
Foto: Alessandro Levati/Getty Images
Uma masterclass durante o Festival de Cinema Internacional de Riviera, em Sestri Levante, Itália, permitiu conhecer os pensamentos de Susan Sarandon sobre o que é feito agora do movimento #MeToo, sobre censura, o que deseja para as novas gerações e ainda o que espera das próximas eleições. Aos 77 anos, a atriz nova-iorquina continua a mostrar um espírito combativo e uma visão crítica do que a rodeia.
Vestida com um conjunto de camisa e calças azuis petróleo, Susan foi muito assertiva na abordagem que teve aos diferentes temas em discussão. Começou por associar a profissão de atriz com o seu lado ativista: “No meu trabalho, sou solicitado a usar a imaginação, e depois pedem-me, por exemplo, para imaginar como é ser uma mãe cujo filho foi bombardeado e está debaixo de escombros. Isso faz sentir empatia, e se tenho empatia não entendo como não ser um ativista. O trabalho dos artistas é testemunhar o que está acontecer, não é dizer às pessoas o que devem pensar. Atualmente isso é muito difícil pois há muita censura e quem faz muitas perguntas é castigado”.
Logo em seguida Susan Sarandon recorda o impacto dos comentários que fez de apoio à Palestina em novembro de 2023. Após essa demonstração de apoio, a atriz foi expulsa a agência que a representava há 10 anos, a United Talent Agency. “Trabalhei com essa agência durante 10 anos e nesse período colaborei com mulheres judias sem ter qualquer problema, mas a partir do momento em que participo de manifestações e em que digo o que digo, recebo um telefonema a dizer: ‘Não podemos continuar a representar-te’. Fiquei chocada, pois mais de metade das pessoas que participaram nessas manifestações eram judias. A forma como a História está a ser apresentada é um problema, pois cria divisão. Foi inesperado porque todos sabiam perfeitamente que eu era politicamente ativa desde o início da minha carreira. Desde os tempos de estudante. Vivemos numa época em que tudo é precário, imprevisível: a economia, o clima, os sistemas políticos. A censura nos Estados Unidos é muito, muito forte”.
Sobre as eleições presidenciais que vão acontecer em novembro deste ano, Susan Sarandon não hesita em afirmar: “Os Estados Unidos deveriam ser o país mais rico e inteligente, e estas são as opções que temos. Na realidade, existe apenas um partido, controlado pelo dinheiro corporativo, o lobby das armas e o lobby farmacêutico. Há poucas hipóteses de se fazer algo progressista. Bernie Sanders estava perto, e trabalhei para o apoiar. Ainda não temos saúde pública para todos, ainda temos a questão das dívidas dos estudantes, enfrentamos uma grande crise habitacional, há cada vez mais sem-abrigo, enfim… tudo é muito preocupante e ninguém mostra preocupação com estas questões. O meio ambiente também é um tema muito importante, mas ninguém fala sobre o assunto”.
Quando questionada sobre o impacto do movimento #MeToo, que teve o seu ponto alto em 2017, a atriz diz que “os direitos das mulheres são direitos humanos”: “Temos de educar os nossos filhos e não nos limitarmos a punir as nossas filhas. A educação que damos aos nossos filhos deve demonstrar respeito pelas mulheres, por isso espero que a próxima geração tenha essa mentalidade. Obviamente, algo coisa mudou desde o movimento #MeToo, mas também penso que criou polarização, uma maior divisão entre mulheres e homens”.
“À medida que envelhecemos, começamos a fazer mais perguntas, questionamos onde estamos em termos de direitos. Ter filhos permitiu-me ver como é possível que crianças extremamente doces são pressionadas por fatores externos a tornarem-se machistas. Perceber isso foi muito difícil, é uma tragédia. Hoje sinto-me feliz por podermos falar sobre esse assunto e por ver que há cada vez mais mulheres a apoiar outras mulheres.”