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Se não fosse humorista… Eh, pá, não sei fazer mais nada, estava tramado. Talvez fosse engenheiro químico, que era o que andava a estudar, e trabalhasse numa fábrica de cimento.

Tem superstições antes de entrar em cena? Sim, gosto sempre de telefonar à minha mãe e, não lhe posso pedir, mas ela tem sempre de dizer ‘parte uma perna’.

Quando tem que assinalar a sua Profissão o que é que escreve? Nas Finanças, estou como artista de teatro mas sou comediante, artista de rua e orador em palestras. Uma vez, nos EUA, ia para uma convenção fazer de Keynote Speaker, que é a pessoa que fala no início e no fim e dá o tom à convenção. No aeroporto quando me perguntam o que faço, digo ‘Clown Speaker’. A minha mulher ia tendo um ataque, mas o homem riu-se imenso e deixou-me passar.

O humor é universal? Não, há sempre referências culturais, mas tudo o que é físico é mais universal. Lá fora faço teatro físico e abordo coisas universais, mas tenho de adaptar. Na China o espaço pessoal é diferente da Suécia, em países árabes não posso interagir com mulheres ou falar de sexo…

Em países árabes as mulheres assistem? Sim, mas como não posso interagir com elas é a minha mulher que faz de ‘voluntária do público’. Até houve uma situação caricata no Dubai, porque faço vários espetáculos por dia e era sempre a minha mulher a participar, embora mudasse um pouco o cabelo e a roupa. No fim, um miúdo segredou-me que eu estava a ser enganado… porque a mulher era sempre a mesma. Já na Índia, por exemplo, estava cheio de problemas mas depois percebi que eles adoravam tudo o que era insinuação, claro, é o país do Kamasutra!

Qual é o público mais sisudo? No Dubai, por razoes culturais, reagem muito pouco. Em Portugal o pessoal do Porto é difícil, temos de provar primeiro mas depois são fiéis ate à morte.

Uma recordação da infância. Era um dia de primavera com sol, acordei e fui jogar computador, fui visitar a minha avó, voltei para casa e vi um episódio do ‘Quem Sai aos Seus’.

Também é ‘palhaço’ em casa? Acho que sim. Ontem a minha mulher acordou às três da manha comigo a fazer um programa de culinária para os cães na cozinha. ‘Mas o que é que estás a fazer?’ ‘Um programa de cozinha para os cães’. ‘Às três da manha?’ ‘Eles gostam do programa das três!’

Viseu, Tasmânia, Suécia, Londres… Nunca acorda sem saber onde está? Acordo muitas vezes sem noção das horas. Costumo dizer que ando com jetlag há cinco anos, porque mesmo em Portugal não tenho uma rotina fixa.

O que é que gosta que digam de si? Que sou um gajo porreiro, basta isso a sério. Mas no Dubai, uma vez ouvi um comentário de uma menina que ficou: ‘ele é tão engraçado mãe, estas são as melhores férias de sempre!’.

Como é que gostava de ser lembrado? Não tenho necessidade de imortalidade. Quero é curtir a vida. As pessoas querem fazer coisas que fiquem para quê? É um sentido de auto importância… Depois de morrer o que é que interessa para o morto se os que ficam dizem bem ou mal?

Qual é o sentido da vida? É não ter sentido. Se fizesse sentido não tinha metade da piada. Não se saber para onde é que se vai é uma aventura constante. Se houver algum sentido é fazer o que nos dá prazer ou tentar encontrar prazer no que fazemos.

Umas férias perfeitas… Andar em festivais de comédia a ver dezenas de espetáculos por dia. O de Edimburgo é um must. Mas também umas em que fui com a minha mulher fazer uma roadtrip de 26 dias sem destino, pela Califórnia. Acabámos na convenção Comicon e tivemos de dormir na rua para poder ficar à frente. É isto que levamos da vida, as experiências, andar por ai a ver o mundo e a viver as coisas e não ver só nos filmes e nos livros.

Gosta mesmo de quê? Ver museus de arte contemporânea. Vê-se cada coisa mais maluca que não lembra ao diabo, adoro! No da Tasmânia, por exemplo, têm uma máquina de fazer cocó e uma máquina de suicídios. A serio, entramos para lá e a máquina pergunta-nos se nos queremos suicidar, dizemos que sim e ela responde que vai iniciar o programa e começa a contagem decrescente. No fim informam-nos que morremos e saímos. É uma sensação bizarra.

Um petisco. Iogurte grego com romã. Mas também adoro enchidos, sushi, leitão…

Um livro de cabeceira. Tenho montanhas de livros de BD e de ficção científica. Agora estou a ler o ‘Shift’, do Hugh Howey, é uma trilogia apocalíptica.

O filme da sua vida. ‘The Thing’, do John Carpenter. Porque foi o primeiro filme em que entrei mesmo dentro do filme e tive aquela sensação de imersão total. Era miúdo, nunca me esqueci, tanto que nem quero ver de novo porque a memória pode ser melhor do que o filme.

Uma serie de culto. Uma não chega. ‘Black Books’, ‘Spaced’ e ‘Lost’.

O que é que o comove? A sequência inicial do filme ‘Up’ comoveu-me, por exemplo, mas também me posso comover com anúncios da internet, comove-me a superação humana e os atos de bondade.

O melhor aeroporto. Gosto do de Heathrow, na Grã Bretanha, por causa das revistas, e o de Nova Iorque, nos EUA, também é bom, mas passado pouco tempo são todos iguais… O ano passado passei duas semanas e meia em aeroportos e aviões. Já sou expert em perceber quais são as filas do raio x que se vão despachar mais rápido observando as pessoas. Conselho: fiquem sempre atrás dos executivos. São rapidíssimos.

O que queria ser quando era pequeno? E agora? Queria ser astronauta. E continuo a querer. Mas a minha profissão é o meu hobby, o que gosto mesmo de fazer é espetáculos ao vivo.

Em que país faz mais sucesso? Em Portugal faço bastante, os espetáculos estão sempre cheios, mas Nova Zelândia e Austrália são países que me estão sempre a convidar.

Se mandasse a primeira coisa que fazia era… Encontrar alguém que mande melhor do que eu.

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