O Expresso fez 50 anos e foi uma edição feita em condições excecionais, pois foi justamente na semana em que o Grupo Impresa sofreu o lamentável ataque informático. Ao ver uma reportagem na televisão, chamou-me a atenção as miniaturas das páginas do jornal perfeitamente alinhadas na parede atrás do repórter. Pensei, ‘realmente, nós somos do papel (não no sentido de riqueza, infelizmente) e passam-se meses sem que, no processo de fazer revistas, toquemos numa folha que seja’. Não sou negacionista da tecnologia, longe disso, e só quem o fazia sabe a trabalheira que era recortar aqueles retângulos pequenos de papel e mudar a sua sequência sempre que entrava ou saía publicidade. E apesar de não ser do tempo em que todo o processo era manual – quando comecei, precisamente numa antepassada da Impresa, dava-se os primeiros passos no email – passei horas a folhear catálogos de imagens (um excelente soporífero) e a ver ozalides baços (provas que se viam antes das páginas seguirem para impressão).

Na mesma reportagem, não me passou despercebida a redação cheia, o frenesim de gente, e fui invadida por uma onda de nostalgia, daquelas gigantes que só acontecem na Nazaré das emoções. Era uma redação a sério, e não me refiro ao espaço físico a que ficou reduzida nestes últimos dois anos, e mesmo esse parece ter sido pilhado por impiedosos manifestantes de rua – faltam cadeiras e computadores e há cabos emaranhados no chão que ligam a coisa nenhuma. Aliás, uma excelente metáfora para as muitas ligações interrompidas pelo teletrabalho. Por redação quero dizer efetivamente o conjunto de pessoas que fazem (presencialmente) um jornal ou uma revista acontecer, e não me refiro às metades de pseudogrupos que se encontram de semana a semana ou de quinze em quinze dias e que passaram a reunir na cloud para uma troca de ideias demasiado amainada para se candidatar a tempestade.

A verdade é que nos habituamos a tudo. Isso é bom e ao mesmo tempo assustador (nunca mais fui a mesma desde que li ‘A história de uma serva’). Afinal, quem se lembra como era antes dos computadores, dos telemóveis, dos tablets? Antes do Priberam? Quem se lembra como era antes da pandemia? Não é voltar atrás. É não esquecer. As coisas boas e as coisas más. Em 2022, prometi que ia fazer esse esforço. De me lembrar como era antes da nuvem onde passamos agora a maior parte do tempo, que não é negra mas que não tem cheiro nem textura. Comecei por me lembrar como era antes da Netflix e do totalitarismo das redes sociais, quando, já deitada, abria um livro e sentia o toque do papel entre os dedos, as feições – e até o timbre – das personagens a formarem-se na minha imaginação (recordei também o difícil que é ler páginas pares na posição fetal).

E na crista desta enorme onda nostálgica, lembrei-me também das nossas leitoras e de como elas são sábias, sempre souberam o que eu irónica e temporariamente esqueci. Que nos leem assiduamente, que folheiam e sentem a textura e a fibra das nossas páginas, materializando e validando assim a nossa existência. São elas que todos os meses nos lembram que não somos só uma nuvem passageira. A todas, obrigada.

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