Getty

Será pelo desejo de regressar às coisas boas de um tempo antigo que, visto daqui, nos parece mais simples, mais fácil e mais honesto? Pela vontade de descomplicar e reduzir a vida ao essencial? Pela preocupação em não agredir o planeta com substâncias que ele não ‘digere’ e embalagens desnecessárias? Talvez por tudo isto junto… A verdade é que, numa altura em que a limpeza e a lavagem das mãos são gestos vitais para a nossa saúde, o que nos mantém limpos é de suprema importância e, portanto, passámos a dar mais atenção àquilo que usamos para esse fim. Há qualquer coisa de reconfortante no ato de pegar numa barra de sabão natural e passá-lo nas mãos, no rosto ou no corpo molhado. Um gel de limpeza pode ser muito cremoso, sensorial e perfumado, mas um sabão natural artesanal feito a preceito, com os seus cantos rudes que o uso vai suavizando, o cheiro a limpo, parece despertar memórias ancestrais que nos obrigam a abrandar e a viver o momento. Mesmo que o momento seja apenas tomar duche ou lavar as mãos…

 

UM MÉTODO ANCESTRAL

Quando se pensa em sabonete, pensa-se muitas vezes na sensação de secura que fica na pele a seguir à lavagem (talvez por isso muitos sabonetes convencionais, industriais, acabem a perfumar as gavetas e não na saboneteira). Mas isso não acontece com um sabonete natural artesanal: desde que seja feito por quem sabe, claro, e não por alguém com um tacho e uma receita que tirou da internet… Porque fazer um bom sabonete natural de forma artesanal exige ingredientes de uma qualidade irrepreensível e um domínio perfeito das técnicas de saponificação. O processo de base de criação de um sabão ou sabonete é sempre o mesmo, inventado há milénios (supostamente pelos árabes, embora antes já se fizessem uns ‘antepassados’ do sabão, mas que não eram usados para lavar a pele) e consiste na transformação de uma gordura, vegetal ou animal, através da adição de um agente alcalino (atualmente é usado o hidróxido de sódio). Uma vez completada a reação entre esses dois ingredientes, a gordura fica saponificada e temos o sabonete. Mas se esse é o método de base, na prática há muitas diferenças na forma como o processo é realizado, na formulação propriamente dita e nos ingredientes utilizados.

Os sabonetes da Saponina contêm superalimentos que ajudam a cuidar da pele

FÓRMULAS MINIMALISTAS… E TEMPO

“Há vários métodos, mesmo dentro dos sabonetes naturais artesanais”, explica Eduarda Marques, que trabalha na Abegoa, empresa familiar de saboaria artesanal situada em Marvão e fundada pelo seu primo Emílio Fonseca há cerca de 13 anos. “O nosso método é o processo de saponificação a frio e a gordura que usamos é apenas azeite virgem extra biológico certificado. O azeite é ligeiramente aquecido, mas não a temperaturas muito elevadas, portanto não se perdem as suas propriedades. Por isso os rótulos dos nossos sabonetes têm apenas um ingrediente: 100% azeite. Nalgumas variedades temos ainda umas gotas de óleos essenciais para aromatizar. Também não retiramos a glicerina. Durante o processo de saponificação é criada glicerina, que no processo industrial é muitas vezes retirada, mas nós não a retiramos, por isso o sabonete é muito cremoso e hidratante.” O azeite é batido com o hidróxido de sódio para homogeneizar a mistura e fazer a saponificação, até obter a consistência desejada. “As pessoas às vezes assustam-se quando ouvem falar em hidróxido de sódio, mas não há razão para isso porque no processo ele é todo transformado e a seguir ainda há o processo de cura.” Enquanto na saboaria industrial a saponificação é feita a quente e é usado um processo que permite fazer um sabonete em menos de 1 dia, o sabão artesanal é curado durante 4 a 6 semanas após a saponificação, para que haja uma evaporação completa do hidróxido de sódio e o sabonete seque e fique pronto a utilizar. “Feita a mistura, o sabonete vai para uns moldes, passados 2 ou 3 dias é cortado e depois, já no formato final, fica a curar num local com uma temperatura estável. Durante a cura, passa por vários estados: primeiro aquece muito, depois fica em gel, e tem de ficar lá sossegadinho até ficar seco”, diz Eduarda.

 

Os sabonetes Abegoa são o sabão artesal natural no seu estado mais puro

RESPEITAR A PELE

A nível de formulação, também há grandes diferenças entre o sabonete artesanal e o industrial, como explica Liliana Dinis, criadora da marca de cosmética natural vegan Saponina, sediada em Lisboa. “Os sabonetes convencionais utilizam pós secantes, talcos, sulfatos, perfumes sintéticos, corantes e substâncias químicas para endurecer o sabonete e torná-lo esteticamente mais seco, para não ser um sabonete que liberte gordura e para que as pessoas possam, por exemplo, pô-los nas gavetas para perfumar a roupa… O que acontece é que quando utilizamos um sabonete desses na nossa pele, seja no rosto ou no corpo, também sentimos que é secante, que deixa a pele pouco confortável, a repuxar.” Como a maioria dos produtores portugueses de sabão artesanal, Liliana também usa o azeite como gordura principal dos seus sabonetes, mas junta-lhe várias manteigas, como a de manga, e outros óleos, como o de argão e o de abacate. “E enriqueço vários sabonetes também com superalimentos: moringa, lucuma, utilizo carvão vegetal para uma limpeza profunda da pele, uso também muitas plantas, como a calêndula que é calmante… Embora para mim seja importante que os sabonetes sejam bonitos e goste de os decorar com flores ou dar-lhes um aspeto visual atrativo, a minha principal preocupação são os benefícios para a pele.”

Azeite virgem extra e ervas aromáticas são os ingredientes dos sabonetes Bonjardim

APOIAR O QUE É NOSSO

A pandemia fez-nos dar mais valor ao que temos e redescobrir o que o nosso país tem de melhor, mas a verdade é que quem faz sabonetes artesanais (ou qualquer tipo de atividade artesanal) tem sempre a preocupação de apoiar as tradições e o desenvolvimento local, como é o caso de Elza Neto, da Olivae, uma marca com certificação biológica sediada em Évora. “Conhecemos a associação de criadores de cabra serpentina, uma raça autóctone muito rústica da região de Serpa, daí o seu nome, que estava quase em extinção. Resolvemos associar-nos a eles para ajudar a promover a raça e assim decidimos fazer um sabonete de azeite virgem e leite de cabra. Este leite tem proteínas e vitaminas boas para a regeneração da pele, e é mais uma forma de hidratação para além do azeite.” Uma coisa a ter em conta quando se faz um sabonete é o índice de gordura, e nos sabões artesanais ele é rigorosamente calculado para garantir que a pele não fica ressequida depois da utilização. “Nós não queremos que o azeite seja saponificado na sua totalidade. Ele tem de reagir com o hidróxido de sódio, para fazer o sabão, mas queremos que uma parte fique disponível para a pele. E o leite permite-nos ir buscar mais um extra de gordura para reforçar a hidratação.” Em matéria de óleos essenciais, Elza também se manteve fiel às espécies portuguesas, como o tomilho de uma variedade ibérica e o rosmaninho.

A Olivae combina azeite, leite de cabra autóctone Serpentina e ervas aromáticas nos seus sabonetes

MENOS ESPUMA E MAIS HIDRATAÇÃO

Uma das coisas que se pode estranhar quando se usa um sabonete artesanal pela primeira vez é o facto de não fazer muita espuma, sobretudo se é à base de azeite, como tendem a ser os portugueses. “Há gorduras naturais que fazem mais espuma, como o óleo de coco, mas o azeite, pela composição dos ácidos gordos que tem, não propicia tanto a formação de espuma”, explica Teresa Oliveira, cofundadora da marca de sabonetes artesanais Bonjardim, do Porto. “Mas a espuma é uma questão de hábito porque se tem na mesma a sensação de limpeza. E a pele fica muito mais macia porque, ao contrário dos sabonetes convencionais mais vulgares, estes não desidratam a pele.”

O sabonete para bebé da Terra Saboaria Artesanal

RESPEITAR O AMBIENTE

Teresa Oliveira atribui a valorização atual do sabonete artesanal a uma crescente preocupação ecológica. “É uma escolha lógica do ponto de vista ambiental. Como é sólido, ao contrário de um sabonete líquido ou um gel de banho, não precisa de embalagens de plástico, é embalado em papel. E também vai pesar menos no transporte, o que o torna mais ecológico.” E Liliana Dinis acredita que o que começou por ser uma moda já se tornou mais do que isso. “Essa procura do natural e ancestral, e não só na alimentação, mas em tudo o que nos rodeia, já é uma preocupação diária. Durante uns anos, com a industrialização, isto perdeu-se um bocadinho, as pessoas achavam que o que era produzido em fábrica tinha um glamour diferente, e agora estão a voltar a ter apetência pelo artesanal, que é feito com amor, com outro cuidado, com ingredientes naturais e em harmonia com o ambiente.”

Palavras-chave

Mais no portal

Mais Notícias

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

A fruta comum que têm mais de 1600 elementos e que os cientistas querem ver reconhecida como

A fruta comum que têm mais de 1600 elementos e que os cientistas querem ver reconhecida como "superalimento"

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1746

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1746

Técnico e Vinci Energies Portugal apresentam novo Formula Student para 2025/2026

Técnico e Vinci Energies Portugal apresentam novo Formula Student para 2025/2026

O que os cientistas descobriram ao

O que os cientistas descobriram ao "ressuscitar" o vírus da gripe espanhola

Moda:

Moda: "Look" festivaleiro

Pavilhão Julião Sarmento - Quando a arte se confunde com a vida

Pavilhão Julião Sarmento - Quando a arte se confunde com a vida

Reino Unido junta-se a França para investir na rival europeia da Starlink

Reino Unido junta-se a França para investir na rival europeia da Starlink

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril

Margherita Missoni: “A moda tem de  acompanhar o ritmo das mulheres”

Margherita Missoni: “A moda tem de  acompanhar o ritmo das mulheres”

Quis Saber Quem Sou: Será que

Quis Saber Quem Sou: Será que "ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais?"

CARAS Decoração: Cromática, uma coleção desenhada por Pedro Almodóvar

CARAS Decoração: Cromática, uma coleção desenhada por Pedro Almodóvar

Jornalistas Nelma Serpa Pinto e João Póvoa Marinheiro casaram-se no Porto

Jornalistas Nelma Serpa Pinto e João Póvoa Marinheiro casaram-se no Porto

Novo implante do MIT evita hipoglicémias fatais nos diabéticos

Novo implante do MIT evita hipoglicémias fatais nos diabéticos

Todos os finais de 'Rainha das Flores'

Todos os finais de 'Rainha das Flores'

Celebrar a Páscoa com escapadinhas para todos

Celebrar a Páscoa com escapadinhas para todos

Repórter Júnior: Entrevista a Luísa Ducla Soares

Repórter Júnior: Entrevista a Luísa Ducla Soares

Adalberto Ribeiro: “Não procuramos seguir modas nem programar em função do que é mais mediático. Procuramos artistas que tenham autenticidade, qualidade e algo para dizer em palco”

Adalberto Ribeiro: “Não procuramos seguir modas nem programar em função do que é mais mediático. Procuramos artistas que tenham autenticidade, qualidade e algo para dizer em palco”

E se os refugiados do clima formos nós?

E se os refugiados do clima formos nós?

Bárbara Branco e José Condessa em cenas eróticas em

Bárbara Branco e José Condessa em cenas eróticas em "O Crime do Padre Amaro"

O

O "look" de Letizia no reencontro com a filha em Marín

Familiares e amigos despedem-se de João Lobo Antunes

Familiares e amigos despedem-se de João Lobo Antunes

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Mário Laginha  e Daniel Bernardes: Mozart com um pé na música clássica e outro no jazz

Mário Laginha e Daniel Bernardes: Mozart com um pé na música clássica e outro no jazz

"Remigração": Extrema-direita reúne-se em Lisboa com plano para expulsar imigrantes

A Sagração da Primavera - Quando a morte é também fonte de vida

A Sagração da Primavera - Quando a morte é também fonte de vida

Guia de essenciais de viagem para a sua pele

Guia de essenciais de viagem para a sua pele

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Do Liberation Day ao Acordo de Genebra – O que se segue?

Do Liberation Day ao Acordo de Genebra – O que se segue?

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

As 80 capas de revista mais famosas e polémicas de sempre

As 80 capas de revista mais famosas e polémicas de sempre

Um século de propaganda na VISÃO História

Um século de propaganda na VISÃO História

"Girl in the Picture": A história verídica de abuso e ainda cheia de questões não respondidas por detrás do drama da Netflix

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Segway apresenta série de trotinetes elétricas Ninebot E3

Segway apresenta série de trotinetes elétricas Ninebot E3

As imagens das cenas de sexo lésbico de Margarida Corceiro na TVI

As imagens das cenas de sexo lésbico de Margarida Corceiro na TVI

Artesanato de Barcelos: A tradição que moldou a identidade de Portugal

Artesanato de Barcelos: A tradição que moldou a identidade de Portugal

António Casalinho: ninguém o pára

António Casalinho: ninguém o pára

Pode a Inteligência Artificial curar o cancro?

Pode a Inteligência Artificial curar o cancro?

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo