A redução da taxa de natalidade é um fenómeno comum aos países ocidentais industrializados. Em Portugal, e segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), os casais têm cada vez menos filhos e mais tardiamente. Em 2002, o índice de fecundidade (crianças por mulher fértil) ficava-se por 1,4, um decréscimo que se vem acentuando desde os anos 80, quando era de 2,2 filhos. E se recuarmos até aos anos 60, constatamos que Portugal era o país mais jovem da Europa, com 3,4 crianças por mulher. A continuar assim, em 2050 poderemos ser apenas 7,5 milhões, em vez dos 10 milhões actuais. Para lá do factor económico, fomos saber se a maternidade deixou mesmo de ser uma prioridade para as mulheres.

TER FILHOS SÓ DEPOIS DOS 30

Em 1985, as mulheres tinham, em média, o primeiro filho aos 23 anos. Hoje, a maioria (57,3%) tem-no por volta dos 27 anos e 40,3% optam mesmo por ter o primeiro rebento entre os 30 e os 39 anos. A opção tardia pela maternidade está ligada ao adiamento do casamento, que hoje em dia acontece entre os 25 e os 29 anos, quando há 20 anos andava pelos 20-24 anos.

Estes números são facilmente sustentados por qualquer observação empírica. É um facto que os jovens saem de casa cada vez mais tarde, adiando o casamento e a maternidade para lá da barreira dos 30, à espera de uma estabilidade profissional e económica que tarda. O calendário biológico não perdoa e o tempo para ter filhos vai ficando mais curto.

Mas o conceito de família também mudou. ‘As crianças ganharam outro significado na sociedade’, explica a socióloga da família Maria das Dores Guerreiro. ‘Os filhos já não são encarados como força de trabalho, constituindo, em vez disso, um elemento de fruição e u ma fonte de despesa cada vez maior. O grau de exigência das condições de educação dos filhos aumentou e os pais preferem ter só um e proporcionar-lhe uma vida melhor.’

PORTUGUESAS SÃO AS QUE TRABALHAM MAIS

A escolaridade crescente das mulheres port uguesas trouxe aspirações legítimas no domínio do trabalho que nem sempre são fáceis de conciliar com a m ater nidade. ‘Hoje, espera-se que a mulher ten ha o mesmo desempenho profissional que o homem, e uma carreira de sucesso faz par te dos seus objectivos, t anto quanto ter uma família’, diz a socióloga Maria das Dores Guerreiro. E se actualmente quase todas as mulheres apostam na educação 34,1% tem, inclusive, formação superior, no tempo das nossas avós ter a 4.ª classe era uma sorte. A falta de meios nas empresas que permita m conciliar o trabalho com a vida profissional não incentiva estas mulhere s a terem filhos, e poucas se podem dar ao luxo de abdicar do salário no fim do mês para se dedicarem apenas à família.

A desadequação dos horários de trabalho dos pais com os das creches e jardins-de-infância é outra das falhas apontadas, assim como a falta de políticas de reintegração das mães no mercado de trabalho depois de ficarem em casa a tomar conta dos filhos por um período alargado, como acontece, por exemplo, no Reino Unido. Como se não bastasse, ‘moramos longe do local do trabalho, perdemos horas em maus transportes públicos e somos o país da Europa onde as mulheres mais trabalham’, diz Maria das Dores Guerreiro. Dados recentes apontam para 71,9% a percentagem de mães trabalhadoras, contra 51,4% em 1991.

E LÁ FORA COMO É?

Actualmente somos 6500 milhões no mundo, mas a população tem aumentado graças a países com taxas de natalidade elevadas, como os da África Subsariana e do Médio Oriente. Já a renovação da população nos países europeus está em risco, sobretudo na Alemanha, Espanha, Dinamarca, Áustria e Portugal, assim como no Japão, China e Coreia do Sul. Segundo as Nações Unidas, em 2050, e pela primeira vez na História da humanidade, o número de idosos será maior do que o dos jovens.

O envelhecimento da população europeia tem suscitado uma crescente preocupação com a previsível falência dos sistemas de segurança social, já que a camada produtiva não será capaz de sustentar os reformados, que vivem até cada vez mais tarde. Por enquanto, a emigração não é suficiente para inverter esta tendência e a precariedade do emprego só vem piorar o cenário. ‘Se não forem integrados, os emigrantes irão continuar a fazer parte da rede de trabalho informal e da economia paralela, sem pagarem impostos nem contribuírem para a segurança social’, alerta a socióloga. A solução? ‘Terá sempre de passar pelo apoio à família e pela integração dos emigrantes.’

QUANDO O RELÓGIO BIOLÓGICO NÃO DÁ SINAL

A diminuição do número de filhos também pode sugerir que a maternidade deixou de ser uma prioridade para o sexo feminino. A definição de mulher sempre esteve associada ao conceito de maternidade, mas os paradigmas culturais estão a mudar. ‘Nos estudos, é cada vez maior o número de mulheres que diz que não se realiza através da maternidade’, revela Maria das Dores Guerreiro. Isto apesar de ‘Portugal ainda ser um país tradicionalmente conservador nesta matéria’. Afinal, nem todas temos vocação para ser mãe. Recolhemos o testemunho de algumas mulheres que ainda não sentiram o apelo da maternidade. ‘Gosto de crianças e de ser tia, mas não sei se seria uma boa mãe. Talvez goste de mais delas para querer que tenham uma mãe como eu’, LUÍSA BRANDÃO, 28 ANOS.

‘Adoro crianças e criei o meu afilhado até aos 8 anos, mas não tenho sentido necessidade de ter um filho meu. Até agora, a carreira tem sido mais importante.’ AMÉLIA JESUS, 32 ANOS. ‘Nunca pensei casar nem ter filhos, nem acho que isso defina uma mulher. Sinceramente, prefiro ter tempo para mim e, quando vejo os problemas que as minhas amigas têm, sinto algum alívio. A questão monetária também me aflige, pois um filho é uma responsabilidade muito grande’. MARIANA SANTOS, 34 ANOS.

‘Quando era adolescente, as minhas amigas adoravam brincar com crianças, mas eu depressa perdia a paciência. Os anos foram passando, e enquanto as minhas amigas ansiavam por ter filhos eu sonhava com viagens à volta do mundo, até que, aos 32 anos, assumi que ser mãe não me entusiasmava. As transformações no corpo, o parto… confesso que tudo isso me faz confusão’, LUIZA MACHADO, 40 ANOS.

VILA DE REI : MAIS BEBÉS A TROCO DE SUBSÍDIOS

Figueira de Castelo Rodrigo e Vila de Rei foram dois concelhos pioneiros na atribuição de incentivos monetários ao casamento e aos nascimentos como forma de travar a desertificação. E apesar de, no primeiro, a medida ter acabado, porque a Inspecção-Geral da Administração do Território ( IGAT ) considerou a atribuição ilegal, Vila de Rei já concedeu m ais de €93 250 ( cerca d e 18 650 c ontos ) desde 1998. Neste concelho, perto de Castelo Branco, o casamento dá direito a uma ajuda de €1000 e um filho registado a cerca de €750. A Câmara de Vila de Rei acredita que o aumento de nascimentos no concelho reflecte o sucesso da iniciativa.

Mas este tipo de medidas não é consensual, uma vez que não há provas de que consigam inverter a tendência descrescente da taxa de natalidade. Tal não aconteceu na Dinamarca ou na Áustria , que também atribuem subvenções deste tipo. Especialistas na matéria dizem que um incentivo financeiro poderá encorajar uma mulher a ter um filho mais cedo do que tinha planeado, mas não a ter mais filhos do que pretendia ter ou a tê-los se não o quiser.

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