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Até que ponto é que os pais devem ser exigentes? O que é que achamos que estamos a fazer bem mas estamos a fazer mal? Qual deve ser o papel dos pais? Deve-se fiscalizar os trabalhos de casa? É normal que no início do ano se tenha muitas dúvidas: por isso fomos falar com Vítor Cruz, docente da Faculdade de Motricidade Humana e consultor em Dificuldades de Aprendizagem do SEI (Centro de Desenvolvimento e Aprendizagem), que nos deu muitas ideias para aplicar já.

Mude de prioridade

Até podemos querer que eles tenham boas notas, como qualquer pai. Mas isso não é o mais importante e pode mesmo ser contraproducente. “Há os que querem o melhor para os filhos e os que querem que os filhos sejam os melhores”, nota Vítor Cruz. Há uma diferença? Claro que há: “O mais importante de tudo é a felicidade da criança. Sem isso, nada se consegue. O sucesso académico será um acessório que pode contribuir para essa felicidade mas que não deve ser o principal objetivo. Estar focada em boas notas não ajuda em nada a criança, só vai stressá-la, e ninguém aprende em stresse.”

Ponha-se no lugar do filho

Vamos fazer um jogo: imagine que é mãe do João. A primeira etapa é pensar – O que é que eu quero para o João? A segunda: O que é que eu acho que o João quer? Terceira: O que é que eu quereria se fosse o João? O que é que o João realmente quer? Explica Vítor Cruz: “Na primeira situação, digamos que eu quero que ele seja o melhor da turma. Na segunda, diria que ele quer ser o melhor para me fazer feliz. Na terceira, quero ser o melhor da turma, naturalmente. Mas o que é que o meu filho quer? Quer que os pais fiquem felizes com ele. Mas para isso tem de ser o melhor da turma, quando ele seria mais feliz se os pais gostassem dele como ele é.” Portanto, tem de se colocar no lugar do outro sem o contaminar com aquilo que quer dele. Isso é bastante difícil de fazer mas é essencial para acompanhar os filhos.

Escolha a melhor escola

Parece básico, mas às vezes não é. “A melhor escola deverá ser aquela em que a criança se sente feliz”, defende Vítor Cruz. Mas a maioria dos pais está orientada para os resultados. “Pensamos que se a escola é exigente a criança será boa aluna. Mas muitas vezes isto não funciona assim. A melhor escola será a escola onde aquela criança seja mais respeitada na sua essência.” O problema é que temos receio de arriscar um sítio novo. “Claro que não podemos ter a certeza de antemão se um sítio novo vai funcionar. Mas se a criança não está feliz, vale a pena pensar numa alternativa.”

Volte às rotinas

Uns dias antes do regresso às aulas comece a treinar horários e responsabilidades, a habituá-lo a ir para a cama mais cedo, a saber fazer a sua mochila.

Fale da escola com alegria Em vez de ‘Ó que chatice, outra vez escola’, fale de experiências positivas que ele teve no ano anterior. “Seja específica”, aconselha Vítor Cruz. “Recorde os amigos que vai voltar a ver, as coisas novas que vai aprender. Se a experiência do passado for gratificante, mais depressa isso se vai repetir no futuro.”

Treine o cérebro… mas sem TPCs

Entrar no ritmo não significa sentá-los a uma mesa para os ‘habituar’ aos trabalhos. Mas há muitas formas de ir ‘acordando’ o cérebro. “A maneira mais efetiva de aprender é pela experiência, não sentados a uma mesa a debitar matéria”, explica Vítor Cruz. Por isso tire-os de casa, leve-os a um museu, leve-os às compras e peça-lhe para ir somando os preços, peça-lhe para lhe ler alto uma página de um livro enquanto você faz o jantar, peça-lhe para procurar uma receita, etc.

Converse

Não há nada mais estimulante para o cérebro do que a conversa. Mas uma conversa não é uma aula. “Converse com ele como conversa com um amigo. Por exemplo, quando se vai de carro para casa, cada um conta como foi o seu dia. Tal como as rotinas de dormir ou comer, também para a conversa pode haver uma ‘rotina’.”

Partilhe

“Faça perguntas. O que é que eles esperam do ano que aí vem? Muitas vezes eles podem ter medos que nem passam pela cabeça dos pais, e podem não ter os medos que os pais acham que eles têm”, nota Vítor. Lá porque você não gostava de matemática ou foi gozado por usar óculos, não quer dizer que a mesma coisa vá acontecer com eles. As crianças não falam? Pergunte-lhes e já fica a saber. “Claro que há crianças mais espontâneas do que outras, e uma criança pequena falará mais do que um adolescente, mas se for uma ocasião descontraída, à hora da refeição ou de deitar, eles falam.” Tudo isto será ainda mais fácil se for uma partilha. Fale do seu trabalho, do seu dia, das suas preocupações, das coisas que correram bem. “A criança percebe que aquele adulto não está a querer sacar informação ou controlar, mas a partilhar.”

Abra o jogo

Seja solidário, diga ‘gosto de ti, amo-te, preocupo-me contigo’. “Temos medo de mostrar emoções, mas elas são o caminho para uma relação de confiança. Mostre que está ali para escutar, sem telemóveis, sem televisão. Treine-se para ouvir o filho sem interromper.”

Participe da vida da escola

Conheça o sítio, saiba o que se passa, incentive a criança a participar em atividades, tenha tempo para ir com ela quando for preciso ao que ela gosta de fazer.

Ajude-o a organizar-se

“Os pais devem acompanhar os filhos, mas nunca fazer por eles nem enervá-los”, explica Vítor Cruz. “Há pais muito stressados que fazem mais mal do que bem quando tentam acompanhar os filhos: aí mais vale pedir ajuda a outra pessoa. Quanto mais descontraído e menos ‘fiscalizador’ for este estudo, mais efetivo será. A ideia é tornar a criança cada vez mais independente.”

Adapte o que puder

Uma das principais queixas dos pais é a dificuldade de concentração. Mais uma vez, ponha-se no lugar deles, aconselha Vítor. “Nós dizemos ‘Antigamente estávamos focados num assunto durante muito mais tempo’, mas eles hoje, por exemplo, mudam com muito mais facilidade de uns assuntos para outros. São formas diferentes de pensar. Outras vezes estão mesmo cansados ou desinteressados.” O mundo em que nasceram também não ajuda. “A sociedade enche-os de solicitações, e a escola continua a ser memorização, penalização, sacrifício. Muitas crianças são bombardeadas com informações absolutamente inúteis quer para a idade quer para a necessidade deles, atual ou futura. Tudo o que acontece na escola e fica na escola, é uma perda de tempo. E se a motivação é apenas ‘vais ter teste para a semana’, com que prazer se estuda?” Portanto, se a escola não facilita uma aprendizagem virada para os interesses da criança, tente fazê-lo em casa. Nem sempre é fácil ‘adaptar’ mas há alturas que dá. Novamente: a aprendizagem experiencial é sempre mais facilmente aprendida.

Recompense q.b.

“Claro que o ideal é que haja uma motivação intrínseca à própria aprendizagem. Mas às vezes essa motivação simplesmente não existe. O importante é que ele aprenda? Então damos esse empurrãozinho.” Não sejamos fundamentalistas: quando há aprendizagens que são um sacrifício para a criança usemos então essa ‘cenoura’. “Claro que isto não deve ser sistemático. E atenção: se passa a vida a dar ‘recompensas’ mas depois não se envolve na vida deles, isto nunca funcionará.”

Dê-lhes o que a escola, muitas vezes, não dá

“A escola muitas vezes não trata as crianças como seres humanos com emoções, principalmente a partir do momento em que já têm vários professores.” Portanto os pais devem estar atentos às necessidades emocionais também das crianças mais crescidas. “Aprender a ser está ligado com aprender a saber. E se a escola não dá, que a casa dê.”

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