
As disfunções sexuais não são do homem ou da mulher; têm de ser vistas, tratadas e debatidas na perspectiva do casal. A Ejaculação Prematura (EP) desgasta a relação afectiva, faz com que milhares de mulheres não se sintam sexualmente realizadas ou que não cheguem a atingir o orgasmo. “Muitos dos doentes que nos chegam às consultas vêm quase que obrigados pelas companheiras”, diz Carlos Santos, andrologista da Clínica do Homem e da Mulher, em Lisboa.
A disfunção que mais afecta os homens
A ejaculação prematura acontece quando o homem ejacula no período de um minuto, ou menos, depois do início do coito vaginal, implicando também uma diminuição do controlo ejaculatório. Crê-se que um em cada quatro homens sofra de EP. “Pensa-se que é a disfunção sexual com maior predominância entre os homens. Não é exagerado falar-se em números gerais entre os 20 e os 30%”, diz António Santinho Martins, sexólogo clínico e endocrinologista. Mas poucos são os que procuram ajuda clínica. “Até agora, não existiam medicamentos especificamente indicados para a EP, ainda é tabu discutir o assunto, e o doente, muitas vezes, nem sabe a que médico ir. Além disso, muitos homens pensam que é um problema transitório”, observa Carlos Santos.
É uma doença?
“Na ejaculação prematura todas as etapas estão a funcionar bem, apenas depressa de mais. Mas trata-se de uma doença, na medida em que interfere com o bem-estar, afecta o equilíbrio socioprofissional, altera o humor, aumenta a ansiedade. Estes doentes têm um perfil de ansiedade próprio, que muitas vezes se assemelha à ansiedade na gaguez”, explica o andrologista.
As causas podem ser de ordem psicológica ou física. O stresse e a depressão podem provocá-la. Mas há outras razões: “Sabe-se que os indivíduos com níveis de testosterona mais altos ejaculam mais rapidamente”, explica o sexólogo. A principal causa fisiológica está ligada ao neurotransmissor serotonina. Todos os humanos têm receptores para esta substância que regula o nosso humor (entre outras coisas) espalhados pelo sistema nervoso periférico. Nos homens, quando há um desequilíbrio em dois tipos de receptores, aumenta a possibilidade de se sofrer de ejaculação prematura.
Resolvam juntos este problema
“Apesar de um homem poder ejacular sem ter um orgasmo – e vice-versa –, em 99% dos casos os dois fenómenos andam a par. A EP não inibe o orgasmo masculino”, explica Santinho Martins. “Ora, se continuam a sentir prazer, só procura tratamento quem está muito preocupado com o prazer da sua parceira.”
Hoje, a ideia de virilidade num homem está muito ligada à capacidade de satisfazer plenamente a mulher. Por isso, esta disfunção é motivo de baixa auto-estima e pode levar à depressão. “Em média, um homem sem disfunções leva cinco minutos e meio a ejacular; a mulher leva oito. E, dentro deste tempo médio de orgasmo masculino, só 30% das mulheres conseguem atingir o orgasmo”, explica-nos Santinho Martins.
Apesar de ser um problema delicado de abordar, mesmo para quem já vive junto há muito tempo, há maneiras de o fazer sem ferir sentimentos:
● Não aponte culpas. Apontar o dedo ao parceiro pela insatisfação sexual própria não resolve nada e só piora a relação. “Dizer que nunca teve prazer com o companheiro pode tornar-se numa situação muito delicada: depois ele contra-argumenta que ela mentiu sobre isso e talvez sobre outras coisas. Em consultório, algumas mulheres mostravam-se receosas em abordar o assunto com os maridos. O conselho que lhes dava era dizerem: ‘Não sei o que acontece ultimamente, mas não estou a conseguir chegar ao orgasmo. Se calhar preciso de mais tempo, ou andamos cansados. Talvez estejas a ejacular um pouco rapidamente. Podemos resolver isto juntos.’ Se for um indivíduo interessado, procurará ajuda.”
● Não finja o orgasmo. Fazê-lo só adia o problema. “As mulheres fazem-no com a melhor das intenções, para não ferirem os sentimentos do parceiro. Mas se ele pergunta se o sexo foi bom e ela responde que sim, então ficará convencido de que tudo corre bem na sua vida sexual.”
● Não faça diagnósticos. Não aponte a questão da ejaculação prematura definitivamente porque pode não se tratar disso. “Há homens que têm um tempo de latência ejaculatório normal quando fazem outros tipos de coito.” Por isso, faz sentido que o casal procure ajuda clínica em conjunto.
● Falem de sexo fora da cama. Os casais devem aprender a falar dos seus gostos e do que se passa durante o sexo sem acusações ou pudores. “É preciso uma boa relação interpessoal para falar destes assuntos – continua a ser difícil falar de sexo.”
● Apostem nos preliminares. É preciso retirar a ênfase na penetração e colocá-la nas carícias que promovam a excitação sexual feminina – as mulheres demoram, em média, mais dois ou três minutos a atingir o orgasmo. “Homem e mulher não têm que atingir o orgasmo ao mesmo tempo.”
Novas esperanças no tratamento
Até agora não existiam tratamentos eficazes para a ejaculação prematura. Para além da psicoterapia, receitavam-se sprays ou cremes analgésicos incómodos e pouco eficazes, e antidepressivos (inibidores selectivos da recaptação de serotonina), que tinham como efeito colateral o retardamento da ejaculação. Mas as dores de cabeça violentas que provocavam em alguns pacientes faziam com que muitos não aderissem ao tratamento.
O primeiro fármaco aprovado especificamente para a EP está no mercado nacional há dois meses, com o princípio activo dapoxetina. Promete alongar o tempo de latência ejaculatória – período entre o início do coito e a ejaculação – entre três e quatro vezes, é de prescrição médica obrigatória e não é comparticipado. “Toma-se apenas quando é preciso, uma hora antes de ter relações. Os efeitos desaparecem nas quatro horas seguintes, por isso os efeitos colaterais também são menores”, diz o andrologista Carlos Santos.