As filhas precisam das mães

As mães ditam as regras, fazem cara de má, e mandam arrumar o quarto. Os pais jogam playstation e levam a passear.

Nem sempre foi assim. No tempo dos nossos avós, ao papel de mau da fita cabia ao pai, que era tradicionalmente a fonte da autoridade. Com a maior autonomia das mães, estas passaram a assumir o papel de disciplinadoras.

A situação acontece tradicionalmente quando pai e mãe se divorciam, mas também é comum em muitos casais: a mãe é que impõe as regras, manda fazer os trabalhos e arrumar o quarto, e o pai joga playstation, dá presentes e leva as crianças a passear. Os sites (e a vida) estão cheios de desabafos de mães fartas deste papel de ‘polícia familiar’.

“”O meu marido deixa nas minhas mãos toda a disciplina, o que leva a discussões não apenas entre mim e ele mas entre mim e as crianças”, queixa-se uma mãe anónima no site de apoio às famílias www.dailystrength.org. “”Ele é que quer ser o bonzinho, por isso manda-me a mim resolver as discussões ou assuntos complicados. Quando ele manda fazer qualquer coisa, nunca se chateia o suficiente para verificar se foi mesmo cumprida, e claro que os miúdos se estão nas tintas. Isto põe-me doida porque sinto que estou a fazer tudo sozinha enquanto ele protesta que eu sou demasiado severa e picuinhas.”

As respostas analisam o problema: “O castigo tem de vir da parte da pessoa que assistiu à cena, por isso é natural que, na maioria das vezes, seja a mãe”, nota o primeiro ‘ajudante’. “Mas o pai tem de apoiar. Fale com o seu marido sobre a melhor forma de fazerem justiça juntos. Às vezes, estarem fisicamente juntos já ajuda…”

Há quem seja mais radical: “Não discipline. Se um dos pais fala e o outro não diz nada, é provável que as crianças não obedeçam. Fiz isto em minha casa e funcionou: durante uns dias, não chateei ninguém para se calarem, para estarem sossegados ou lavarem os dentes. Foi o caos, e o meu marido percebeu que tinha de ser um pai e não um amigo das crianças”.

Também há quem acrescente: “O meu marido também não queria nem sabia lidar com conflitos, e é difícil levá-los a perceber que isso funciona contra as crianças. Mas aconselho-a a não deixar que as crianças vos vejam a discutir sobre elas.”

E claro que há quem seja capaz de ver o outro lado: “Esta não será a sua resposta preferida, mas já pensou que o seu marido pode estar certo? Já pensou que pode estar a ser mesmo demasiado severa e picuinhas? Antes de partir para o conflito, pense em si própria e pergunte: eu gostaria de ser filha desta pessoa?”

Guarda partilhada, autoridade partilhada

Ser a ‘má da fita’ é uma situação que, também tradicionalmente, se intensificava com o divórcio: à mãe, que ficava com a criança no dia a dia, cumpria o ingrato papel de polícia. Ao pai de fim de semana, os presentes, as saídas, e os cinemas.

Mas também existia – e existe ainda – a situação inversa: a mãe é que organizava – e distribuía – o dinheiro pelas crianças, enquanto os pais estavam ausentes e retaliavam precisamente com a ausência de dinheiro, presentes, etc. “Nas classes mais baixas não é difícil compreender que o pai tem de dar uma pensão, mas cima da classe média os pais muitas vezes não cumprem”, afirma a psicóloga e jornalista Clara Soares, autora de vários artigos sobre divórcio e guarda parental.  “O método de retaliação através dos filhos ainda se mantém.”

Mas desde 2008 quando a lei do divórcio mudou que o regime da guarda partilhada passou a ser a regra, e a autoridade cabe… à pessoa que estiver na altura com a criança. “Ou seja, a autoridade acaba por ser quem está mais à mão”, nota Clara Soares.  “Os homens deixaram de ser pais de fim de semana e passaram mesmo a ter de ser pais a tempo inteiro. Portanto, o esquema tradicional em que o pai impunha a autoridade morreu, mas o esquema seguinte em que era o pai que dava os presentes também já vai pelo mesmo caminho porque, cada vez mais, pai e mãe têm as mesmas funções.”

As situações de desemprego fizeram aumentar o número de pais homens que passam mais tempo com os filhos, e equilibrar o ‘tempo de antena’ de pai e mãe. “O que já acontece muitas vezes é que, em algumas famílias, há uma divisão de tarefas”, nota Clara Soares. “As mulheres têm a seu cargo os familiares mais velhos. E os homens tratam dos filhos.”

A guarda partilhada impõe muitas vezes uma descontinuidade de espaço que pode ser complicada. Mas, defende Clara Soares, as crianças têm mais ganhos com este esquema, já que estão igualmente com os dois pais. Por outro lado, estamos numa sociedade de consumo, onde os filhos podem ser mais facilmente subornáveis. “É inevitável que as regras sejam diferentes em cada casa”, nota Clara Soares. “Mas isso é natural. E Se o tempo for de qualidade não é necessário dar alguma coisa para impor uma coisa que já tens, tipo ‘vou-te dar um telemóvel para compensar o pouco tempo que eu passo contigo’. Os miúdos percebem quando estão a ser subornados, e podem fazer chantagem: ‘Vou pedir ao pai para me dar o telemóvel porque tu és má e não dás.’”

Dar atenção ou dar presentes

Mesmo que seja a nível de dinheiro, estamos sempre a falar da atenção dispensada. “Mas as os filhos só exigem alguma coisa quando não se sentem suficientemente ambientados, e quando ninguém estabelece limites” nota Clara Soares.

Quando falta autoridade aos dois pais, o que acontece é que os presentes substituem uma relação, e as próprias crianças podem começar a exigi-las como compensação para o que não têm. “As crianças, se não têm o que é essencial, agarram-se ao que é acessório”, explica Clara. “E mais tarde, chegam a um ponto em que começam a odiar as pessoas à volta delas porque repetem o ponto de fuga que está automatizado.”

Por exemplo: um rapaz que foi ‘comprado’ com presentes por pai ou mãe, habitua-se a resolver a vida nessa base. “Imaginemos um rapaz que está sempre a fazer de homenzinho da casa para chamar a atenção da mãe. Quando passa o tempo a chamar a atenção da miúda e ela o ignora, ele dá-lhe coisas com medo de a perder mas sem necessariamente saber se gosta dela. Então, pode estar a repetir a operação de charme que foi obrigado a desenvolver para sobreviver em casa. Foi uma projeção para o exterior do seu ponto de fuga, o seu ângulo cego, aquela área que tu não vês porque está demasiado próxima.”

Ou seja, em conclusão, hoje em dia já não há esquemas definidos para a definição de autoridade numa família. A disrupção da trindade tradicional do pai, mãe e filho alargou-se a um leque imenso relações familiares que incluem meios-irmãos, meios-avós, tios herdados.

Podemos evitar ser a bruxa da casa

“As mães dizem que querem que a coisa mudem e que o pai também tenha responsabilidade, mas muitas vezes também são muito picuinhas e não querem abrir mão desse poder sobre os filhos”, afirma João Pereira, pai da Madalena, de 1 ano, e do Tomás, de 5. “Além de que, muitas vezes, elas tratam os próprios maridos como filhos, e portanto não lhes reconhecem qualquer autoridade sobre as crianças…”

Para evitar sentir-se a má da fita, nada como… escapar ao papel. Claro que há regras que têm de ser mantidas, mas escolha bem as suas batalhas, para não transformar a sua casa num campo de batalha permanente. Resultado de se andar constantemente em  guerra com as crianças: chegam a uma altura em que desenvolvem surdez filial, e já não ouvem – nem cumprem – rigorosamente nada. Perceba o que é essencial. Se calhar, ter uma criança boa, carinhosa e bem formada é mais importante do que uma criança arrumadinha e bem vestida…

Aconselham os psicólogos : sempre que puder (nem sempre é possível) fuja da ordem e consiga que façam o que quer de outra maneira. A rotina ajuda: quanto mais pequenas as crianças, mais fácil é habituá-las a um esquema que inclua regras para estudar, hábitos de arrumação e regras de convívio com os outros.

Tenha regras fáceis de cumprir: por exemplo, não exija que tenham o quarto arrumado na perfeição, mas se os habituar a arrumar todos os brinquedos depois de terem brincado e a pendurar o casaco quando chegam a casa, já é uma grande ajuda.

Quanto ao pai, é muito confortável ficar sentado no sofá (ou noutra casa…) mas os filhos também são dele. Em vez de se passar, sente-se com ele e discutam que regras são verdadeiramente importantes para os dois. Ele promete tudo mas depois continua a preferir ficar sentado a jogar playstation em vez de chatear a criança para fazer os trabalhos? Olhe, experimente seguir o exemplo dele e não se chatear. Será que o método dele não é melhor?

Ok, se a resposta for ‘não’, então jogue pelas suas regras. Mas muitas vezes, continuamos a jogar sozinhas…

Como partilhar responsabilidades

– Não ser demasiado picuinhas: assim que a criança nascer, decidir o que é realmente importante para os dois.

– Dê espaço ao pai para estar com a criança, mesmo que ache que as coisas não ficam perfeitas.

– Partilhem responsabilidades: é mais fácil se um ajudar nos trabalhos e o outro ensinar a arrumar o quarto, por exemplo.

– Se forem divorciados, continuem a seguir as regras que decidiram em conjunto, mas respeitem que haja regras diferentes em casa de cada um, desde que não haja perigo de vida para a criança…

– Relaxe. A maioria das coisas são menos importantes do que pensamos…

Palavras-chave

Relacionados

Mais no portal

Mais Notícias

Parabéns, bicharada!

Parabéns, bicharada!

Jornalistas Nelma Serpa Pinto e João Póvoa Marinheiro casaram-se no Porto

Jornalistas Nelma Serpa Pinto e João Póvoa Marinheiro casaram-se no Porto

Por dentro da prisão da Carregueira

Por dentro da prisão da Carregueira

CARAS Decoração: 10 ideias para transformar o velho em novo

CARAS Decoração: 10 ideias para transformar o velho em novo

Microsoft revela poupanças de 500 milhões com Inteligência Artificial, depois de despedir nove mil

Microsoft revela poupanças de 500 milhões com Inteligência Artificial, depois de despedir nove mil

Do Liberation Day ao Acordo de Genebra – O que se segue?

Do Liberation Day ao Acordo de Genebra – O que se segue?

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem "acordar" células cancerígenas adormecidas nos pulmões

Maria João Ruela reúne família na apresentação do seu primeiro livro

Maria João Ruela reúne família na apresentação do seu primeiro livro

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1731

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1731

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

Deus, intuição e Rock and Roll

Deus, intuição e Rock and Roll

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

Tudo isto é cinema

Tudo isto é cinema

Moda:

Moda: "Look" festivaleiro

A poesia que sai à rua em Salvador

A poesia que sai à rua em Salvador

Margherita Missoni: “A moda tem de  acompanhar o ritmo das mulheres”

Margherita Missoni: “A moda tem de  acompanhar o ritmo das mulheres”

A era da atenção fugaz: O que diz a ciência sobre a rapidez com que perdemos a concentração

A era da atenção fugaz: O que diz a ciência sobre a rapidez com que perdemos a concentração

Venha daí descobrir Matosinhos, cidade de mar, gastronomia, arquitetura e memória

Venha daí descobrir Matosinhos, cidade de mar, gastronomia, arquitetura e memória

Desfile de elegância na red carpet dos Prémios Sophia

Desfile de elegância na red carpet dos Prémios Sophia

A fruta comum que têm mais de 1600 elementos e que os cientistas querem ver reconhecida como

A fruta comum que têm mais de 1600 elementos e que os cientistas querem ver reconhecida como "superalimento"

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

Conheça Cândida, a concorrente mais ousada de

Conheça Cândida, a concorrente mais ousada de "Hell's Kitchen"

25 peças para receber a primavera em casa

25 peças para receber a primavera em casa

Paixão em “A Serra”: Marta e Fausto em sexo escaldante na praia

Paixão em “A Serra”: Marta e Fausto em sexo escaldante na praia

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Stella McCartney: designer distinguida na Nat Gala

Stella McCartney: designer distinguida na Nat Gala

Salgueiro Maia, o herói a contragosto

Salgueiro Maia, o herói a contragosto

O grande negócio dos centros de dados

O grande negócio dos centros de dados

Oficinas de verão onde a criatividade não tira férias

Oficinas de verão onde a criatividade não tira férias

Um século de propaganda na VISÃO História

Um século de propaganda na VISÃO História

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Cortes orçamentais de Trump podem levar a mais de 2000 despedimentos na NASA

Cortes orçamentais de Trump podem levar a mais de 2000 despedimentos na NASA

O dia em que a minha vinha ardeu. Entre as cinzas e as encostas  que se salvaram

O dia em que a minha vinha ardeu. Entre as cinzas e as encostas que se salvaram

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

As imagens da inauguração do Muzeu

As imagens da inauguração do Muzeu

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

O que os cientistas descobriram ao

O que os cientistas descobriram ao "ressuscitar" o vírus da gripe espanhola

Novo implante do MIT evita hipoglicémias fatais nos diabéticos

Novo implante do MIT evita hipoglicémias fatais nos diabéticos

Reportagem na selva mágica da Amazónia

Reportagem na selva mágica da Amazónia

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril