Aos 27 anos, a empresária Cataria de Almeida (hoje com 38) soube, “abruptamente”, ter nascido por Procriação Medicamente Assistida (PMA), descoberta que haveria de definir grande parte do seu percurso pessoal e profissional.

Membro da We Are Donnor Conceived, uma organização internacional de pessoas concebidas por PMA, luta pelo fim do anonimato da identidade dos dadores, tendo estado presente na ONU, em Genebra, como oradora, por ocasião dos 30 anos da Convenção Internacional dos Direitos da Criança.

Embora tenha começado tarde, foi graças à convivência com o seu pai biológico, um médico luso-angolano, que Catarina, formada em Direito, decidiu investir em negócios ligados à saúde. Em Portugal, mais precisamente em Oliveira de Frades, criou, em 2014, a Pantest, com o objetivo de fabricar testes rápidos para fornecer ao mercado angolano, onde tem uma empresa de distribuição de medicamentos e material hospitalar. A ideia foi “democratizar o acesso aos cuidados de saúde, independentemente do poder económico. Os testes rápidos, permitem o diagnóstico de várias patologias a preços acessíveis para todos.” A Pantest é hoje a única empresa portuguesa a fabricar testes rápidos e líder de mercado na sua distribuição.

Hoje, Cataria de Almeida é mãe de um menino de dois anos, também ele nascido por PMA, e divide a sua vida entre Portugal e Angola. Falámos com a empresária.

Afirma ter sido o primeiro bebé a nascer por Procriação Medicamente Assistida em Portugal, em 1984, no Hospital Militar, em Lisboa, mas, segundo o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, os primeiros registos oficiais datam de 1985 ….

A inseminação artificial já é feita há décadas. No grupo internacional a qual pertenço, há um membro com 70 anos. Em Portugal, antes de ser regulamentada (no início de 2000) já havia essas práticas clínicas, que não eram ilegais mas também não eram regulamentadas

Como descobriu?

Os meus pais conheciam um médico obstetra, que viria a ser o meu pai biológico, bem como a família dele, com quem eu cheguei a ter contacto, muitos anos depois, aos 27 anos. Por disputas familiares, um dos filhos desse médico, fez questão de usar essa informação como retaliação, para me abalar psicologicamente. Nesse contexto eu descobri abruptamente uma realidade diferente da informação com a qual cresci, e essa revelação foi um grande abalo psicológico. A identidade é uma coisa básica, é a nossa estrutura.

Tenho um filho por fertilização in vitro, e gostava de transmitir que acho fundamental o conhecimento dos dadores, e que as crianças tenham acesso a essa informação. Na organização do qual faço parte – We Are Donnor Conceived -, há casos de pessoas que morreram sem terem conhecimento de quem eram os dadores, mesmo tendo pedido aos tribunais para abrirem os registos. Esse pedido nunca veio a ser satisfeito, porque o tribunal considerou, que essa alteração iria quebrar a expectativa do dador de nunca vir a ser conhecido.

Há o caso de duas senhoras, uma inglesa e outra holandesa, que morreram com cancros de origem hereditária, que podiam ter sido curadas com uma doação, mas não encontraram dador compatível. Além destes casos, temos de considerar outras doenças hereditárias.

Há coisas mais fortes e o sangue é uma delas. É fundamental nós sabermos de onde vimos, qual é a nossa biologia. Mesmo que nos digam que estão a proteger o interesse superior da criança, estão na verdade a proteger o interesse de terceiros.

Qual o impacto que a ‘descoberta’ teve na sua vida?

Passou pela minha vida e tive que reconstruir tudo o que ficou. Vou reconstruindo todos os dias. O que não é necessariamente mau. A realidade não é boa nem má. A realidade são factos e há que viver com eles. Não sou absolutamente contra a PMA, pelo contrário.

É uma matéria que tem que ser regulada de acordo com o superior interesse do nascituro e esse ‘superior interesse’ não é o superior interesse dos pais, nem das clínicas nem dos dadores nem dos portadores. É o superior interesse daquele que não foi tido nem achado na situação. É a possibilidade de ter acesso à sua origem biológica e que isso não seja nem segredo, nem secreto.

Porque decidiu criar a Pantest e porquê uma empresa ligada à saúde?

Foi depois do ciclone. A minha área de estudo é Direito. Fiz a licenciatura, algumas pós-graduações, o mestrado e recentemente iniciei o doutoramento, que não terminei precisamente por falta de tempo.

A área da medicina é uma excelente área para investir. A área da saúde surgiu naturalmente. Primeiro porque sempre fui curiosa, depois porque após o ciclone comecei a conviver mais com o meu pai biológico e ele é médico e o interesse acabou por surgir numa feira em Düsseldorf a que fui com ele. Fomos à feira errada, mas encontrámos o caminho certo.

Que impacto teve a COVID no negócio?

É inegável o impacto que a COVID teve em todas as empresas da área da saúde. Houve um aumento da produção, consequente aumento da faturação ao qual acresceu, no nosso caso, a divulgação massiva da nossa marca, das nossas instalações e dos nossos produtos de uma forma geral. A Pantest já existia antes da COVID, já vendíamos antes da COVID. Já éramos conhecidos antes da COVID e antes mesmo da COVID já tínhamos certificações. Contudo, infelizmente, em Portugal existe uma cultura de desvalorização e desconfiança do que é feito em Portugal… Ainda para mais, quando está uma mulher à frente.

Como empresária, qual a sua visão da atual situação de Angola?

Em Angola a resiliência (a verdadeira resiliência) e a paciência são diariamente postas à prova. A vida em Angola é dura, mesmo para quem faz negócios. A volatilidade da realidade, por vezes, é um óbice ao normal desenrolar dos negócios. Contudo, sempre defendi  – e defendo – que Angola tem tudo para ser uma potência mundial. Temos boa terra e água para agricultura, minerais preciosos, um povo trabalhador que é verdadeiramente resiliente. Pense-se por exemplo nas mães que vendem nas ruas: ‘kinda’ de fruta na cabeça, filho na barriga, filho pela mão, filho nas costas e mesmo assim não baixam os braços e estão sempre dispostas a dar um sorriso e os bons dias. Ou aqueles pais que vendem água congelada na rua para sustentar a família. Isso sim é resiliência.

São resilientes as mães que vendem a ginguba torrada com banana, aromatizando as ruas onde estão. São resilientes os jovens que vendem pelo meio do trânsito. Com um povo com tamanha grandiosidade, Angola tem tudo para dar certo.

Há que saber que cada povo tem o seu tempo e que o tempo em África não é igual ao tempo na Europa. Os Europeus não podem querer impor modos de vida, de ser, de pensar… Há que respeitar as diferenças encontrando um ponto de equilíbrio.

Qual a influência que as suas raízes angolanas exercem na sua vida pessoal e profissional?

Novamente, a resiliência, o não baixar os braços, o dizer que sim a tudo – mas depois só faço o que entendo que devo fazer (risos) -, a generosidade e a imaginação.

Acima de tudo há uma coisa que falta em Portugal: o horizonte e o relativizar os problemas: ok eu estou mal, mas tenho que perceber que há quem esteja pior que eu e que eu não sou o centro do universo.

Há coisas que na Europa damos por adquiridas e que, na verdade, não são: a energia. Nem pensamos a sorte que temos quando acendemos um interruptor e temos luz. O mesmo em relação à água e a tantas outras coisas.

É difícil ser empresária em Portugal? Sente dificuldades acrescidas por ser mulher?

Claro que sim. Há uma desconfiança e um descrédito: “é mulher, alguém deu o que ela tem, trocou favores sexuais para ter o que tem” e coisas do género.

Como concilia a maternidade com a sua atividade profissional? É mãe solteira, quais os seus segredos de gestão de tempo?

Não sou mãe solteira. Sou mãe. O meu estado civil não anda atrelado à minha maternidade. Lá está outro preconceito: eu não vejo falarem de mães viúvas, mães casadas e mal casadas ou mães divorciadas. Ser mãe é algo que faz parte da pessoa, o estado civil é um estado. Até os verbos são diferentes, não se diz estou mãe, diz-se sou mãe.

Quanto à gestão do tempo, ser solteira, divorciada, viúva ou casada é indiferente. Na nossa sociedade as mulheres são sempre as mais sobrecarregadas. Independentemente do estado civil, até porque a sociedade exige mais delas.

O meu filho fica com o avô, com os avós ou vai para o colégio. Eu preparo as refeições dele quando ele fica em casa (isso é sagrado). É difícil, sim e só com ajuda se consegue não deixar o trabalho para trás. Muitas vezes – como o telemóvel é indispensável na minha profissão – estou a adormecê-lo no meu braço enquanto nas costas dele respondo a um ou outro email ou Whatsapp mais urgente. Outras vezes vou pôr o meu filho a dormir e adormecemos ao mesmo tempo ou adormeço primeiro que ele. Em qualquer caso é ótimo porque dormimos agarrados um ao outro.

Uma tarde destas, como ele sabe que a maior parte das vezes depois de ele adormecer eu me levanto, ele estava cheio de sono, fomos para a cama e o meu filho, para ter a certeza que eu ficava com ele agarrou-me nas orelhas, puxou-me para baixo e adormeceu com o meu queixo na boca dele. Acabámos por adormecer os dois, naturalmente.

Em Portugal, existe uma carência de estruturas de apoio à família?

Sim e isso é evidente. Os horários das creches e infantários são totalmente desadequados à realidade. Acho que a sociedade se esquece que há pais que trabalham por turnos, pais que não têm trabalhos das 7h às 17h.

É necessário que as creches e infantários tenham horários flexíveis e que sejam inclusivos daqueles pais que para trabalharem têm que ir deixar os filhos em amas muitas vezes sem formação nenhuma.

Que principais conselhos daria a uma mulher que sonha em ter um negócio próprio em Portugal?

Não confiar em ninguém, não ser boazinha e não ter medo que a chamem de réptil (na melhor das hipóteses). Não estamos aqui para fazer amigos, mas sim para trabalhar e ninguém sabe melhor que nós o que há para fazer.

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