, tenho atuado também em contexto clínico.

– Num país onde se lê tão pouco, como é que se convence alguém a seguir uma terapia que, adivinho, dará mais trabalho do que espalhar canela à porta de casa?

A maior parte das pessoas que procuram os meus serviços de biblioterapia são leitoras ou já foram leitoras em tempos, guardam boas memórias dessa relação com os livros e querem voltar ao hábito de ler que, por contingências da vida, se perdeu. São, portanto, pessoas que sabem o que é ler por prazer e que ao viver períodos mais desafiantes entendem, sem precisar de ser convencidas, que os livros e as histórias são meios válidos para atingir objectivos, resolver problemas, viver melhor e de forma mais saudável, reequilibrar-se. Talvez seja em contexto corporativo que os participantes nas actividades biblioterapêuticas que dinamizo precisem de ser “convencidos”, como diz. Sim, nas empresas e noutras instituições vejo o quanto ler por prazer não faz parte da rotina da maior parte dos portugueses. Mas estas actividades correm muito bem, consistem sobretudo em dinâmicas de grupo às quais os trabalhadores aderem com entusiasmo e sei que para alguns deles constituem um ponto de viragem na sua relação com a leitura.

– Como é que se forma um leitor?

Formar leitores é, na verdade, um trabalho de um para um. Enquanto mediadora de processos biblioterapêuticos sei o quanto é fundamental contaminar uma pessoa de cada vez com o entusiasmo, ou a paixão se quiser, com que falo de uma história em particular ou de um autor. Se o trabalho de perceber exactamente quem é a pessoa com quem estou a trabalhar — qual é a sua experiência acumulada de vida, quais os seus interesses e desejos, em que fase da vida se encontra, etc. — for bem feito, há uma grande probabilidade das histórias recomendadas serem certeiras e eficazes no processo de transformação que se deseja.

– Como é que funciona uma sessão? Eu leio os livros que me aconselha e depois discutimos, ou há outras componentes?

Nos processos biblioterapêuticos individuais, de um para um, sim. Após uma primeira sessão onde percebo quem é a pessoa e o que é que pretende, definimos os objectivos a atingir, elaboro uma lista de leituras. Nas escolas trabalho com turmas inteiras através de Círculos de Biblioterapia. A partir da leitura de um ou mais textos que selecciono previamente e leio em voz alta, procuro espoletar em cada participante um diálogo em três frentes: de si para si, através da identificação com a história, de si para com o autor do texto, os factos narrados e os seus personagens; de si para com a mediadora e os restantes colegas, onde se treina a capacidade para dialogar de forma respeitosa. Mas a biblioterapia é um método muito criativo e adaptável, os dois exemplos que partilho são apenas duas possibilidades.

– Como é que se escolhe os livros que se vai ler?

Começo por conhecer bem a pessoa com quem vou trabalhar: o seu percurso de vida, o momento da vida em que se encontra, os seus desejos, o que quer melhorar para se sentir mais equilibrada e feliz. Quando trabalho com grupos, esses elementos respondem de forma anónima a um pequeno inquérito. Com a informação nas minhas mãos passo para a pesquisa de livros — um momento que me dá um prazer enorme! —, que só termina quando tenho os livros que considero mais adequados seleccionados.

– Escolhe ‘contra’ a queixa ou ‘dentro’ da queixa? Imagine que eu estou deprimida. Escolhe-me um livro também depressivo ou alguma coisa para me animar?

Depende. O que resulta para uma pessoa não tem necessariamente de resultar para outra. Para algumas pessoas escolher uma história “dentro” da queixa poderá ser o mais adequado, apelando a um momento do processo biblioterapêutico que é a universalização — isto é, a pessoa que vai ler a história sente-se menos sozinha nas suas tribulações, logo mais amparada, compreendida. Lembro-me sempre de uma senhora que conheci num hospital onde fazia voluntariado lendo em voz alta à cabeceira dos pacientes internados. A senhora estava a fazer face à sua segunda doença oncológica e lia tudo o que fossem biografias ou relatos de pessoa que tivessem tido cancros e tivessem superado a doença. Mas eu, por exemplo, tive um cancro e nem podia ouvir falar desse tipo de histórias. Para pessoas com o mesmo perfil que o meu procuro escolher leituras “contra” a queixa, mas que garantam que processos de identificação, introspecção e catarse ocorram na mesma. Aliás, na primeira conversa que tenho com cada um dos meus clientes pergunto sempre o que não querem ler de forma nenhuma. Não quer dizer que eu por vezes não estique um pouco a corda em função de um texto muito bom e com muito potencial terapêutico.

– Conte-me um caso de um ou uma paciente a quem os livros tenham ajudado.

Marcou-me profundamente a minha primeiríssima cliente de biblioterapia, logo no ano de 2016. Era uma mulher da minha geração que, à época, lia muito mais do que eu alguma vez lera: cerca de 70 livros por ano. Queixava-se de um certo desapontamento em relação ao que escolhia ler nos últimos anos. Os livros pareciam-lhe todos iguais, os enredos estafados. O prazer de ler estava a esmorecer. Percebi que esta grande leitora estava a precisar sair da sua zona de conforto — a literatura de pendor mais ocidental e sempre dentro da ficção. Decidi então apresentá-la à literatura de viagem, às biografias, aos ensaios de naturezas variadas e aos autores de ficção de outras geografias. Correu muito bem. Reencontrámo-nos em 2022. Tivemos a oportunidade de conversar sobre esse processo e a nova etapa que inaugurou no seu percurso de leitora voraz. Penso nesta leitora sempre com muito carinho. Talvez ela não saiba o quanto a sua curiosidade e fé no meu trabalho foram determinantes. Devo-lhe uma injecção de autoconfiança inestimável.

– E a si, que livros a ajudaram?

A resposta mais difícil! Foram tantos, tantos livros… Na infância, “As Joias da Castafiore”, das aventuras de Tintin, imaginadas pelo eterno Hergé, ou “A Cabra do Senhor Seguin”, de Adolphonse Daudet. Na adolescência, “Toda a Mafalda”, de Quino. A Mafaldinha é, até hoje, o meu alter ego. Quando passei vários meses internada evadi-me da cama do hospital com a ajuda de, por exemplo, “O Leopardo”, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa ou de “O Código da Vinci”, de Dan Brown (consigo, por vezes, percorrer este arco que liga livros que estão nos antípodas uns dos outros). Quando me despedi do trabalho que tive durante 15 anos, foi “Projetar a Felicidade”, de Paul Dolan, que me deu aquele empurrãozinho no sentido de pôr em prática uma decisão que já estava tomada há algum tempo. Mais recentemente, para gerir a minha zanga com o estado do mundo, “A Ditadura da Felicidade”, de  Edgar Cabanas e Eva Illouz conferiu-me um enorme alívio. E no início deste ano, quando parti o braço direito, o livro “Sabedoria”, de Michel Onfray, sobre o estoicismo romano, ajudou-me a aceitar e a suportar as limitações com as quais vivi durante três meses. Em caso de emergência, o poema “Invictus”, de William Ernest Henley é sempre fortificante.

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