Para Cristóbal Balenciaga, publicidade e marketing não combinavam com alta-costura.

Um purista da moda, pouco ou nada falou com a imprensa ao longo da carreira, foi pouquíssimo fotografado e não aparecia no final dos seus desfiles. Além disso, era conhecido pela necessidade de controlar cada aspeto do processo de design. Preferia que a sua equipa atendesse as clientes diretamente, não ia a festas e ficava profundamente incomodado quando a sua vida pessoal era tema de conversa — ou de mexericos.

Se fosse vivo, apostamos que não teria Instagram, ou qualquer outra rede social. Não aprovaria a atual estratégia de comunicação da marca que fundou em 1917 e, provavelmente, rejeitaria colaborar com a série “Cristóbal Balenciaga”, que chegou à Disney+ no dia 19 de janeiro.

Criada por Lurdes Iglesisas e realizada por Aitor Arregi, Jon Garaño e Jose Mari Goenaga, a produção original levanta o véu sobre a vida privada do estilista durante os 30 anos que passou em Paris. Foi na capital francesa que o criador elevou o seu ofício, superou desafios pessoais e profissionais, e construiu uma casa de moda de renome internacional com um legado duradouro.

O estilista revolucionou com a sua mão subtil e alfaiataria rigorosa. O corte e a construção das suas peças eram tão lisonjeiros que conquistou clientes influentes de todas as esferas, da realeza a Hollywood, incluindo Wallis Simpson, Grace Kelly e Babe Paley. No entanto, era uma figura polarizante.

Recentemente, tivemos a oportunidade de participar numa conferência de imprensa com Lurdes Iglesias, que respondeu a perguntas de jornalistas de todo o mundo. Eis o que aprendemos sobre um dos designers mais icónicos do século XX.

Itay Yaacov (“Yedioth Ahronoth”, Israel): O segundo episódio gira em torno da Segunda Guerra Mundial. Qual foi a sua posição enquanto criadora? Balenciaga cooperou com os nazis ou manteve-se neutro, como o próprio disse?

Este foi o capítulo mais difícil para nós, porque é complicado entrar na mente de outra pessoa. Depois estudá-lo muito, não acredito que ele fosse pro-nazi. Não era, mas tinha três mil funcionários e era um homem muito consciencioso relativamente às pessoas, muito paternalista, no sentido em que não podia deixar todas aquelas pessoas sem trabalho e fechar a casa. Acredito que ele adotou uma postura neutra. Vendeu vestidos às mulheres de oficiais nazis e ganhou dinheiro, mas isso não significa necessariamente apoiar um regime. Se fores talhante e estiveres em guerra, continuas a vender carne, porque tens de sobreviver. E acredito que essa foi a postura dele: lavar um pouco as mãos em prol dos seus funcionários.

Cláudia Turpin (“ACTIVA”, Portugal): “Balenciaga” é a primeira série original com roteiro espanhol da Disney Plus. Como foi a abordagem às decisões criativas para garantir que a série ressoaria junto de um público global e, ao mesmo tempo, preservaria a essência da cultura espanhola?

Isso foi importantíssimo para nós quando começámos a pensar na série. Queríamos chegar a um público global e penso que isso acontece organicamente, por tratar-se de Balenciaga. É uma personagem que tem apelo local e internacional, e foi por isso que a Disney ficou interessada desde o início. É uma história muito local, mas de um homem que fala três idiomas — espanhol, francês e euskera (basco) — e, ao mesmo tempo, fala de moda e criação, que são coisas universais. Não são coisas pequenas, locais.

Deu-nos gosto falar dele, porque eu e os realizadores somos bascos. Há coisas do carácter dele que são muito bascas. Entendíamo-lo. Compreendíamos os motivos para ser tão fechado e não demonstrar sentimentos perante mundo. Os temas que ele tocava eram universais.

Magdalena Matuszek (“Glamour Poland”, Polónia): As séries tendem a glorificar o protagonista, mas não é o que acontece neste caso. Balenciaga não é retratado como uma pessoa agradável. Isso corresponde à realidade?

É engraçado mencionar isso, porque há quem fique a gostar dele após assistir à série [risos]. Acredito que o facto de ele ser tão perfecionista e reservado levam algumas pessoas a não gostarem dele. Focámo-nos em fazer um retrato da autoria, a essência da história, e isso também pode criar uma distância entre ele e o público. Mas ele era um homem que se preocupava e tomava conta das suas pessoas — não ligava muito ao mundo exterior. Após toda a pesquisa que fizemos, incluímos tudo o que descobrimos na série.

Jacqueline Ponce (“Reforma”, México): Com base na vossa pesquisa, o que acha de dizerem que os vestidos de Balenciaga tinham um toque oriental, em vez de ocidental, e serem e serem inspirados em mestres artísticos como [Francisco de] Goya?

Penso que ele combinava ambos os estilos. Mencionámos [Madeleine] Vionnet. Ela foi uma mentora para Balenciaga, ensinando-lhe a essência e os vestidos do Japão, e abrindo-lhe os olhos para tudo o que ele fazia. Ele estava sempre a ler livros e a estudar sobre moda oriental, mas existe uma enorme presença espanhola em todas as suas criações. Ele é especial por fazer essa ponte com mestria. O oriental era considerado menos feminino, de um ponto de vista ocidental. Ao misturar ambas as estéticas, ele conseguiu mudar a silhueta dos vestidos para as mulheres.

Itay Yaacov (“Yedioth Ahronoth”, Israel): Qual foi a coisa mais surpreendente que descobriu sobre Cristóbal Balenciaga nos processos de pesquisa e criação da série?

Para mim, foi muito surpreendente descobrir que ele queria ser um monge. De certa forma, também fiquei surpreendida por entender quem não gostava da personagem, porque eu detestava a sua falta de humanidade (…) ele estava preso às convenções, mas, na sua arte, conseguia escapar delas.

Cláudia Turpin (“ACTIVA”, Portugal): Como espera que os espetadores se conectem a Balenciaga, especialmente aqueles que não estavam familiarizados com este ícone da moda?

Não sei. Para ser sincera, será uma surpresa para mim. Quando temos uma personagem mais próxima dos espetadores, torna-se mais fácil prever, porque a entendemos. Neste caso, a reação tanto pode ser boa como má. Não podíamos tornar Balenciaga mais afável só para aproximá-lo do público. Ele era assim. Se as pessoas vão gostar ou não dele, dependerá de cada um.

Jacqueline Ponce (“Reforma”, México): Como é a Balenciaga de hoje comparativamente à original?

Penso que o criador atual tenta quebrar os moldes. Em certas ocasiões, acredito eu, foi demasiado longe. Balenciaga não era assim. A sua arte cresceu pouco a pouco e ele não correu grandes riscos, ou deu grandes saltos. A sua evolução foi mais orgânica e penso que isso faz a diferença. O criador atual é muito mais arrojado.

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