Foto Pexels/Pixabay

Um pai de família esqueceu-se do filho bebé dentro do carro, e a criança morreu. Um caso que abalou o país há uns anos e que passou pelas mãos e pela compaixão de Cristina Felizardo, especialista em Aconselhamento no Luto.
“Recebo muitos casos incrivelmente dolorosos, em que a sensação é mesmo de enlouquecimento, principalmente quando há culpa, agravada ainda pela pressão social”, conta. “Mas nunca sabemos como as pessoas vão reagir.
O senhor que se esqueceu do filho, por exemplo, foi condenado universalmente por todos, menos pela mulher, que disse, ‘foi um acidente. Podia acontecer a qualquer pessoa’.

Quando se fala em luto pensamos inevitavelmente em morte, mas há vários tipos de luto, e todos feitos de forma diferente. A dor por uma separação ou um divórcio, por exemplo, também é considerada um luto, embora diferente do luto por uma morte. Para já, porque numa separação a pessoa é confrontada com a presença da outra pessoa. É um luto em vida. Quando a separação é feita por vontade dos dois, é mais fácil, mas quando apenas uma pessoa foi ‘abandonada’, o sentimento de perda é muito profundo e pode demorar tanto tempo a ser superado como o de uma pessoa em luto por morte.”

O caso de Cristina é de ‘luto em vida’: tem um filho com uma deficiência não diagnosticada, e depois do seu nascimento perdeu ainda mais um bebé. “Foi muito difícil fazer o luto da criança ideal e das crianças que nunca viria a ter, mas aprendi a aproveitar melhor o meu filho em vez de viver para as coisas más, como a doença.”

‘SERÁ QUE ESTOU A ENLOUQUECER?’
Quando morre alguém, sentimos sempre que ninguém nos compreende: e é verdade. O processo do luto é sempre solitário, porque o vínculo diz respeito apenas àquela pessoa. “Por exemplo, quando morre uma criança, a mãe tinha um vínculo com ela, e o pai tinha outro. E isso não pode ser partilhado”, explica Cristina Felizardo. “Cada um deles tem de cicatrizar a sua ferida, mãe e pai não conseguem ajudar-se. É esta solidão que leva muitas vezes à ruptura.” Muitas vezes, quando morre alguém, quem fica queixa-se que ‘eu tento desabafar mas ninguém me entende’ ou ‘as pessoas não me querem ouvir’. “Isto não acontece por maldade, mas por defesa. Se uma mãe perdeu o filho, isso lembra-nos a última coisa em que queremos pensar. Se é a perda de pai ou mãe, lembra-nos a nossa própria morte. Quando os pais morrem, passamos nós para a última linha. E a nossa finitude assusta-nos.” Quando nos morre um pai ou avô, quantas vezes não ouvimos “Ai mas também já era velhinho”, como se o amor que tínhamos àquela pessoa dependesse da idade. “Isto é horrível de ouvir, precisamente porque o muito tempo que passámos com essa pessoa intensificou a nossa ligação com ela”, nota Cristina. “Claro que não se espera que uma pessoa com 90 anos tenha muito futuro, mas a dor de a perder existe sempre, não tem a ver com o choque.”

Na morte de um filho, não se fala de aceitação, mas de superação. “Aprende-se a viver conformado, mas ninguém aceita, porque isso é uma derrota ao nível básico, em que falhámos como mães, sentimos nós”, explica a conselheira.
A única coisa a fazer é aprender a viver com essa perda. Imagine que tem uma dor crónica: já não é agonizante, não desapareceu mas fica latente.
“Muitos pais me perguntam: ‘Será que estou a enlouquecer? Eu ouço a voz dele, sinto a sua presença, fico às vezes no quarto dele a chorar agarrada à mantinha dele’. Isso é totalmente normal. Os outros acham que é doentio. Mas os outros não passaram por isso. O que eu pergunto é, isso ajuda-a? Sente-se melhor depois? Isso é que interessa. Nós nunca podemos dizer à pessoa que caminho ela deve seguir, porque nós não compreendemos aquele vínculo, mesmo que tenhamos passado pela mesma situação. A única coisa que podemos fazer é mostrar à pessoa que não está só e apoiá-la nos caminhos do luto.”

UM ESPAÇO PARA CHORAR
E como se aprende a ficar em paz? Imagine uma viuvez: ao princípio, a pessoa sente que vai morrer, parece que lhe tiraram o chão. “Estamos sempre em busca do ente querido: toca o telefone e pensamos, é ele. Passamos numa pastelaria e pensamos, vou levar um bolo de que ele gosta. Depois caímos em nós, ‘ah, ele já morreu’.” É aí que começamos a arrumar a vida.”
Muitas vezes há problemas financeiros, problemas com os filhos, uma data de ‘lutos parasitas’ que é preciso resolver. Isso vai obrigando a pessoa a tomar consciência da realidade. E quando finalmente a perda assume a sua dimensão real, a pessoa deixa de ser glorificada. “O morto deixa de ser um deus e passa a ser apenas o Carlos. ‘De facto, ele era bom marido mas saía muito à noite e não me dava satisfações’. Ou seja, em vez do marido-deus temos o marido-real.”

E à medida que o tempo vai passando, vamos ajustando a nossa perda. “Perder um deus é muito mais complicado que perder um Carlos. Mas claro que isto pode demorar muito tempo. Porque todos nós fugimos à dor, no nosso quotidiano. E num processo de luto, nós não podemos fugir. Não há aqui fuga possível, não há espaço para cho- rar. E é isso que aconselho às pessoas: arranje um espaço para chorar.” Portanto, isto é uma caminhada com dor, e vamos mesmo ter de enfrentá–la. Mas à medida que se vai ‘limando’ esta perda, esta caminhada é menos longa e dolorosa. “Também num caso de suicídio, por exemplo, a família se culpabiliza e é culpabilizada, mesmo quando não teve qualquer culpa. É uma culpa emocional e não racional, porque ninguém poderia fazer nada. Ideação suicida qualquer pessoa pode ter, inclusive as pessoas que passam por um processo de luto muito doloroso podem falar em matar-se. Mas quando se fala nisso, quase nunca se passa ao ato. As pessoas que de facto se matam são bastante difíceis de ajudar. Portanto, a culpa que os pais carregam é uma culpa instintiva, não tem lógica.”

Conclusão: as perdas podem acontecer, mas conseguimos manter a nossa força e sobreviver. “Porque tudo parte de dentro para fora. De nós para o mundo.”

OS SENTIMENTOS NÃO MORREM
Quando alguém morre, tudo o que nós somos é posto em causa”, nota Abílio Oliveira. Professor e investigador, é autor dos livros ‘O desafio da Vida’, ‘O Desafio da Morte’ e ‘Sobreviver’, e foi um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Suicidologia.
Aí percebeu que vivemos em piloto automático… “Quando acontece alguma coisa fora da rotina, que até pode ser entalar um dedo, aí abana tudo. E nada nos ‘abana’ mais do que a morte.
Como estamos habituados a reagir em vez de agir, quando alguma coisa abana o nosso autocontrolo artificial (que não é autocontrolo, é rotina) vai tudo pelo ar. Queremos encontrar fora de nós o que devíamos encontrar dentro.
Como fora de nós está sempre tudo a mudar, imagine a angústia.” Como é que voltamos ao controlo? “Temos de aceitar as coisas como são, e perceber que os sentimentos não morrem. Por exemplo: o meu pai morreu há muitos anos, e embora não esteja fisicamente comigo, não sinto hoje menos ligação com ele. Compreender isso dá-nos uma certa calma, porque percebemos que a ligação com aquela pessoa não se quebra com a morte, e isto independentemente das crenças que possamos ter. E há uma hipótese de que a morte não seja mesmo o fim.”

À medida que os anos passam, o que recordamos são as coisas boas que aquela pessoa nos trouxe. “É isso que importa”, nota Abílio. “Há ali um perdão, se for caso disso, e uma reconciliação, até da pessoa consigo própria. E só então é que a pessoa que morreu fica integrada em nós. O essencial é olhar para a nossa relação com aquela pessoa até não nos poder magoar mais. E o caminho, depois disso, é para cima.”


O QUE ACONTECE AOS QUE FICAM
Muitas vezes, a morte ilumina a vida. Ou seja, a morte de uma pessoa faz-nos reavaliar a nossa relação, quer com essa pessoa, quer com as que cá ficam. No caso da morte de crianças, em mais de 80% dos casos os pais separam-se. “O que une as pessoas, na maior parte dos casos, são apenas circunstâncias”, nota Abílio Oliveira.
“Se é amor, há uma continuidade de consciência em que um mais um é mais do que dois. Não é uma ligação superficial. Quando isso existe, a morte une ainda mais o casal. Mas na maior parte dos casos projetam a culpa e a ansiedade um no outro até à rutura.”

Às vezes, morre um elemento do casal e o outro vai a seguir. “A pessoa pensa: ‘que é que eu fico cá a fazer?’ Aquilo que nos faz viver é a nossa energia. Mas se renunciarmos a ela, é como se as nossas pilhas deixassem de ser carregadas. Há situações de dependência em que um se alimenta do outro. Mas muitas vezes, isso não é amor.”

E às crianças, o que dizemos, temos uma educação para a morte? “Claro que não temos. Quase toda a gente distorce a realidade inutilmente, de formas absurdas e inúteis. Ninguém diz às crianças que o avô morreu, diz-se que foi fazer uma viagem ou está no céu. E depois não queremos falar mais nisso.” Às vezes, ditos inocentes ficam para toda a vida. “Há coisas que muitos adolescentes ouviram em criança e que depois repetem, como ‘Eu quero ir ter com o meu avô ao céu’. Isto é terrível.”

O QUE SE DEVE DIZER?
“Primeiro, perguntar o que é que ela acha que aconteceu. Porque nós despejamos-lhe em cima os nossos traumas, ignorâncias, medos e angústias. As crianças são incentivadas a não pensar sobre nada que seja minimamente triste, e não perguntam mais para não incomodar e não entristecer os adultos. O que há a fazer é mostrar-lhes a natureza. Cai uma semente, depois nasce uma flor, depois a flor murcha, depois nascem mais. ‘Olha: connosco acontece a mesma coisa’. É todo um ciclo de transformação. E depois, aceitar que tudo isto nos traz muitas interrogações a que não sabemos responder. Quando as crianças nos dizem que sonharam com o avô e falaram com ele, quem nos garante que não é verdade? Nós vivemos num mundo de ilusões, numa selva de espelhos.”

Há que habituar-nos, como pais, a ouvi-las. “Temos de educar a criança o mais realistamente possível porque a realidade é sempre o que a vai agredir menos. Temos de ouvi-la quando se magoa. Não lhe dizer ‘deixa lá, não ligues’. Ou seja, vamos pondo pedras na mochila e não tiramos as que lá estão.”

Como lutamos contra a morte? “Com educação e amor. Educar é ajudar os outros a descobrir o que de melhor existe no seu íntimo: e começar por nós próprios. Quanto mais a pessoa está preparada para a vida, mais está preparada para fazer o luto.”

O QUE NÃO SE DEVE DIZER
. Deixa lá, ainda tens outro filho
. Não fales tanto disso, que isso faz-te mal
. Também já era tão velhinho…
. Deus deve amar-te muito para te dar esta provação
. Vocês são tão novos, ainda vão ter outro

COMO APOIAR ALGUÉM EM LUTO
“Há coisas simples que ajudam muito”, lembra Abílio Oliveira. “Levar a pessoa a dar um passeio, a apanhar ar, a almoçar fora, a partilhar histórias, dar proximidade e comunicação. Porque quando nos sentimos ligados aos vivos, mais nos sentimos ligados aos mortos. Ajudar a pessoa a perceber que é normal que ela tenha momentos de solidão em que possa meditar ou chorar ou rezar, para que ela perceba que é o que está dentro dela que a vai salvar. Claro que há uma fase em que as pessoas não querem nada disso, e é preciso respeitar. E é verdade que há coisas que só passando por elas é que as sentimos. Mas também há situações comuns que podemos partilhar e fazer com que os outros se sintam melhor. E ajudar com a vida prática, por exemplo. Às vezes lavar-lhes a roupa e levar-lhes comida é o melhor que se pode fazer por uma pessoa em luto.”



TESTEMUNHO
“DECIDI QUE NÃO IA DEIXAR QUE O SOFRIMENTO ME TORNASSE AMARGA”
Beatriz Marques passou pelos dois lutos: em morte e em vida. Aos 23 anos, perdeu o irmão num desastre de viação. Luís tinha 27 anos e vinha do Alentejo quando o carro se despistou e embateu numa árvore. Teve morte imediata.

“Recebi o telefonema de madrugada”, recorda Beatriz. “A minha mãe atendeu e eu percebi que se passava qualquer coisa estranha quando lhe pediram para me passar o telefone.”

Naquele momento, foi a escuridão total. “Os meus pais desataram a gritar. Eu fiz aquilo que a minha própria mãe sempre me aconselhava: ‘Filha, quando eu morrer, primeiro arrumas a casa e depois é que me choras’. Foi o que fiz. Primeiro fui fazer as camas e tomar banho, e depois é que liguei às pessoas.”

O que mais a chocou: que a vida continuasse como até ali. “A mercearia da esquina continuava aberta, o sol brilhava, e o mundo estava igual, mas o meu mundo tinha acabado.” Esteve em suspenso quase 5 anos. “Primeiro senti revolta: não saía de casa, fazia-me impressão a alegria dos outros. E depois tive de reconstruir tudo, e tive a sorte de contar com família e amigos fantásticos. Durante um mês os vizinhos todos os dias nos traziam jantar, e a minha irmã tratou de todas as burocracias. Em todas as mortes, há sempre a pessoa que trata de tudo e a que fica na cama a chorar. Eu fui a que ficou a chorar.”

A morte do irmão também a fez pôr tudo em causa: “O meu irmão era querido por muita gente, e portanto continua presente, não só em mim como nos amigos. Penso muito nisso. Porque há pessoas que se vão embora e mal se sente a falta delas. E é um grande conforto pensar que ele não viveu em vão.”

A morte mudou a sua vida: “Percebi como era importante aproveitar bem o tempo e dizer coisas como ‘gosto de ti, fazes-me falta’. Também decidi que não ia deixar que este sofrimento todo me tornasse amarga, mas me tornasse uma pessoa melhor. Outra coisa que mudou foi a consciência da perda: tenho muito medo de perder a minha irmã, os meus sobrinhos, o meu filho.” A vida de muitos pais estagna com a morte de um filho, e foi o que aconteceu com os pais de Beatriz. “Lembro-me de a minha mãe dizer: ‘Agora posso morrer’. Isso chocou-me muito. Então e eu e a minha irmã, não contávamos? Não éramos importantes para ela? Depois percebi que não se tratava de amar mais ou menos, mas que há sempre um dos filhos que precisa mais da mãe. E o meu irmão precisava mais dela do que nós, as que ficámos.”

O ‘LUTO EM VIDA’
Quando se separou, foi um luto igualmente sofrido. “O meu divórcio aconteceu muito perto da morte do meu irmão: o meu marido comunicou-me em plena rua que estava apaixonado pela minha melhor amiga e queria o divórcio. E o chão tornou a abrir-se debaixo dos meus pés. Ainda por cima, era um luto duplo: perdi o meu marido e a minha melhor amiga.”

Em certos aspetos, este ‘luto em vida’ foi pior do que o outro: “Quando morre alguém, endeusamos essa pessoa. Num divórcio, pensamos o pior possível dela. Claro que um luto em vida se resolve, enquanto o outro não. Mas num luto em vida tem-se a mesma sensação física de que se vai morrer. Além disso, este é um luto solitário. Quando morre alguém, toda a gente nos apoia e conforta. É um luto óbvio, respeitado e aceitável. Num divórcio, dizem-nos coisas como ‘ai, por amor da santa, é só um homem!’, ou ‘já devias ter ultrapassado isso’. Por sorte, tive uma chefe incrível que me disse, ‘vá para casa dois dias chorar e depois volte’. Eu chorava constantemente, chorei todos os dias durante um ano, de tal maneira que achavam que eu me drogava: estava magra como um esqueleto e tinha os olhos vermelhos. (risos). Até o dia a dia era difícil. Lembro-me de passar a hora de almoço na Igreja do Carmo a chorar. Pensava, ‘devo mesmo merecer este sofrimento todo, para ele acontecer.’”

Portanto, sofreu de formas diferentes mas com a mesma intensidade. “Mas como digo, a diferença é que este é um luto que se resolve. Hoje, cada um de nós tem filhos com outras pessoas e voltámos a ser amigos. Quem diria que isto podia acontecer. Quanto ao meu irmão, nunca o vou ter comigo outra vez. Mas ele está sempre presente na minha vida.”




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