Se estão lembrados (se não estão eu lembro) comecei há pouco tempo a minha saga de livros românticos. E digo comecei porque até agora só li um, mas sendo que foi no Dia dos Namorados, não foi assim há tanto tempo como isso.

Bem, para quem já tinha saudades, cá fica outro. Com uma diferença: o que eu me ri com este livro. A autora, Felicia Kingsley, é uma arquiteta italiana, e de facto o seu verdadeiro nome é Serena Artioli, que eu acho um nome muito mais adequado a quem escreve romances, mas ela saberá melhor. Foi a autora mais lida em Itália em 2023, e percebe-se porquê. Aliás, pensei que nunca tinha lido nada dela até me lembrar que não só li, como o pus aqui no Livro da Semana (ver destaques abaixo). (Se estiverem para isso, claro).

Bem, abri este ‘Uma rapariga de outro tempo’ numa de ‘estou com pouca paciência, o José Gil deu cabo de mim e das minhas esperanças para Portugal e para o mundo, vou mas é ler para me alienar’. O propósito de alienar de facto é cumprido: vamos a rir de uma página a outra, ou pelo menos vamos bastante entretidas durante quase 500 páginas, o que não é dizer pouco. Mas à boleia da Regência (já vos expliquei tudo sobre a Regência no Dia dos Namorados, não tenho culpa que tivessem coisas mais interessantes para fazer) a autora ensina-nos muito sobre esta época. Ok, não tenham medo, aqui não faltam os pontos-chave ‘regencianos’: os bailes, os vestidos, os pretendentes. Há romance, muito. Não é preciso pedirem o vosso dinheiro de volta. Mas tudo isso é visto pela heroína com uma certa irritação típica… de quem veio do século XXI.

O cómico começa aí: a ligeiramente nerd estudante universitária Rebecca Sheridan, uma apaixonada pela Regência, passa o seu tempo livre a inventar histórias passadas nessa época, em que ela própria é a heroína. Nesse ‘diário’ inventado, toma algumas liberdades poéticas: em 1816, continua a ter 21 anos mas é uma lady, orfã e riquíssima, ajudada pelo primo Archie (marquês), pela tia Calpúrnia e pelo tio Algernon, família completa com uma criada de quarto, uma melhor amiga e uma ‘melhor inimiha’, a insuportável lady Ausonia.

Numa reviravolta do destino, a Rebecca do século XXI dá por si em 1816 (no fim do livro a autora explica-nos porquê 1816, depois vão lá ver que eu não posso explicar-vos tudo). Mas não apenas em 1816: ela acorda mergulhada na vida, na família e no cenário que inventou para si própria. Nesta vida, não tem de estudar nem de trabalhar, tem de ir a infindáveis provas de vestidos e a igualmente infindáveis bailes, onde se vê o centro das atenções e cortejada por todos os solteiros ricos de Mayfair e arredores.

Problema: cedo descobre que a sua melhor amiga acaba de morrer de morte muitíssimo suspeita. Para a ajudar a descobrir o que aconteceu a Emily tem o ‘pirata’ (há sempre um) Reedlan Knox, um corsário de reputação duvidosa mas família ‘beta’, e logicamente muito mais interessante do que o empertigado do seu irmão duque que persegue Rebecca incansavelmente.

Pronto, isto é a história. Pormenor: o que aconteceu a Emily pode ser apenas uma forma literária de juntar Rebecca e Reed, mas acaba por ser interessante porque, à mistura com os bailes e os passeios de charrete, nos vai apresentando a vários cenários típicos da Regência mas que nunca entraram em nenhum livro de Jane Austen: uma tasca londrina imunda, a prisão de Newgate, o asilo de Bedlam, a forma como viviam as pessoas que não frequentavam os salões da aristocracia.

O cómico é que, graças ao ‘passado’ de Rebecca, o livro está cheio de piadas. Quando lhe perguntam num baile se ainda tem danças livres, ela responde que já tem muitos pretendentes. E quem: então – “Lorde Thimothée Chalamet, Sir David Beckham, Mr Harry Styles… – responde o lord: ‘Não creio que os conheça…’

Mais tarde, quando se veste de rapaz para entrar na prisão e precisa de um nome de homem, o escolhido é ‘Horatio Caine’. E por aí fora.

Também conhecemos Reed de algum lado. Esta parte não sei se foi intencional, mas é um primo muito muito muito próximo de Rhett Butler.

Tem a vantagem de ser um livro que pode ser lido por filhas, mães e avós, porque mesmo quem já não tenha 20 anos e não faça ideia de quem é Harry Styles se vai divertir muito com as aventuras de Rebecca e Rhett. Desculpem, Reed.

‘Uma rapariga de outro tempo’ – Felicia Kingsley, Ed. Marcador, E21,90

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