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Maria José Nogueira Pinto

Paulo Jorge Figueiredo

Maria José Nogueira Pinto nasceu a 23 de Março de 1952, em Lisboa, na casa do Campo Grande. Casada, era mãe de três três filhos e passou bastante tempo fora de Portugal.

“A seguir a 1974, fomos de Angola para a África do Sul, daí para o Brasil, daí para Madrid, e isso deu-me a noção do que é ser-se exilado, emigrante e refugiada. Fui isso tudo, e tenho um grande respeito por pessoas nessas condições”, contou durante a entrevista que deu à ACTIVA, em 2005, quando foi uma das nomeadas do Prémio Mulher ACTIVA.

Nessa entrevista, Maria José Nogueira Pinto recordou uma doença que a afetara no passado e de como o facto de ter estado muito doente a ajudar a perceber a condição humana. “Fiquei completamente diferente depois da doença. Nesta vida, ou se afasta a cruz ou, embora com medo, se aceita. Acho que isto é verdade mesmo para quem não acredita. A probabilidade de uma pessoa que nasceu como eu nasci nunca ter tocado nessas outras realidades era total, portanto eu só posso ter uma dívida de gratidão para com Deus por me ter mostrado isso.”

Foi deputada, líder parlamentar (a primeira mulher a liderar uma bancada no Parlamento), directora da Maternidade Alfredo da Costa.

E, revelou-nos na altura, guardou boas recordações de todos os cargos por onde passou.“Costumo citar uma frase do meu pai, que dizia que não sabe se eu faço tudo o que gosto ou gosto de tudo o que faço, e eu digo o mesmo. Gostei de tudo o que fiz, sempre que deixei de gostar, saí. Tudo são ciclos. Nunca pude planear a minha vida, e, portanto, passou-me cedo a veleidade de ter carreiras, o que vai havendo são ciclos que se abrem e se fecham e que eu recordo com ternura e saudade. Todos eles têm um desígnio, eu sou muito wagneriana, tudo para mim são cavalgadas. Quando me farto, saio do carrossel.”

Em 2005, Maria José Nogueira Pinto foi nomeada para o Prémio Mulher ACTIVA, devido ao trabalho que desenvolvia como Provedora da Santa Casa da Misericódia, cargo que exercia desde 2002. Apostou numa redefinição da vocação da Santa Casa – atender os mais pobres e carenciados –, implantando planos inovadores, de que foi exemplo o projecto Mais voluntariado, Menos Solidão, que apoiou mais de 1000 idosos de Lisboa.

“Quando aqui chegámos, constatámos que o grande problema desta cidade era o envelhecimento”, contou-nos Maria José Nogueira Pinto. “E que, associado ao ser-se velho, hoje numa cidade está a solidão,  e na origem da solidão está muitas vezes o abandono. O abandono e a solidão vão marcar determinantemente os próximos tempos. O problema é que toda a nossa cultura assenta no não assumir de responsabilidades, no não querer ver. Estávamos perante pessoas que iriam perder as suas capacidades, e ainda por cima isoladas, e tínhamos de fazer qualquer coisa por elas. Portanto, a primeira pergunta que me pus a mim própria quando entrei para a Misericórdia foi: como responder aos idosos isolados antes de ter dinheiro, e se essa resposta só assenta em recursoso materiais ou se pode assentar na solidariedade das pessoas.”

Independentemente de lançar uma linha para cuidar do problema do envelhecimento na cidade de Lisboa – com um conjunto de respostas que vão desde o apoio domiciliário aos cuidados paliativos e continuados, às residências assistidas, aos grandes dependentes, com um calendário de execução planeado para três anos, Maria José Nogueira Pinto apercebeu-se de que havia muita coisa que se poderia fazer só com boas vontades. “Juntámo-nos a dois ‘parceiros’ ideais: a associação Coração Amarelo, que está, por definição, constituída para este fim, e a Cruz Vermelha, que tem uma grande tradição em voluntariado. Portanto, associámo-nos os três e começámos a trabalhar nas freguesias mais envelhecidas da cidade, em articulação com as juntas de freguesia e com os párocos, a acompanhar as pessoas idosas que muitas vezes não têm carências económicas mas que estão isoladas e precisam de companhia.”

“Temos sido bem recebidos”, confirmou na época a provedora. “Os dois principais problemas com que nos confrontamos são os seguintes: a pobreza envergonhada, que não sai à rua, que não se quer mostrar, que tem relutância em aparecer. Por outro lado, há muita gente que não quer enfrentar a situação. A sua auto-estima degrada-se se o fizerem, é um processo psicológico muito complicado e que não podemos forçar.” 

Em 2003, como provedora, Maria José Nogueira Pinto encomendou um estudo para saber o que fora feito das crianças e jovens que frequentaram os lares da Santa Casa e acabou com um panorama pouco favorável. Conclusão: era preciso modificar a resposta a essas crianças, para que fosse possível ‘quebrar o ciclo geracional da pobreza’, apostando na formação profissional dos jovens.

“A Misericórdia tem uma excelente tradição em matéria de educação, mas a sociedade muda e as crianças também, é diferente ser um adolescente hoje ou aqui há 10 ou 20 anos. Esse estudo foi muito interessante, como o é o trabalho que estamos a fazer nos lares e os resultados que estamos a ter.”

A reorganização das respostas a jovens e idosos são dois trabalhos que confluem mas que são paralelos. “Entrámos em 2002 com uma situação caótica e em 2003 começou a reorganização dos lares para crianças e jovens. Pedimos ajuda a uma agência inglesa com uma grande tradição em diferentes modelos de resposta a crianças privadas de família. Investimos no trabalho com as famílias e nos centros de acolhimento e estamos a testar novos modelos.” Quanto à lentidão dos processos de adopção, afirma que se trata de uma ideia feita que não corresponde à verdade.

“A alteração na lei, só por si, não chega para mudar, mas os procedimentos foram muito agilizados. O maior problema neste momento é que os candidatos a adopção não querem crianças para as quais não se sentem preparados. Obviamente, se um casal pensa que não sabe lidar com uma criança de cor ou uma criança mais velha, temos de aceitar isso. Agora, esses casais também têm de ter consciência de que se colocam numa lista de espera para crianças que não aparecem tão frequentemente para adopção.”

Na época, a importância do trabalho de Maria José Nogueira Pinto foi realçado por Mercedes Balsemão, em nome da SIC Esperança:

 

Contactámos com a Dr.ª Maria José Nogueira Pinto por causa do projecto que a Sic Esperança está a desenvolver, Sorrir Não Tem Idade, e acho que ela tem o maior mérito devido a todo o trabalho que tem feito na Santa Casa logo desde os primeiros tempos em que lá entrou. Tem obra feita de uma maneira diferente da habitual, ou seja, ela começou por encomendar um estudo sobre a solidão e os idosos de Lisboa porque se apercebeu de que era esse um dos grandes problemas da cidade. Há muita gente a precisar de apoio, e ela desenvolveu uma rede de ajuda de modo rentável e inteligente, conseguindo dar apoio efectivo a essas pessoas. Devido ao Euromilhões, conseguiu ainda construir outro tipo de apoios para os idosos e pôs de pé um projecto que tem pernas para andar, não depende de uma pessoa. A terceira idade é um aspecto social muito descurado, e ela conseguiu enfrentá-lo e dar-lhe um grande impulso. Penso, portanto, que tem todo o mérito para ser nomeada para este prémio.”

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