Apresento-vos a Leonor, de 89 anos, a minha filha mais velha.

A primeira vez que tive de ajudar a minha mãe a tomar banho – há cerca de cinco anos – chorei. Sem que ela visse. Não podia permitir que a minha mãe, aquela mulher furacão, de personalidade forte e marcante, me visse chorar porque, pela primeira vez, as posições se inverteram.
A minha mãe sofre de demência e este é um caminho sem retorno, que a cada dia que passa se torna mais duro e mais sombrio. A forma que encontrei nos últimos anos de suavizar o que não é leve é olhar para a minha mãe como minha filha. Se calhar não é olhar, mas sim sentir. E sim, muitas dirão que está errado, mas eu falo com a minha mãe como se fosse uma criança, porque é assim que ela se comporta. Se dou um rebuçado ao meu filho, sei que tenho de lhe dar também porque sei que olha para mim com um ar guloso, como que a dizer ‘não te esqueças de mim’.
Como poderia esquecer-me, mãe? Como poderia esquecer-me da pessoa que me moldou, que fez de mim o que sou hoje, que me incutiu – desculpem a presunção – os valores certos. A mulher inquebrável, a mulher corajosa, que nasceu na ilha do Fogo em Cabo Verde, que só se casou aos 34 anos – na altura todos já pensavam que ficaria para “tia” – porque não queria nenhum dos seus pretendentes e queria ser ela a escolher o seu amor.
Um amor que encontrou em Angola, um amor de cinema que durou 54 anos e que só a morte a separou do seu Zé, há menos de três meses. A mulher que chegou a Portugal com três crianças de colo e o rótulo de retornada nas costas num país que não era o seu, ainda muito cinzento e racista pós-25 de abril. A mulher que há 26 anos identificou o filho morto na morgue. A mulher que ainda assim nunca perdeu o sorriso, a alegria (mesmo vivendo lado a lado com tristeza), a vontade de dançar e cantar. Poderia ficar aqui a enumerar todas as razões porque não me poderia esquecer da minha mãe.
A verdade é que quando me tornei mãe do meu Zé Maria, agora com 10 anos, a minha mãe tornou-se transparente aos meus olhos. Todas as questões que não entendia e que durante a minha adolescência – e mesmo na idade adulta – provocaram um choque de personalidades entre as duas, de repente eram transparentes como a água.
A maternidade foi para mim a maior lição de humildade. Finalmente percebi porque é que uma mãe, neste caso a minha, tinha feito isto assim, tinha dito aquilo em determinada altura, tinha ralhado comigo, tinha exigido mais naquele momento ou tinha ficado em silêncio… Finalmente percebi o que era ser mãe, esse caminho bonito mas difícil e que nos obriga a caminhar sempre com o coração fora do lugar.
O meu pai morreu há menos de três meses e o grande medo dele era que eu e a minha irmã não cuidássemos do seu grande amor como ele o fazia. Descansei-o. Se antes cuidava dela a 500 metros de distância da minha casa, hoje a minha mãe vive comigo.
E como um filho, já sei o que ela precisa sem falar, até porque ela já não consegue dizer-me o que deseja ou o que precisa. Já pouco anda e já se esqueceu das letras das músicas. Chama pelo meu nome mas não sabe quem sou eu. Está sempre sentadinha no seu sofá com o seu boneco ao colo, a quem dá beijinhos. Ela, que nunca tinha sido uma mãe de muitos beijos, dá muitos agora e é tão bom!
Todos os dias quando a vou deitar, agradeço o privilégio que é poder tê-la comigo e saber que a deito sempre numa cama limpa, quente, com um pijama limpo, alimentada, bem cheirosa, e que, como ao meu filho, lhe dou um beijo de boa noite e aconchego os lençóis.
PS: Obrigada ao meu marido, que cuida da minha mãe como se fosse a dele. Que não se importa da liberdade que perdemos e que tem um espírito de sacrifício maior do que eu. Obrigada ao meu filho por tudo e por ter feito de mim uma filha melhor.
Feliz Dia da Mãe!