Doze anos depois de trazer a Architect Your Home para Portugal, foi em contraciclo e com muita paixão que a arquiteta portuguesa comprou a casa-mãe britânica.

Foto: DR

Diz que esta paixão já nasceu com ela. “Em miúda já tinha curiosidade sobre casas antigas, de entrar numa casa abandonada e imaginar o que passou naquele espaço.” Arquiteta especializada em Reabilitação, Restauro e Recuperação de Património, Mariana Morgado Pedroso sublinha a importância da especialização e de uma sensibilidade única para intervir em edifícios que têm a sua história. “A reabilitação, o restauro e a recuperação exigem não só uma grande capacidade técnica como uma imensa generosidade de emprestar à ‘obra’ a nossa prestação em formato imperceptível, para não matar a personalidade do edifício. É preciso estar preparado para isto. Para mim, é muito gratificante e dignificante desenvolver este tipo de projetos.”

Lembra-se do primeiro projeto que assinou?

Perfeitamente. Após ter passado 10 anos a trabalhar para ateliers, agarrei dois projetos em simultâneo e que assinei com muito orgulho: a recuperação do Pavilhão Robillion, no Palácio Nacional de Queluz, e o Picadeiro Henrique Calado, para a Escola Portuguesa de Arte Equestre. Curiosamente, o primeiro projeto que entreguei para licenciamento em Câmara foi, contudo, um edifício de raiz para Cascais, após ter estado tantos anos dedicada à recuperação.

Quais os principais desafios da recuperação do património histórico?

Trabalho de relojoeiro, muito conhecimento dos materiais e técnicas construtivas antigas, muito estudo, apoio em especialistas (azulejaria, estuques, pinturas murais, etc.) e respeito pelo existente. Creio que é muito importante saber reconhecer o valor do património vernacular, para além do óbvio dos elementos decorativos mais vistosos. O que é novo deve ser visível, com excepção de casos em que a cópia é necessária para dar algum tipo de continuidade ao desenho arquitetónico ou espacial. Com isso, devo, como arquiteta que faz recuperação do Património, ter a coragem para assumir um design novo quando preciso, mas também a humildade de saber ser invisível quando necessário. Neste momento, temos em obra um projeto de longos anos – a recuperação do Palácio da Independência, em Lisboa, que abrirá em breve com o Museu da História da Independência de Portugal – e neste caso a minha intervenção é praticamente imperceptível, pois o intuito é a recuperação integral do espaço sem grandes alterações.  

Que projetos que lhe deram mais ‘gozo’?

O Palácio de Queluz – pelos desafios ao longo de quase três anos de obra. O Palácio da Independência, em curso. O Hotel Le Consulat, no Largo Camões, pelos desafios burocráticos de fazer um hotel naquele edifício. Temos várias recuperações de casas antigas que foram muito desafiantes. Neste momento, o Vila Rio, da Teixeira Duarte, num registo completamente diferente pela escala e alcance que terá – são os primeiros edifícios de uma nova zona de cidade junto ao Tejo que vão ditar o estilo de arquitetura para aquele local, uma grande responsabilidade e desafio. Aqui, sim, a intervenção como arquiteta vai ser visível e sinto que estou a participar na mudança, não só estética como no modo de se olhar para aquela zona da cidade. Eu diria que de vez em quando temos estas chances de participar na mudança de forma ativa e efetiva, e isso é altamente estimulante.

Se pudesse escolher qualquer um, que edifício histórico gostaria de recuperar?

Versailles!

Como define a Architect Your Home?

É uma empresa de arquitetura e decoração, com presença em Portugal e no Reino Unido. Com doze equipas de arquitetos cá, de norte a sul do país, desenvolvemos projetos para todas as escalas e em proximidade com o local da obra. Transformámos o sistema convencional de uma adjudicação única num sistema inovador de menu de serviços, que podem ser contratados à medida das necessidades de cada cliente. Tenho de confessar que tendo conseguido valorizar a marca inglesa em Portugal durante 12 anos, poder agora adquirir a marca em vez de ter de a vender, como está a acontecer com muitas empresas portuguesas, dá-me maior satisfação e orgulho. Sinto que faço parte dos que constroem este país.

É difícil ser mulher empreendedora em Portugal? E no Reino Unido?

Ser mulher empreendedora – e mãe – é igualmente desafiante cá e lá. Em termos profissionais, é claramente ainda um mundo de decision makers no masculino, por isso, tem de se aceitar que é normal ter reuniões consecutivamente com decisores homens. Ser mãe (tenho duas filhas maravilhosas) e montar um negócio é por vezes extenuante, é importante ter uma rede familiar que nos dê apoio para conseguirmos ter espaço mental para pensar no negócio, em especial nos primeiros anos de vida das crianças.No Reino Unido, há muito a expectativa de que as mulheres, ao terem filhos, parem de trabalhar por períodos longos ou apenas façam part-time, por isso sente-se muito essa pressão relativamente às jovens mães. Em Portugal, é ainda difícil imaginar uma mulher no meio de uma obra. Mas julgo que isso está também a mudar e espero contribuir para atenuar esse preconceito. Um dia, quero olhar para trás e saber que ajudei a construir a mudança.

Que legado gostaria de deixar às suas filhas?

‘Women can do anything’. Que não é pelo facto de serem mulheres que não podem seguir o que entendem ser o sonho delas, mesmo que o caminho das pedras tenha de ser percorrido. Penso que na geração delas já vai ser mais fácil e aos poucos vamos conquistando oportunidades iguais.

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