
Falámos de tudo e de nada. De filhos, de pais, de cirurgias plásticas, de bullying, de sítios para viver e para não viver, de projetos e preocupações que nos passam pela cabeça. Longe de nós falarmos só de vinhos, apesar de esse ter sido o motivo da entrevista. Provavelmente, a culpa foi do vinho que saboreámos ao longo da conversa. No final, fiquei com três horas de gravação áudio que tiveram de ser debastadas do tanto que se disse em redor de uma garrafa de vinho chamada As Velhas.
Sim, leu bem: As Velhas. Maria Seruya, artista plástica e criadora projeto Velhas Bonitonas – The Power of Old Ladies, e Ana Rocha, general manager da Morais Rocha Wines, têm no envelhecimento uma causa e uma inspiração e isso tornou-se num vinho. O processo demorou três anos a ser concretizado, com uma pandemia pelo meio, resultando neste Reserva Tinto DOC Alentejo 2017, que é agora apresentado e que celebra a arte de receber os anos com amor e sabedoria. “As Velhas foi escolhido intencionalmente como um vinho reserva. Porque tal como os vinhos reserva, é preciso tempo para chegar ao nosso melhor. E as mulheres, com a passagem do tempo, ganham quase sempre mais sabor, personalidade, profundidade e autenticidade”, diz-nos Ana.

“O que gosto na questão do envelhecer é que com o tempo tornamo-nos muito mais aquilo que somos na verdade. Gosto do tempo que nos ajuda a amadurecer e ganhar confiança“, completa Maria, ao falar sobre a génese do seu projeto As Velhas Bonitonas. “Não foi pensado, surgiu. Houve uma semana em que comecei a desenhar velhas, velhas gaiteiras, até velhas desdentadas. Divertia-me a desenhá-las e divertia-me imenso a olhar para elas.” O interesse surgiu assim, num primeiro momento, aparentemente do nada, e Maria acabou por ir atrás do tema. Transformou-se no que diz ser uma “artista motivacional” sobre o envelhecimento, em que entram projetos paralelos como workshops. Porque não há que ter medo do passar dos anos. “Antes de fazer este projeto tinha imensos preconceitos. Dizia às pessoas ‘estás cada vez mais nova’ quando hoje sei que não o devo dizer porque estamos sempre a envelhecer. O que nos caracteriza é a nossa identidade, não é a nossa idade”, lembra. “As minhas velhas são sempre inventadas, são sempre mulheres anónimas e imaginárias. E as mulheres acabam por se identificar mais com elas do que se se vissem em velhas, porque captam a alma, não o lado físico.”
Já Ana, em 2014, entrou na empresa do pai para a gerir e tornar mais profissional. “Os vinhos apareceram na vida do meu pai como um hobbie. Todos os anos no Natal gastava dinheiro em prendas aos grandes clientes e aos colaboradores e pensou: ‘porque não criar uma empresa na minha terra natal, a Vidigueira, e oferecer algo mais pessoal e ao mesmo tempo mostrar algo tão português?’ E assim começou a produzir vinhos e azeites, em 2004″.
A ideia de se dedicar ao projeto não estava no horizonte de Ana quando terminou o curso e desenvolveu a sua atividade profissional durante uma década afastada do meio vinícola, nomeadamente na área da indústria farmacêutica. Um dia, trabalhava há dois anos em São Paulo, na área da publicidade, foi surpreendida quando lhe surgiu a vontade imperiosa de regressar a casa. “Quando decidi regressar, foi porque comecei a pensar: “e se acontece alguma coisa aos meus avós e eu não estou lá, com eles?’ Comecei a perceber que a família era muito importante e que queria estar perto. Comecei a olhar para o negócio do meu pai de forma diferente e para o Alentejo também. Nem quis ouvir outras propostas profissionais porque sabia que me queria dedicar à empresa”. O desafio foi criar novas marcas e Ana arregaçou as mangas e lançou-se na aventura, aproveitando a sua experiência na área de marketing e publicidade para dar um outro olhar ao vinho. “Temos de nos diferenciar – mais do que um rótulo, as pessoas têm de se envolver com a nossa história”. Foi a sua condição de mulher num mundo (ainda) essencialmente masculino, que a fez ter vontade de ir mais longe. “Senti que gostava de ter uma marca pensada para mulheres e que fosse ao mesmo tempo uma homenagem às mulheres, mas às velhas. Afinal, velhas somos todas, porque todas estamos a envelhecer”.
Depois de ver uma entrevista de Maria na televisão, a empresária abordou-a com a ideia de trazer o conceito das Velhas Bonitonas para um vinho. Afinal, diz, “com o tempo, ganhamos qualidade, mais sabor, mais carácter, tal como o vinho”. Do outro lado da mesa, Maria não contém o entusiasmo: “é uma associação genial, não é?”. Mesmo reconhecendo que não bebe vinho, a artista plástica aceitou de imediato o desafio. “Vinho só bebe este aqui“, lança Ana com um sorriso. A cumplicidade típica de uma amizade de muitos anos nasceu na verdade quando se encontraram pela primeira vez no atelier de Maria. “Quando ouvi a Maria compreendi que projeto que eu queria de homenagem às mulheres fazia sentido passar por ela e pelas Velhas Bonitonas. Primeiro, fiz o registo da marca As Velhas, já com a ideia de uma parceria, mas foi um risco, sem saber se ela aceitava ou não. Quando tive a confirmação que a marca era minha, mandei uma mensagem no Facebook à Maria. Benzi-me porque até sou tímida, apresentei-me e disse que gostava de falar com ela. A Maria foi super acessível, fui ter com ela ao atelier e estivemos à conversa sobre este projeto, e no final ela disse ‘porque não’?” E estava lançada a primeira pedra.
“Eu achei genial”, repete Maria neste ponto. “A ideia foi materializada de forma brilhante”. Seguiram-se visitas à Vidigueira e a discussão do conceito. “Contribui com o conceito e os desenhos”, diz a artista. Ana acrescenta: “Pensei em dois aspetos chave neste projeto: desmistificar a palavra ‘velhas’ porque as pessoas não gostam da palavra, mas tem de ser usada, porque é isso que são e a palavra dá e tem força; e desmistificar também a parte do lenço, associada ao Alentejo e ao luto”. Portanto, nada de lenço na cabeça ou de preto. Nos rótulos das garrafas são três mulheres que dão o rosto, três mulheres carismáticas, três mulheres felizes, que refletem várias etnias e culturas, mas atenção: todas anónimas e imaginárias. “Tinham de falar entre si e viver entre si, a mais irreverente, a mais serena, a mais agradecida“. E falam mesmo.
O vinho teve uma aceitação muito grande e rápida, que inclusive apanhou Ana de surpresa. De tal forma que nem chegou ao mercado internacional, porque Portugal consumiu quase tudo. “É um vinho pensado para mulheres, mas muitos homens compraram para oferecer”, revela.
Falando em termos mais ‘técnicos’, As Velhas é composto pelas castas Alicante Bouschet, Syrah e Touriga Nacional e tem no nariz aromas a frutos do bosque com notas de especiarias. Na boca revela-se muito estruturado, e sobressaem notas de fruta madura em harmonia com a madeira onde estagiou – 12 meses em barricas de carvalho francês. O final é longo e extremamente persistente. “Teve em estágio dois anos em adega, o que permitiu que amadurecesse dentro da empresa e que, quando começou a ser vendido, estivesse pronto a ser provado dentro do patamar em que já está bom para consumir, apesar de haver ainda um potencial para evoluir mais”, explica Ana.
Encontra-se à venda num pack de três garrafas, numa edição limitada de 500 caixas, disponível em garrafeiras e lojas gourmet.O preço é de 44,50 euros. “Não me interessa ter um produto que seja acessível a muito poucos. Tento gerir ao máximo e posso não ter tanta margem, mas dou possibilidade às pessoas de experimentarem o meu vinho, de se relacionarem com ele e de quererem comprar”, refere Ana sobre este aspeto.

Boas notícias: para ano, em princípio, temos Velhas outra vez, se se confirmar que há uma reserva à altura, como confidencia Ana,
Até lá, continuam os projetos. Maria tem um novo no horizonte. Chama-se “Retratos de Alma” e propõe-se pintar não as mulheres, mas as suas almas. Com base numa entrevista que é ao mesmo tempo uma sessão de empoderamento, faz-se a viagem à pele da Velha Bonitona da pessoa. A partir daí, Maria cria o desenho. “É um processo de autodescoberta, de coaching, em que convido a pessoa a ver-se como velha, a projetar-se no tempo.”
Ana continua empenhada em trazer novos projetos para a Morais Rocha Wines. “Quero ao longo do tempo associar-me a projetos que me fazem sentido. As Velhas fizeram-me sentido e é para continuar, assim como apostei no retrato realista para homenagem ao meu avô na edição que fizemos de vinho da talha, batizada com as suas iniciais, JJ ”. E lembra: “O vinho não é só vinho, é uma experiência pessoal e intransmissível, em que entra o estado de espírito, o ambiente, se o vinho está à temperatura ambiente ou não, se gostamos da companhia com quem estamos… Enfim, há tantas variáveis que condicionam a experiência, mas há uma que é básica, que é a memória sensorial. Não é a questão de qual é a casta. É se traz momentos bons ou não. Se traz prazer. Se nos dá a possibilidade e nos convida a partilhar. Dá-me muita satisfação saber que, através de um vinho, se falam de tantas outras coisas.“
E falámos. Mas isso fica só entre nós!
Ah, e só mais uma coisa: o vinho é excelente.
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