Sabe de que falam as mulheres na sala de espera de uma consulta oncológica? Falamos dos maridos, dos filhos, das dores da quimioterapia, mas também rimos muito. As conversas das mulheres são muito mais interessantes’, diz, a sorrir, Ana Paula Pé-Curto, professora de Português, 39 anos, ciente de que poucas pessoas fazem ideia da força que anima a luta contra um cancro da mama. A sua começou há três anos, quando uma mastite a levou a insistir com o médico de família para fazer mais exames e lhe descobriram um tumor. Não houve aviso prévio ou outros casos na família.

‘O meu tempo é muito valioso’


Ana começou logo a fazer quimioterapia após o diagnóstico. Parou durante um ano, mas teve de continuar as sessões após uma reincidência. O tratamento durou ano e meio. ‘É muito desgastante fisicamente, principalmente quando se piora’, conta. A vida não podia parar: havia os filhos, o trabalho, a casa. Na escola, as colegas apoiaram-na a 100% e até se disponibilizavam a trocar de horários. Nem todos reagiram tão bem.
‘Há gente que não deixa os filhos chegarem-se a nós (família) porque temos cancro. Podem não saber como lidar com isto. Nós também não ‘ sabemos; temos de aprender’, remata. ‘Não escolhemos bem os nossos amigos’, diz ironicamente. ‘Quando queremos ir beber uns copos, sabemos exactamente a quem ligar.’ Mas quando Ana precisa de desabafar com quem a entende fala com um grupo especial de amigas. Conheceram-se em hospitais e consultas. Todas têm cancro da mama.


Dispensou apoio psicológico porque o tinha da parte de quem mais lhe importava: o marido e os filhos. É neles e no seu espírito de sobrevivência que encontra forças para remar contra a maré da doença que agora lhe trouxe metástases à coluna e fígado. ‘Há fases em que o cancro está adormecido, mas, quando acorda, resta-nos insistir na qualidade de vida: trabalhar, tratar dos filhos, almoçar fora, estar com os amigos. Esta doença vive do medo. Se deixarmos de fazer o que nos dá prazer, vamos abaixo.’ Hoje sente que mudou: ‘Sou um pouco mais mal-educada. Agora, o meu tempo é muito mais valioso.’

‘Vivo mais o dia-a-dia’


Na véspera de ser operada à mama, Teresa Gonçalves preparou tudo em casa: fez sopa para 15 dias, organizou a roupa dos dois filhos, fez uma limpeza geral. Tentou planear o máximo que pôde, já que na vida há coisas que não se planeiam. Um cancro da mama aos 32 anos é uma delas. Um dia, o filho atirou-se para o colo dela e magoou-a. ‘Senti uma dor diferente. Telefonei ao meu médico e pedi uma ecografia mamária’, recorda. Ainda estava deitada na maca quando a médica lhe deu as más notícias. ‘As lágrimas começaram a correr descontroladas’, lembra. Uma citologia confirmou o diagnóstico. ‘Passei a funcionar como um robô.’ A operação que lhe retiraria um terço do peito foi marcada com urgência de 15 dias. ‘Então tive consciência da gravidade da situação.’ A médica preparou-a para ficar sem o peito ou apenas com parte dele e para o cabelo lhe cair durante a quimioterapia. ‘Senti-me respeitada porque ela foi firme.’


As reacções à notícia variaram: ‘Uns diziam-me que iria passar e evitavam falar disso. Mas também vi muitas lágrimas e pena. Houve quem me desiludisse. Comecei a respeitar-me um pouco mais.’ Foi encontrar o apoio certo na Associação Portuguesa de Apoio às Mulheres com Cancro da Mama. ‘Precisava de alguém que me percebesse, me ouvisse e respondesse às minhas dúvidas sobre a aparência, a sexualidade e o tratamento.’ Por lá começou a fazer reiki, uma terapia alternativa que lhe deu novo alento.


Ironicamente, ganhou mais ganas para lutar quando a sua mãe foi internada com um problema de saúde grave. ‘Voltei a ser a Teresa de sempre e a sorrir. Percebi que não tinha de ter pena de mim. Quis dar um testemunho de força aos meus filhos.’ Entretanto, passaram dois anos e ela entrou em remissão; parece estar tudo bem. E, entretanto, as suas prioridades mudaram. ‘Já não faço planos com tanta antecedência para uma casa maior ou uma viagem. Vivo mais o dia-a-dia.’

As respostas da medicina


Todos os dias aparecem 11 ou 12 novos casos de cancro da mama em Portugal mais de 4000 ao ano e 1500 mulheres morrem anualmente por causa dele. ‘Quem está nos hospitais a fazer tratamento vê caras novas a chegar’, confirma Ana Paula. Não existem números recentes sobre a incidência em mulheres jovens, explica Mário Bernardo, oncologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa. Mas a sua experiência clínica e a dos colegas que integram a Sociedade Portuguesa de Senologia diz-lhe que ‘se encontra um número crescente de casos, com a agravante de serem mulheres cada vez mais novas e com diagnósticos iniciais feitos em fases adiantadas’. Aos 50, uma mulher já fez pelo menos uma mamografia, mas abaixo dos 35 o exame é desaconselhado por causa das radiações. As ecografias mamárias também não têm a mesma acuidade. Como se apanha, então, um cancro em fase precoce? ‘Aumentando a formação de profissionais de medicina e a responsabilidade que cada cidadão deve ter com a sua saúde.’


Sabe-se já que a genética tem muito peso no aparecimento de casos jovens. Mário Bernardo lembra que existe no Instituto Português de Oncologia uma consulta de cancro da mama familiar, onde se faz a detecção e prevenção precoce destes casos. ‘Calcula-se que entre 4% e 8% do total de cancros da mama tenham origem familiar. O primeiro grupo de ‘clientes’ destas consultas são as filhas de outras mulheres que também o tiveram em jovens e que são imediatamente remetidas até lá.’ Existem outras explicações ‘mais nebulosas’ para um cancro da mama jovem, avisa o clínico. ‘O estilo de vida é muito diferente do que era há 30 ou 40 anos. O uso de contraceptivos orais é muito mais generalizado e precoce. Por outro lado, falamos das filhas das mulheres que primeiro tiveram acesso à pílula em altas doses e aos tratamentos de substituição hormonal.’


Mas há boas notícias. ‘A mortalidade baixou nos anos 90, estamos a curar mais mulheres, com diagnósticos mais precoces e terapêuticas mais eficazes. Mesmo as mulheres que não somos capazes de curar têm sobrevivências mais longas. Esta doença estimula muito a investigação, sobretudo de novas formas de tratamento’, afirma Mário Bernardo.

Curar a mente


Paula Viegas, psicóloga e vice-presidente da Associação Portuguesa de Apoio às Mulheres com Cancro da Mama, confirma que aparecem mais casos jovens por lá. Nem todas pedem ajuda nas mesmas fases da doença. ‘O ideal é virem num estágio inicial’, comenta. As primeiras reacções são quase sempre de incredulidade, rejeição e revolta. ‘Depois, vêm o cansaço e o desespero, até que se acaba por aceitar. Mas primeiro perguntam: ‘Porquê eu? Não fiz mal a ninguém!” Com o cancro chegam também a ansiedade, a depressão, um stresse profundo que acompanha as rotinas de tratamento.


Um cancro da mama vive-se de maneira diferente aos 30 e aos 50 anos. No pico da sexualidade, da beleza física, da força e da realização profissional, uma mulher jovem sofre tal como uma mulher madura, mas o foco da sua dor incide noutras questões. ‘Em ambas as idades se sente medo, angústia e até culpa. Uma mãe casada acha que não está tão disponível como antes para acompanhar os filhos e o marido. Numa jovem, o medo passa pela incerteza de saber se ainda vai poder casar e ser mãe. Têm outros projectos de vida que ainda querem realizar’, diz a psicóloga. Ana Paula Pé-Curto confirma. ‘Temos outra força para lutar… e os filhos ajudam nisso. Mesmo quando estou em baixo, sou incapaz de ficar na cama quando eles chegam a casa. Arranjo-me e ponho a minha melhor cara.’


A psicóloga é de opinião de que ninguém deveria passar por este cenário sem o apoio da psicoterapia ou dos grupos de auto-ajuda, onde várias mulheres com o mesmo problema falam de medos e dúvidas comuns. ‘Família e amigos evitam muitas vezes falar do assunto; não sabem como alegrar e transmitir coragem. O essencial é disponibilizarem–se a ouvir e deixarem a pessoa falar do que a atormenta. Ninguém ajuda uma mulher dizendo ‘Não penses nisso, tu vais melhorar’.’


No
Movimento Vencer e Viver, associado à
Liga Portuguesa contra o Cancro, dão-se conselhos de amiga, fala-se de tratamentos, ajuda-se a superar a fase pós-mastectomia. Também se vendem lingerie e próteses a preço de custo que são doadas a quem não pode pagá-las e ensina-se a viver com a nova geografia do corpo. Foi criado por mulheres que já passaram por um cancro da mama para ajudar os novos casos. ‘Perguntam-nos muito sobre a reconstrução do peito; querem saber se a fazem ou não. Pedem-nos para verem o resultado em nós. É um momento muito íntimo; expomo-nos, mas estamos a ajudá-las’, conta Conceição Matos, presidente e voluntária do Movimento.

Lutar em família


Como se dá esta notícia a uma criança de cinco anos? Teresa e Ana Paula tiveram ambas de enfrentar a situação. ‘Nesta idade, eles têm plena noção de que a mãe pode morrer e têm medo disso’, observa Ana. O seu filho mais velho, a princípio, não falava do assunto. ‘Hoje já verbaliza o medo.’ Foi por causa dele que comprou uma cabeleira quando a quimioterapia começou a fazer efeito. ‘Não me deixava sequer estender a roupa à janela sem ela’, recorda. Não foi caso único. Teresa não teria comprado a sua peruca se não fosse para tranquilizar o seu filho, para quem perder o cabelo já era sinónimo de morte. ‘Preparei-o e disselhe que, se o cabelo caísse, era sinal de que o tratamento estava a resultar. Mas ele não queria ver-me sem ela.’


As relações com o parceiro passam por uma dolorosa adaptação. Ana Paula lembra a incapacidade de o marido verbalizar o pânico que lhe adivinhava por dentro. ‘O nosso humor fica horrível, perdemos a paciência, a debilidade física mistura-se com o sistema nervoso alterado. As relações que se aguentam saem fortalecidas.’


Já Mário, o marido de Teresa, nunca admitiu que alguma coisa pudesse correr mal. ‘No primeiro impacto deixou de falar, não queria pensar que me pudesse perder. Para ele, eu não tinha um cancro; ia ser operada ao apêndice’, recorda. ‘Nunca tive medo de ficar sem ele: o amor que temos um pelo outro não iria ser abalado por uma simples operação.’ O amor incondicional tem destas coisas: quando o cabelo lhe caiu, foi ao marido que pediu que lhe rapasse o que restava. ‘Foi um luto. Não falei com ninguém durante três semanas’, recorda.


Para os homens é uma fase muito dolorosa, confirma Paula Viegas. Eles tentam perceber como lidar com a sexualidade e as alterações do corpo das companheiras, mas não sabem se as devem proteger mais ou, pelo contrário, desdramatizar a doença. Muitos podem acabar por parecer frios e distantes durante a adaptação. ‘Nenhum relacionamento acaba por causa de um cancro da mama’, observa ainda.

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