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Ao princípio, toda a gente sabe como é: andamos num estado de euforia constante, o corpo todo é um viveiro de borboletas, não conseguimos pensar decentemente. E depois a ‘vida’ ataca e o tempo passa, e embora se goste daquela pessoa, as borboletas já voaram para outro lado. As estatísticas não ajudam: 50% dos casamentos acabam em divórcio e 17% das pessoas casadas dizem que são infelizes. O que quer dizer que 67% das relações não criam casais felizes. O que é que estamos a fazer mal? Podemos apenas… estar em stresse. A culpa? É das hormonas.
“Quando as pessoas entram numa relação de longo termo, o maior erro que fazem é pensar que as sensações e comportamentos – especialmente sexuais – associados a estar apaixonado vão manter-se inalterados durante todo o tempo que durar o casamento. Isto não acontece”, nota em www.psychologytoday.com o terapeuta americano John Bradshaw, autor do termo ‘stresse pós-romântico’ e do livro ‘Post-Romantic Stress Disorder: What to do when the honeymoon is over’ (‘Stress Pós-Romântico: o que fazer quando a lua-de-mel acaba’).


A razão para o fim da paixão é simples (e pré-histórica): estamos geneticamente preparados não para vivermos apaixonados mas para termos filhos. A paixão serve apenas para unir duas pessoas. Depois disso, a natureza transforma aquela relação romântica numa união estável, ou seja, potencialmente apta a criar uma família, deixando as borboletas e o sexo louco que não a deixaria concentrar em nenhum bebé. E isto acontece mesmo quando o objetivo daquele casal não é ter filhos. “Penso que os casais deviam saber com antecedência que essa sensação de ‘estar apaixonado’ vai acabar e dedicar-se a construir um tipo de amor profundo e enriquecedor. Se entrarem em pânico, podem estar a deitar fora relações perfeitamente viáveis.”
Os papéis que nos regem
“Os estudos de stresse pós-romântico não se referem ao fim da paixão, mas ao próprio estado do amor”, explica o psicólogo e sexólogo Tiago Lopes Lino. “De facto a paixão dá origem (quando dá) a dois tipos de amor: um modelo de intimidade, amizade e amor conjugal, ou um modelo de decisão-compromisso, que é um amor vazio, em que as pessoas por vários motivos decidem ficar juntas.” O stresse de uma relação pode afetar ambas as relações. “Este stresse é responsável por 40% dos divórcios. A situação é fácil de detetar: há um afastamento, as pessoas sentem que já não têm nada em comum, que houve um esvaziamento da relação. Por outro lado, há sentimentos de pertença que intensificam o ciúme.”
Este afastamento é natural? “É. Porque nenhum ser humano aguenta um estado de paixão constante. É como um carro: se andar sempre em primeira, rebenta. Mas as pessoas ainda têm aquela ideia de que quando acabou a paixão acabou tudo.”
Lá por ser natural, não quer dizer que não haja muito que se possa fazer para o reverter e voltar, se não às borboletas, a um amor que nos preencha. O que se pode fazer começa por identificar os sinais de perigo. “Se uma das pessoas começa a andar mais irritada, por exemplo, é importante descobrir porquê, discutir o assunto sem medo. É que muitas vezes o stresse pós-romântico tem mais a ver com outros problemas que levamos para a relação. Nós desempenhamos muitos papéis sociais, e o relacional é só um deles. Há alguma coisa que está mal com o trabalho, com o chefe, com os filhos? Muitas vezes as pessoas zangam-se por causa das crianças, mas estão a zangar-se por serem pais, não por serem cônjuges.”
Ou seja, a relação entre duas pessoas pode ser afetada por tudo o que acontece nas suas vidas mas que não tem
nada a ver com o casal. E depois, a relação fica sempre em último lugar na lista das nossas prioridades, principalmente quando há filhos. “Eles são um grande amor de substituição, principalmente para as mulheres. É verdade que na natureza é assim que as coisas funcionam: a mãe cuida das crias e o macho, que já fez o que tinha a fazer, vai à vida (risos). Mas isto aplicado a uma sociedade organizada como a nossa causa muitos problemas. Chegam-me muitos homens com a sensação de que foram rejeitados, como um Édipo invertido: eles têm inveja dos filhos na relação com a mulher. E muitas vezes esta mistura de papéis – o de pai, de filho, de irmão – é muito difícil de equilibrar.”
Esse equilíbrio de ‘níveis’ é fundamental para que o amor dure: “Numa relação temos três níveis: o eu, o nós e o nós em sociedade”, explica Tiago. “Se canalizamos tudo o que somos e que fazemos para aquela pessoa, a relação acaba por rebentar.” E mais uma vez é preciso estar atento a este equilíbrio e aos sinais de que está a ser ameaçado. “Por exemplo, é normal que haja uma necessidade de o outro se individualizar, ter tempo para estar sozinho, para ir dar um passeio, ler um livro, ir ao ginásio, e isso não significa que quer acabar a relação, significa apenas que um dos pólos do esquema está ‘em baixo’.”

Operação salvamento
Outras atividades de ‘salvamento’ passam por aprender a escutar. “Temos de saber reconfortar, de aprender a medir a ‘temperatura’ de uma relação. Ou seja, se o outro está irritado, vamos logo aproveitar aquela altura para protestar e dizer o que nos apetece? Não. Se o outro está incomodado com qualquer coisa, aprenda a confortá-lo.”
Atividade de salvamento 2: fazer atividades só de casal. Deixe as crianças na avó e saia a sós com o marido. Mas não exagere: “Tenho muitos casos de casais sem filhos que viajam imenso. Ou seja, passam a vida em constante estimulação. E quando estão sozinhos um com o outro não têm diálogo.”
Ponto 3: criar uma lista de comportamentos ‘calmantes’. “Às vezes faz tão bem simplesmente sair de casa, dar a volta ao quarteirão, apanhar ar…”
Ponto 4: perceber o contexto. “Estou a discutir com a minha mulher porquê? Porque ela se apoderou do comando da televisão? Duvido. Ou seja, temos de aprender a perceber o que é que está de facto por trás destas guerras.”
Ponto 5: perceber o que podemos fazer para sair daquela situação e tentar que os dois mudem um bocadinho.
Claro que estamos a falar de situações padrão. “Um caso diferente são aquelas pessoas que andam numa insatisfação permanente”, nota Tiago. “Estão sempre insatisfeitas, arrumam a casa 50 vezes por dia. Não se faz isto, não se faz aquilo, não se vai para ali, tem de estar tudo muito arrumadinho, reclamam de tudo, isso é diferente.” O querer dominar é uma tentativa de controlo e de se sentirem úteis e consideradas, mas de facto transformam a vida de todos num inferno. “Arrumando a casa, arrumam a cabeça. Mas depois nunca nada está suficientemente ‘controlado’, ‘dominado’, ‘arrumado’. Se a pessoa não está em sofrimento, tudo bem. O problema é quando transforma a vida dos outros numa prisão.”
São casos difíceis de resolver? “São. Porque essa pessoa insiste que a outra mude, mas depois ela não acha que tem de mudar rigorosamente nada. Eu sou assim e os outros têm de me aceitar, mas o outro sim, tem de mudar para que as coisas funcionem. Ora o esforço tem de ser mútuo.”

Não espere pelo outro
Um dos conselhos de John Bradshaw é ‘não espere sentada’. Ou enfim: seja a primeira a fazer qualquer coisa. Não espere que o outro adivinhe os seus sentimentos, não espere pela conversa ideal, não espere pelo compromisso: dê o primeiro passo, seja afetuosa, mostre ternura, faça o que não é habitual, aprecie o caminho que ficou para trás e não caia na armadilha do stresse pós-romântico.

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