Numa altura em temas como a economia circular estão na ordem do dia, todos os projetos que visam dar uma segunda vida àquilo que estaria destinado a sair de circulação são bem vindos. É por isso impossível não falar da Boudoir Vintage Boutique, uma nova loja vintage e segunda mão em Lisboa.

Fundada por Catarina Querido, fundadora do espaço Anjos70 e organizadora do Art & Fleamarket (antiga Feira das Almas), pretende-se destacar das outras lojas vintage na cidade através do foco na lingerie, que ocupa metade da loja. A outra metade é preenchida por todo o tipo de roupas vintage e em segunda mão, para todos os corpos e géneros.

Mas nada como ler a entrevista com Catarina, que desde adolescente é visitante assídua da Feira da Ladra, para compreender o conceito e a oferta deste novo projeto.

– A Boudoir nasceu durante a pandemia e por causa da pandemia. A sua vida levou uma ‘volta’? 

A minha vida como produtora de eventos e agente cultural estava suspensa devido à propagação do vírus, mas sou uma empreendedora por natureza e decidi aproveitar o momento para perseguir um sonho antigo e abrir um negócio de artigos usados. O sector dos eventos já está a retomar lentamente, pelo que estou a conseguir coincidir as duas paixões.

– De que forma as questões da sustentabilidade estiveram na origem da Boudoir Vintage Boutique?

A “fast fashion” sempre me fez impressão devido ao seu impacto a nível ecológico. Assim, desde adolescente que me atraía entrar em lojas de caridade ou visitar a feira da Ladra para encontrar os melhores negócios. Até no meio da rua cheguei a encontrar roupa e livros que levei para casa e dei uma nova vida. Porque continuamos a produzir mais coisas se já existem tantas? Se preciso de algo, seja roupa ou outro objecto, tento encontrar primeiro em segunda mão, e a verdade é que encontro quase sempre.

– Era um projeto que fazia sentido no seu percurso profissional tendo em conta projetos anteriores?

Depois de quase 10 anos a organizar a original “Feira das Almas”, hoje conhecida como “Art & Fleamarket” dos Anjos70, foi muito natural para mim começar a loja. Já tinha vendido roupa e acessórios quando comecei a Feira, portanto foi fácil voltar a entrar no negócio, e ter tantos amigos feirantes que me deram várias dicas foi muito importante.

– No que diz respeito à circularidade da moda, ainda há em Portugal muito caminho a percorrer? Há quem considere que há um certo preconceito social associado a comprar em segunda mão.

Penso que a flor tem vindo a desabrochar mais rapidamente nos últimos 5 anos devido a esta perceção de que a indústria do consumo está a magoar o planeta. Daqui para a frente esse preconceito será cada vez menor, como uma preferência pessoal.

– ‘Vintage’ é um nome ‘elegante’ para nos referirmos a peças usadas, ou há mesmo uma diferença entre os dois conceitos?

A palavra Vintage deve ser associada apenas a artigos com mais de 20 anos. No caso da Boudoir, apesar de trabalhar maioritariamente com Vintage, disponibilizo algumas roupas que não caem nesta categoria, mas isso já acontece em todas as lojas que se dizem Vintage, pois as pessoas estão a desapegar-se mais rapidamente das suas coisas, devido ao consumismo. Gosto de deixar isso claro em conversa com clientes e em algum conteúdo que posto no Instagram, mas quis adotar o nome Vintage na mesma para ser mais fácil entender que é uma loja de roupa usada.

O que distingue a Boudoir Vintage de outros espaços semelhantes, de venda de roupa em segunda mão, que existem em alguns centros urbanos?

Quando decidi abrir uma loja Vintage sabia que queria ter a minha imagem única e ter lá dentro algo que atraísse um nicho. Ao visitar a Boudoir encontramos peças que não se encontram em mais lado nenhum, pois a Lingerie acabou por ficar um pouco esquecida no mundo da revenda de roupa em segunda mão e eu estou a tentar acabar com esse estigma. A Lingerie e todo o conceito Boudoir (que em francês significa quarto de vestir ou da senhora) é o que salta mais à vista na seleção de todas as peças da loja, desde roupa a livros e objectos decorativos.

– A nível de contributos individuais, como é feita a recolha e seleção de peças que encontramos à venda?

O segredo é a alma do negócio! Mas eu tento que a maioria das minhas fontes seja local, ou no máximo faço viagens até Espanha à procura de fornecedores. A importação de roupa ao kilo de outros pontos da Europa (Alemanha, Holanda) é uma realidade de todas as lojas Vintage e que eu também utilizo de vez em quando.

– Há contrapartidas monetárias para quem vos entrega as peças que já não usa?

Não trabalho diretamente com o público, salvo raras excepções em que são artigos fenomenais e que fazem todo o sentido na Boudoir. Já recebi doações e já fiz trocas, mas não costumo comprar roupa a quem me entra na loja a perguntar se estou interessada. Prefiro que me enviem um e-mail com fotos e aí digo se quero ou não adquirir.

– Também revendem ‘deadstock’ de fábricas e lojas. Como tem sido a adesão a este nível? Os contactos partem da Boudoir ou já são as próprias marcas a ir ter com vocês?

O deadstock é uma parte crucial do meu negócio pois trabalho muito com roupa íntima, que tem mais desgaste. Soutiens, cuecas, meias, são artigos realmente difíceis de reutilizar. Por isso sou eu que procuro armazéns, lojas que fecharam, restos de fábricas e encontro bastante material. O meu último lote foram mais de 300 soutiens da Triumph dos anos 90 que estavam na cave de uma loja a acumular pó, e eu fui lá salvá-los. Para uma loja de lingerie nova, estes modelos já não têm valor pois estão ultrapassados, devido mais uma vez, ao consumismo capitalista. Mas para mim são autênticas pérolas Vintage!

– As peças são colocadas à venda tal como são entregues ou existe um trabalho de ‘recuperação’ e/ou reaproveitamento?

As peças mais especiais são realmente limpas, tratadas e às vezes até vão ao atelier de costura. Mas também poderão estar peças na minha loja com algum pequeno defeito que me passou ou que não consegui remediar, e faço uma atenção ao seu valor, porque entendo que também há outras pessoas que não se importam em encontrar estas peças e fazer o seu próprio upcycling, é algo que está muito na moda.

– No caso da lingerie, como tem sido a adesão das mulheres?

Incrível! Sobretudo entre as mais jovens.

– Têm também as tote bags da marca Boudoir, que no site estão praticamente esgotadas. Podemos dizer que o segredo está nas ‘frases’?

Foi um lote pequeno, o design é meu e espero fazer mais edições limitadas dentro do género, e serigrafia roupas reutilizadas.

– Neste momento, os resultados são melhores no site ou na loja física?

Quando comecei o projecto, as lojas ainda estavam encerradas devido ao confinamento, então comecei por vender muito online. Mas desde que abri a loja física, foco-me mais nesta. Ainda é complicado gerir as duas porque estamos a falar de peças únicas. Por isso já não tenho tantas peças disponíveis online. Espero no entanto colmatar esta falha em breve. A visita à loja física é neste momento muito mais recomendada, mas também vou colocando peças no site e no instagram.

– A Boudoir vai ter ‘irmãos’ ou para já ser filha única?

Espero que sim, não consigo ficar quieta. Já pensei abrir um pequeno café mesmo ao lado da loja, e gostaria abrir uma loja maior que inclua artistas locais. Só o futuro dirá!

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