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Fartamo-nos de ralhar aos miúdos porque não largam os telemóveis, mas somos iguaizinhos. E se começarmos a pensar nisso, somos hoje viciados em muitíssimo mais do que os vícios ‘clássicos’ do álcool, do tabaco ou das drogas: somos viciados em coisas como videojogos, jogos-on line, séries, compras, sexo, açúcar, apostas, redes sociais e notícias. E a palavra vício não é usada por acaso.

A variedade e a potência destes estímulos constroem um mundo onde parecemos estar rodeados de excessos por todos os lados. Qual é o mal? O ‘mal’ é o mal de todos os vícios: retiram-nos qualidade de vida, autocontrolo e bem-estar, além de possuírem, todas estas coisas que mencionámos atrás, um poder aditivo brutal.

A dopamina é um neurotransmissor do cérebro, que pode ter um papel maior na motivação para receber uma recompensa que a recompensa em si. E é utilizada para medir o potencial viciante de qualquer comportamento ou droga. Quanto mais dopamina libertar o cérebro, mais viciante será uma droga. E hoje em dia, há milhares de substâncias, objetos e drogas que podem tornar-nos ‘dopaminados’.

No livro que se chama precisamente ‘Dopaminados’ (Ed. Nascente) a professora e psquiatra americana Anna Lembke parte da sua experiência para traçar um retrato absolutamente assustador de um mundo retalhado entre a dor e o praze, e explica-nos como funcionam estes vícios e porque é que têm um poder tão impressionante sobre nós.

O livro conta muitas histórias e experiências por que passaram os pacientes de Anna, bem como o percurso até se libertarem de forças tão variadas como a comida, a canábis, a masturbação, os antidepressivos, as apostas ou o álcool. Anna relata inclusive a sua própria experiência pessoal de viciada em romances eróticos cor de rosa, que, durante um tempo na sua vida, substituiram a necessidade de se confrontar com problemas famíliares e com uma profissão extenuante. Pode parecer – e era – um vício um bocado básico se comparado com anfetaminas, drogas, ou tabaco. Mas Anna parte desta experiência para mostrar que até mesmo um hábito aparentemente inocente se pode tornar aditivo.

Um dos principais fatores de risco para que uma qualquer droga se torne viciante, é a facilidade em chegarmos a ela. Tudo o que falámos atrás nos dá essa facilidade: não há nada mais fácil que pegar num telemóvel, por exemplo. Se calhar vocês até estão a ler este texto num telemóvel. Pergunta? Será que temos uma relação viciante com os nossos telemóveis, por exemplo?

Outro fator de risco é a nova era de hedonismo, em que se vive para o consumo e se procura um mundo sem dor de qualquer espécie: “A procura da felicidade pessoa tornou-se uma máxima moderna, relegando para segundo plano outras definições de uma ‘boa vida”, nota Anna Lembke

Queremos estar sempre ‘entretidos’, procuramos constantemente distrair-nos do presente. Como dizia Neil Postman, que a autora cita, “Os americanos já não falam uns com os outros, entretêm-se us aos outros. Não trocam ideias, trocam imagens.” E não poderiamos dizer a mesma coisa dos portugueses?

Os mais novos não escapam. A psicologia do desenvolvimento e a empatia na educação levou a mudanças positivas, mas também tornou a infância demasiado assética e patologizada, “criando os nossos filhos no equivalente a uma cela almofadada, sem forma de se magoarem mas também sem terem como se preparar para o mundo”.

Todos andamos a fugir da dor. “O problema é que todo este esforço para nos isolarmos da dor só a agrava”. Conclusão: “O motivo para toda esta infelicidade pode dever-se ao grande esforço que dedicamos a evitar a infelicidade.”

Outro problema é que, quando nos deixamos dominar por um vício, deixamos de nos reger pela razão e passamos a ser regidos pela balança do prazer e da dor. Promenor: esta balança avaria facilmente.

O que é que acontece: o cérebro visa constantemente o equilíbrio. Se sentimos prazer, a nossa ‘balança’ pende para o lado do prazer. Mas para que o equilíbrio seja reposto, há mecanismos reflexos que vão enviar dor.

Mas com uma droga, existe a habituação. “Com o consumo intenso de uma droga, o equilíbrio entre o prazer e a dor acaba por pender para o lado da dor,” explica a psiquiatra. “A nossa capacidade de sentir prazer diminui e a de sentir dor aumenta.” E chega a um ponto em que a droga deixa de funcionar e precisamos de mais para nos fazer sentir normais.

Boas notícias: se esperarmos o tempo suficiente, o cérebro adapta-se à ausência da droga e a nossa balança volta ao seu equilíbrio inicial.

Claro que a vida do dia a dia é mais complexa que uma balança. Cada pessoa tem a sua forma de reagir ao prazer e à dor, cada viciado tem o seu vício. Mas que somos todos hoje, por várias razões, perseguidos por forças poderosos e que nos agarram facilmente, é inegável. O que é preciso para recuperar o equilíbrio e o controlo da nossa vida: primeio tomar consciência do vício, e segundo aguentar o tempo suficiente de privação.

A sugestão da autora parece um bom modelo de vida: “Insto o leitor a encontrar uma forma de mergulhar plenamente na vida que lhe foi concedida. Deixe de fugir daquilo a que tenta escapar e, em vez disso, pare, dê meia volta e enfrente-o.”

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