Podiam ter-me dito!
Podiam ter-me dito!
Foto: Pexels/ Yan Krukau

Para assinalar a semana o Movimento LIFE – uma iniciativa contínua para conduzir a mudanças de comportamento e ações que contribuam para maior paridade na liderança no setor da Saúde – foi apresentado hoje o estudo “Igualdade de Género e Liderança : o que pensa a jovem geração da Saúde”, da autoria da GFK/Metris.É com base neste estudo e sobre o tema da liderança no feminino que Cláudia Ricardo, uma das co-fundadoras do projeto, assina este artigo que reflete como muitas vezes se condiera que as mulheres não têm perfil para liderar ou como elas próprias tem esse preconceito.

Podiam ter-me dito!


Quando comecei o meu percurso profissional, há mais de 25 anos, gostava que me tivessem transmitido alguns alertas que, sei hoje, iriam tornar o caminho mais fácil. É destas realidades que hoje tentarei falar.

Primeiro, desejava ter sabido desde logo que a discriminação de género existe por toda a parte, é uma realidade quase diária e está em muitos de nós, muitas vezes até em nós próprias, mulheres.

A discriminação de género é um fenómeno complexo e que pode ser subtil, enraizado em preconceitos conscientes e inconscientes que moldam ações e perceções.

Gostaria também de ter sabido que os estereótipos de género nos levam a julgamentos sobre as nossas capacidades, e sobre as dos outros, limitando o nosso potencial e as nossas escolhas. A falta de clareza e debate destas matérias prolonga estes estereótipos baseados em normas culturais enraizadas.

O preconceito inconsciente é uma máquina destravada que arrasta e prolonga a desigualdade de género. Vários são os exemplos e todos conhecemos alguns, tais como: fazer julgamentos baseados na aparência, assumir que as mulheres são mais propensas para as tarefas domésticas ou cortar a palavra a uma mulher enquanto fala, repetindo depois as mesmas ideias que estavam a tentar ser transmitidas. (E, sim, as mulheres são interrompidas com mais frequência do que os homens).

Estar ciente desta realidade ter-me-ia preparado melhor para os desafios que fui encontrando.

Outra aprendizagem que gostaria de ter tido mais cedo é a da importância do autoconhecimento; o autoconhecimento é uma ferramenta muito poderosa que, infelizmente, é também com frequência subestimada. Ajuda-nos a ter um mapa de nós próprios, a saber identificar os nossos padrões de comportamento, as nossas apetências e capacidades.

Entendo ainda que é indispensável procurarmos os nossos mentores. Pessoas que nos inspiram, que são um guia, um farol, um suporte; que são modelos de comportamento e que, ao mesmo tempo, têm a capacidade de nos iluminar os nossos pontos fortes, instigando-nos a capitalizá-los.

Gostaria também de ter sabido que é normal nunca nos sentirmos totalmente prontas a assumir um cargo, a abraçar uma liderança ou a gerir uma equipa. E porquê? Porque a síndrome do impostor acompanha muitas mulheres (e assumo que também alguns homens), levando a uma enorme dificuldade em reconhecer-nos méritos e capacidades.

Acredito que este é um dos grandes travões à ascensão de mais mulheres a cargos de liderança.

Pergunto-me se esta síndrome ainda é uma realidade entre as gerações mais jovens. Se for, o meu mais genuíno conselho é que o assumam, falem sobre isso, compartilhem o que pensam e sentem com as pessoas mais próximas e nas quais confiam. Em conjunto, procurem estratégias para mitigar esta síndrome.

Durante algum tempo assumi, erradamente, que teria caraterísticas pessoais incompatíveis com o padrão de uma líder, porque muitas das mulheres da minha geração cresceram com uma ideia de liderança estereotipada e, por isso, equivocada.

Até que percebi que a liderança não tem um só perfil e que nem todos nós podemos ou devemos encaixar em modelos pré-determinados.

Felizmente tive a sorte de trabalhar numa empresa que me permitiu crescer profissionalmente nunca perdendo a minha autenticidade, mantendo os meus valores e princípios, independentemente do cargo que ocupo. E, para mim, a autenticidade, a par da vulnerabilidade, é a chave de uma liderança que serve efetivamente as pessoas e as organizações.

Por fim, deixo uma mensagem fundamental. A competência não tem género. Este é um mantra que devemos repetir sempre, mesmo quando tudo à nossa volta parece insistir em mostrar o contrário.

Cláudia Ricardo

Co-fundadora do Movimento LIFE – Liderança no Feminino na Saúde

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