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Há uma frase que está muito na moda mas que me anda a apoquentar. O que é que pretendem dizer as pessoas que afirmam que querem ser “a melhor versão de si próprias”? Não percebo, porque não sendo possível ser a melhor versão de outra pessoa…  Creio que terá sido um efeito colateral dos movimentos de aceitação que vieram contrariar os estereótipos de beleza. Ou seja, temos de nos aceitar como somos, embora secretamente todas queiramos ser mais altas, elegantes e ter o peito empinado. E isso não tem a ver com aceitação: não vou todos os dias a correr para o espelho para ver se finalmente acordei com as nádegas no lugar do pescoço, mas se me perguntarem, o meu sonho será sempre a melhor versão da Charlize Theron. Somos livres de querer ser a melhor versão da vizinha do lado. O que não nos dá o direito de cobrar uma versão diferente à pessoa que está à nossa frente. E, se pensarmos bem, esta semântica quer dizer o quê? Se formos snobes, a nossa melhor versão será o pináculo da arrogância? Ou da humildade?

Baralhada? Eu também. A linguagem é traiçoeira, hoje mais do que nunca temo falar. No outro dia, num jantar de trabalho, na tentativa de fazer conversa de circunstância, o silêncio encheu-se de dúvidas pronominais: ela, ele ou elu? Quem somos e o que fazemos aqui?

Comentava com uma colega a recente polémica das redes sociais, a insurreição contra a expressão “que não custe um rim”. Todas sabemos o que quer dizer. Mas a indignação – por vezes violenta – instalou-se entre os que achavam que a frase era ofensiva. Na altura achei exagero, mas acusei a pressão quando dei por mim a pensar nas pessoas que no Afeganistão vendem órgãos para sustentar a família. Será o fim oficial dos rins de chocolate?

Realmente a linguagem tem de evoluir, juntamente com os atos, para a tolerância, mas não haverá casos em que somos irascivelmente intolerantes em nome da própria tolerância?

E agora, que só é socialmente aceite dizer “foi um gosto”. O que aconteceu ao “prazer”? Desde quando é que um aperto de mão foi promovido a preliminar? Daqui a uns tempos já todos teremos sido doutrinados neste novo glossário, como aconteceu com a palavra ‘fila’ há uns anos.

Já fui várias vezes atraiçoada pelas palavras, com maior ou menor importância. Quando morreu a prima da minha mãe, na tentativa de animar a filha, à espera de bebé, disse-lhe “estou MORTINHA para conhecer o teu menino”. E quanto mais falava mais me enterrava num léxico mortífero. É como o padre que me casou: tanto lhe disseram para não chamar Sofia à noiva Sandra – Sofia era o nome da ex-noiva do noivo da Sandra – que foi exatamente o que fez no dia da cerimónia.

Nem de propósito, só me lembro de uma expressão que poderia descrever na perfeição cada entrada desta crónica, mas como mete tiros e melros numa só frase, calar-me-ei com a mordaça do politicamente correto. Até relia esta reflexão irrefletida, mas temo que ao aspirar à melhor versão desta crónica ela só fique pior.

Assim, resta-me dizer que foi um gosto/prazer conversar com todos/todas/todes vocês. Um beijinho/abraço/high five especial à Sandra/Sofia. (Por favor riscar o que não interessa).

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