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Jason Kempin

‘O Poder da Música’, uma produção independente protagonizado por Joaquim de Almeida e Aunjanue Ellis, mostra como a música tem o poder de ajudar um doente de Alzheimer.

A história do filme cruza-se bastante com a vivência pessoal do ator português, que na película chama-se Álvaro Cruz. Em ‘O Poder da Música’, a mãe da sua personagem padece de Alzheimer e acaba por falecer anos mais tarde, e o mesmo aconteceu com a mãe do ator português.

Com uma narrativa que não difere muito da sua própria experiência, o ator falou com a ACTIVA sobre o filme, explicou como o facto de a sua mãe sofrer da doença o influenciou no desempenho da sua personagem, e qual a sua opinião sobre o Alzheimer, Parkinson e outras doenças.

Qual foi a sua primeira reação quando leu o guião? Aceitou de imediato?

O Richie Adams [realizador do filme] mandou-me o guião e uma carta a dizer que gostaria que eu fizesse este filme e quais as razões. Para ele, um dos motivos era porque, dos trabalhos que tinha visto meus, achou que eu era um ator que falava com os olhos, e precisava de um ator/personagem que falasse quando não havia palavras… Eu tenho que levar o filme do principio ao fim, e é tudo uma coisa muito emotiva, uma coisa de observação. Por outro lado, fiquei muito contente com o guião, porque a minha mãe morreu de Alzheimer, e era algo que eu queria fazer. Quando o li, disse “quero fazer isto” – a minha mãe tinha 77 anos quando teve o desastre de automóvel que lhe causou esta doença – ao bater com a cabeça – e morreu aos 87 anos. Foram 10 anos em que não a via muito, mas, quando regressava a Portugal, observava o estado galopante da doença.

Quanto a Aunjanue Ellis, que faz o papel da cantora, tinha na altura a mãe a morrer também de demência, portanto foi muito forte para nós fazer este filme. E também pelo Doutor Nicolas Bazan, que foi o escritor da obra ‘Una Vida’ – e que é argentino, por isso é que a minha personagem é um argentino – e cujo livro reflete o sentimento de culpa que ele teve em relação à mãe, que estava a morrer… Tinha que decidir ir a uma conferência no Japão ou ir à Argentina, e resolveu ir primeiro ao Japão e só depois ir ter com a mãe, que morreu enquanto o filho estava fora. Logo, houve um triângulo e uma quantidade de pessoas que tinham interesse em fazer este filme.

Para responder à pergunta, eu gostei do guião e depois li o livro. O filme teve de ser adaptado, porque precisava de muito mais dinheiro, afinal, é um filme independente. Aliás, depois de o filmarmos durante seis semanas, em maio/junho, voltámos a filmar mais uma semana e meia, porque conseguimos mais dinheiro para poder acabar o filme em setembro desse mesmo ano. E, graças a Deus, nós todos queríamos que o filme saísse bem, porque se não tivéssemos filmado aquela semana e meia, não faria sentido, não era a mesma coisa.

Portanto o que o fez aceitar fazer este filme foi principalmente a carta do realizador e a experiência pessoal?

Não, não… E o guião. O guião é bom, só que eu sabia o pouco tempo que tínhamos para filmar, e dizia “como é que vamos filmar em 6 semanas? Epá, vamos filmar isto nestas semanas e o que faltar depois logo se vê.” E conseguimos depois arranjar mais dinheiro – eu também ajudei a recolher dinheiro – para acabar o projecto. Como sabíamos que não tínhamos tempo, tínhamos de fazer as coisas bem feitas, mas acabámos por conseguir mais uma semana e meia. Faltava o hospital, faltava a personagem a passear nas ruas de Nova Orleães. Aqueles pormenores que fazem com que o filme seja bom, se não ficava pobrezinho. E depois o filme tem ido a imensos festivais, nos Estados Unidos e na Alemanha, agora está cá [em Portugal] e vai ser vendido internacionalmente. A estreia mundial foi o ano passado em Nova Orleães, mas depois para vender internacionalmente demora mais algum tempo.

Para além da sua experiência pessoal, qual foi o trabalho de pesquisa que fez para a personagem?

Nós tínhamos a vantagem de ter connosco o médico que escreveu o livro, que é diretor do Neuroscience Institute of New Orleans, o Doutor Nicolas Bazan – e que nos levou ao hospital, onde falámos com os médicos que fazem pesquisa e ele próprio é um dos grandes especialistas desta área. Tivemos o Doutor Pierluigi, que chegou a entrar no filme como médico – e que é um dos grandes especialistas de Alzheimer -, aquele a quem eu telefono e pergunto sobre a música, porque o que ele andava a estudar era a ajuda da música na terapia. Estarmos a filmar e termos ali um médico é sempre positivo. Mas, sobretudo, era a parte emotiva em relação à mãe que me era importante e em que usei aquilo porque passei emocionalmente quando a minha mãe teve a doença,

Transportou muito de si para o filme…

Mas isso é o que nós fazemos sempre, mas aqui sempre foi mais fácil porque tinha a experiência da minha mãe.

Existe algum estigma pela doença, quer seja em Portugal ou noutros países?

Acho que o problema é que as pessoas não estão conscientes do grave problema que é o Alzeimer. Se não se cura o Alzeimer, daqui a 15 anos 1 em cada 7 mulheres vai ter a doença – isto é a estatística. Felizmente, parece que nos próximos dois anos se vão conseguir realizar avanços importantes. Não só o Alzheimer, mas a demência e o Parkinson vão ‘rebentar’ com os sistemas de saúde de muitos países europeus, porque não se consegue suportar a doença. E as pessoas esquecem-se disso!

A minha mãe tinha Alzheimer e o meu pai tinha condições para a manter em casa e para ter enfermeiras 24 horas por dia, transformou a casa para ela, porque no fim é muito difícil. Porém, a maioria dos familiares dos doentes não tem essa capacidade, não os pode colocar num lar, nem tem a possibilidade de se tomar conta deles, e então têm de ir trabalhar e os doentes acabam por ficar abandonados à sua própria sorte, em casa durante o dia onde não há ninguém para lhes dar de comer, para os levar à casa de banho. O doente de Alzheimer sofre porque está abandonado, mas, mais do que tudo, sofrem as famílias porque não conseguem dar o devido acompanhamento. E não é só essa doença. No caso do Parkinson, por exemplo, grande parte dos medicamentos não são comparticipados e são caríssimos. Tenho um amigo que tem menos quatro anos do eu [o Joaquim de Almeida tem 59 anos], que padece da doença e que fala sobre isso o tempo inteiro, e faz entrevistas em que não toma os medicamentos, para que as pessoas vejam como ele fica quando não os toma. As pessoas não conseguem pegar em nada, tremem, não consegue falar… Fui à Marcha do Alzheimer no domingo passado [dia 18] e foi com certa tristeza que constatei que não havia assim tantas pessoas. É importante que as pessoas se consciencializem e façam um esforço para que o Governo ajude os doentes com Alzheimer. Independente disso, este é um filme comovente e com um final feliz. Mas são filmes importantes… Tem-se feito ultimamente o ‘Amour’, o ‘Alice’, filmes que foram galardoados com Óscares e que são filmes que têm contribuído para essa consciencialização.

A consciencialização da doença passa por fazer mais filmes como este?

Eu acho que os filmes são uma coisa que tem ajudado as pessoas a pensar nisso.

Como é que foi gravar em Nova Orleães?

Já tinha gravado lá filmes, mas neste filme Nova Orleães é Nova Orleães. Já lá gravei filmes em que não era suposto parecer Nova Orleães. A cidade tornou-se uma segunda Hollywood de filmes porque há facilidades dos impostos, etc. Mas desta vez acho que Nova Orleães é quase como um terceiro personagem do filme, está muito bonita, e de certa maneira passa a sua essência para o filme.

O Hollywood Reporter congratulou-o por este papel, como recebe este tipo de elogios?

Ficámos contentes [ri-se]. Não é que eu ligue muito à crítica, para mim o mais importante são os prémios do público, que as pessoas tenham gostado do filme. Porque o público não é um júri, é o público que diz. Portanto, quando o público escolhe este filme como o melhor filme do festival, isso é importante, e este ano ganhámos muitos prémios do público. Isso é importante. O LA Weekly, por exemplo, também gostou do desempenho de todos os atores. Eu acho que de certa maneira é um trabalho de conjunto. Eu gosto muito do filme e sou suspeito porque estou no filme.

Mas neste caso em concreto, pela sua história, receber um elogio é diferente?

Eu gosto, sobretudo porque sofri muito com a doença da minha mãe. E ainda por cima porque não faço de vilão [ri-se], por isso é bom, sobretudo num filme americano.

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