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Desculpem lá, mas este pecado tem de começar por uma lição de semântica. Luxúria não é o mesmo que luxo (e luxuriante é ainda outra coisa, raça de língua mais criativa). Dizer “a Maria Antónia vive na luxúria” não significa que a pobre viva num palacete em Sintra com jacuzzi, BMW e 17 tailleurs Chanel. Segundo o dicionário, Luxúria significa desejo sexual incontrolável.

Embora luxúria e luxo não sejam a mesma coisa, partilham a mesma antepassada: a palavra (adivinhem lá) ‘luxuria’, que em latim significava excesso. Do excesso de dinheiro ao excesso de sexo, a distância não é assim tão grande, mas isso é outro artigo. Já para não falar no excesso de árvores.

Ó céus. Excesso de sexo. E qual é o mal? Só me lembro daquela anedota de alentejanos, em que um padre pergunta a um alentejano se é contra o sexo antes do casamento, e ele responde: “Não sou, desde que não atrase a cerimónia…” Decididamente, era preciso toda uma revisão da modernidade destes pecados. Como infelizmente passei três meses a dizer que aquilo que eu queria na vida era falar da luxúria, vou ter de descobrir alguém que fale comigo sobre isto. Tremei, mortais.

Somos todos tarados sexuais?

Ora bem: desta vez fico em casa, e vou passear ao nosso site (activa.pt), que prestimosamente me apresenta um artigo sobre ‘Os mitos do sexo’. Primeiro mito: os homens pensam em sexo de 7 em 7 segundos. Parece que é Falso (já não há homens como antigamente). “Segundo um estudo, só 23% dizem que têm fantasias sexuais constantes. Os outros estão demasiado ocupados a trabalhar, a pôr ‘likes’ no Facebook, ou a pensar na vida. Infelizmente, ninguém perguntou quantos homens pensavam no Benfica de 7 em 7 segundos.”

Mas falar de sexo com um homem parece-me boa ideia. Convido o humorista António Raminhos para me fazer uma visita (ai que mal que isto soou), a propósito do livro ‘O Amor não tem hora marcada… excepto nos classificados’, onde faz aquilo que a maioria dos humoristas evita: falar de mulheres. E homens. E (lagarto lagarto lagarto) relações. E então, começo logo por esta dúvida milenar: somos todos tarados sexuais? (é o que ele diz, atenção que eu só estou aqui a fazer o papel de advogada do Diabo) “Somos. Basicamente, somos iguais, somos é vistos de maneira diferente pela sociedade. Se um homem tiver muitas mulheres é um macho, se uma mulher tiver muitos homens é uma galdéria.”

Segue-se o politicamente incorreto: “Mas os desejos são os mesmos. Um homem pode enganar uma mulher, mas engana-a, em princípio, com outra mulher, logo essa mulher também está a enganar um homem… A diferença dos homens para as mulheres é que são uns desbocados. O Eddie Murphy diz que os homens são como os cães: se deixados à solta correm, ladram, partem tudo, fazem imenso barulho, o dono põe-no de castigo, o diabo a quatro. As mulheres são como os gatos: fazem pela calada, saem de noite, ninguém sabe onde é que andam, e quando voltam fazem miau e não se fala mais nisso.”

Sentido de amor

  Problema: cães e gatos – desculpem – homens e mulheres estão cada vez mais iguais. “Isso é-nos imposto pela sociedade. O facto de vivermos rodeados de maquinaria – telemóveis, computadores, elevadores a subir e a descer – acaba por nos desumanizar e por nos tirar tempo para os outros, e acaba por nos tornar mais iguais porque mais básicos. Passo o dia a trabalhar, vou sair à noite e comer alguém, porque não tenho tempo para criar uma relação…”

Pronto, estou oficialmente deprimida. E a coisa piora com a aptidão dos portugueses para… o rebanho. “Temos veia de acarneirados. Levamo-nos sem-

pre muito a sério, vivemos muito do olhar dos outros. Se alguém diz que isto é bom, vai toda a gente atrás. Se alguém diz que os Gato Fedorento são bons, só se vê Gato Fedorento, se alguém estipula que é de bom tom andar com o ‘Equador’ debaixo do braço, toda a gente anda. Problema: isso limita-nos. Acaba por tornar-nos mais iguais. Levamos um tratamento, como as maçãs, e ficamos todos grandes e bonitos e não sabemos a nada.” E quanto mais iguais, mais depressa nos trocamos uns pelos outros…

Como é que se evita isto? “Podemos começar por não nos levar tão a sério… Aprender a rir de nós próprios… A partir de certa idade, assumimos a ideia de ‘agora sou um adulto, sou diretor de uma empresa, não posso arriscar-me a ser tomado por palhaço’.

E o humor, é uma arma de sedução?  “Nem sempre. A mim, as mulheres veem-me como parvo, o que me retira qualquer réstia de atração sexual. Comecei, como todos os humoristas, como o palhaço da turma. As meninas riam-se mas não me levavam a sério. ‘Ai és tão divertido! Olha, sabes de quem é que eu gosto, é do Márcio. Podias falar com ele…’” Portanto, primeira receita: sedução misturada com o humor.

E a pornografia, é útil? “Aprendi muita coisa graças à pornografia. Claro que como vício é mau. Mas muitas das coisas que eu via e achava que não eram fazíveis, verifiquei que de facto funcionavam. A minha mulher não vê porque não gosta. De facto os filmes pornográficos são feitos quase todos do ponto de vista masculino. Mas um filme pode não ter romantismo nenhum, e se eu fizer aquilo com alguém de quem gosto posso acrescentar a parte romântica ao lado selvagem…”

Quero ‘tuppersex’

Próxima paragem em busca do lado selvagem: uma das mulheres que mais saberá sobre sedução. Peço ajuda à Alexandra Leal, diretora geral da Maleta Vermelha em Portugal.

Para quem não sabe, a Maleta Vermelha é uma empresa de produtos eróticos orientada para as mulheres, que trouxe para Portugal o conceito de ‘tuppersex’: reuniões onde várias amigas se juntam para verem, e comprarem, ‘brinquedos’ que vão dar mais chama à sua vida sexual.

Desde então, muitíssimos casamentos ganharam outra vida graças à Maleta, de onde saem plumas, corpetes, pós comestíveis, estimuladores, vibradores de todos os tamanhos e feitios, penas, algemas de pérolas… É a arca do tesouro.

Bem, mas vamos lá ao que me interessa. Quero ser uma ‘sex bomb’. Que é que tenho de fazer? “As mulheres mais sensuais que conheço, de fisicamente sexy não têm nada!”, lembra Alexandra. O que é que as torna sexy? “A confiança.” Mas isso é um lugar comum!, protesto. Ela ri. “E só porque já ouviu, não há de ser verdade? Eu sou sexy mas escolho mostrar quando sou sexy. Ser sexy não é vestir-se de forma sexy.”

 Afirma sem reservas que ela própria ‘testa’ os produtos com o marido.  “Aliás, ele é conhecido por El Dragon (risos) porque tem tatuado um enorme dragão e porque o ‘Dragon’ (um creme que potencia a virilidade) é o seu produto preferido. O meu é o Volaré, um estimulante clitoriano, que é também o nosso bestseller.”

Mas o produto que arranca mais gargalhadas nas reuniões é a tanga vibradora com comando: uma tanga de renda com um vibrador escondido, que se coloca perto do clítoris, sendo o comando entregue a outra pessoa. “Uma vez, tivemos um grupo de clientes da mesma empresa. No jantar de natal, trocaram os comandos. Imagine a gargalhada que deu, até porque elas não sabiam quem tinha o comando.”

Democracia no quarto

A maioria das clientes procura a Maleta Vermelha como complemento da relação que tem. “Todos os objetos, mesmo os vibradores e dildos, aparentemente criados para masturbação, podem incluir o homem. Não são necessariamente de substituição do parceiro.”

Em casal, vale tudo menos a falta de respeito, e a falta de respeito começa quando o outro não quer qualquer coisa. “Nas fantasias existe sempre um motor e alguém que é conduzido”, nota Alexandra. “Geralmente, quem conduz é ele e quem é conduzido é ela. Resta saber se quem é conduzido está a ser chantageado ou manipulado…”

Somos conduzidas porque somos menos imaginativas? “Não! Porque passámos centenas de anos agrilhoadas! Esquecemo-nos de que só tivemos liberdade de voto em 1975! A nossa democracia ainda agora está a atingir a maturidade, e o quarto é o espelho da democracia. O que se reflete no meu quarto e no da maioria das mulheres refletia-se antes numa ínfima minoria. Sou a primeira mulher da minha família a ter liberdade completa.”

Mesmo assim, ainda há quem não a tenha, e Alexandra regista as diferenças culturais no mesmo país. “Quanto mais afastada se está das grandes cidades, mais preconceito existe porque mais observada és. Quanto mais fechada a comunidade, mais agrilhoada te sentes. E não vais entrar numa sex shop. A nossa assessora de Vila Real faz reuniões no Porto, para as clientes não serem reconhecidas… Já fiz entrega de produtos debaixo de viadutos, como se fosse droga!”

Mas aleluia: estamos a caminhar para a libertação. “As mulheres estão mais felizes, atentas, exigentes e individualistas.” E os homens estão a acompanhar (ok, embora não pareça). “Já fazemos reuniões com homens. Diferenças: eles levam bloco para tomar notas, estão sedentos de aprender. Elas aprendem, mas estão ali acima de tudo para se divertirem.”

Em resumo:  o segredo de uma vida sexual saudável? Dar e receber. Fiquem bem. E boa luxúria para todos.

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