20150506ActivaEduardoSa046_bx.jpg

GONCALO F SANTOS

Um estudo realizado pela Netsonda em parceria com o psicólogo e professor Eduardo Sá revelou recentemente que 94% das famílias portuguesas se consideram imperfeitas, com cerca de 70% a admitir que passa pouco ou nenhum tempo em família. O Prof. Eduardo Sá respondeu a algumas dúvidas da ACTIVA em torno deste problema, que é mais profundo do que aparenta: para lá dos portugueses se sentirem infelizes com a sua prestação enquanto pais, encontramos estereótipos em torno do papel da mulher.

Como é que explica que 83% das mulheres ainda sejam as cuidadoras do lar sendo que os homens estão equiparados a outros, podendo esta categoria representar avós ou até empregados domésticos?

O Estudo de Limiano sobre as Famílias Portuguesas ajuda-nos a compreender que, por mais que a paridade das tarefas na família seja reclamada por todos, parece existir uma clara posição secundária do pai em relação à divisão das tarefas relacionadas com a família e com a casa. Esta preponderância, a valer por si, leva-nos a perguntar se as famílias portuguesas não serão, efetivamente, matriarcais. E se a mãe não acabará por ter o papel de “coluna vertebral” na dinâmica da própria família. Mais do que, à primeira vista, se supunha. A maternidade parece transformar famílias modernas, em muitos aspetos, em famílias tradicionais. A ser assim, sem a mãe no seu exercício de funções, a família corre o risco de desmoronar ou de colapsar. O que, de seguida, nos obrigará a perguntar o que é que pode gerar esta divisão de funções entre os pais, mesmo nas gerações mais novas: será a maternidade o fator de “reorganização” familiar que leva a que a divisão de tarefas passe por mudanças significativas? Serão as funções materna e paterna mais “poderosas” que a paridade social entre as mulheres e os homens, a ponto de os “empurrar”, a uns e a outros para papéis mais ou menos ancestrais que contrariam a sua formação e aquilo que, em consciência, considerariam mais correto? E pode este compromisso materno com a família, para além de todos os ónus que lhe traz, corresponder a um fator que a orgulha e que – mesmo sentindo-se exausta e consumida por tantas exigências, e prejudicada, em muitos momentos, em termos profissionais – lhe traz ganhos no seu amor próprio que suplantam tudo aquilo que lhe exigem? E será a posição do homem comodista ou facilitista (como, por vezes, se sugere) ou, pelo contrário, o sobreinvestimento no trabalho não pode, também, representar um “espírito de missão” a bem das necessidades da própria família? Ou seja, terão as famílias mudado tanto quanto todos imaginávamos? Por mais diferentes que sejam, não serão as famílias muito “iguais” aquilo que eram?

2. As grandes preocupações das famílias com filhos têm como principais pontos os filhos e apenas no final manterem-se unidos. De que forma é que o facto de os objetivos pessoais não serem equacionados na mesma medida pode influenciar a concretização pessoal de cada elemento do casal (adultos)?

Os pais reconhecem, muitas vezes, que educar é difícil. E é. Porque exige escolhas e ideias esclarecidas sobre o caminho que se lhes deve dar. Sensibilidade e bom senso. “Espírito guerreiro” e “força tranquila”. Abertura à mudança e compromisso com a história. Liberdade e autoridade. Espírito de família e singularidade. Mas, unicamente, quando se considera a relação dos pais com os filhos. Agora, quando se englobam as características individuais de cada um dos pais, os seus sonhos e os seus projetos, e – mais importante, ainda – a relação dos próprios pais entre si, o grau de dificuldade duma família é um desafio tremendo, todos os dias. Manter uma família unida ao mesmo tempo que alimenta os objetivos de cada um e a relação de todos com todos não é, mesmo, nada fácil. O amor dos pais, a família e os filhos são três realidades com agendas próprias que colidem, muitas vezes, e que deviam merecer uma hierarquia de preponderância na vida de todos os dias por esta ordem de importância.

Como é que se explica que “mas qualidade de vida” e “mais tempo em família” sejam necessidades mais importantes de suprir para estes indivíduos do que ter um bom emprego?

Porque “mais tempo em família” e “mais qualidade de vida” acabam por ser aquilo que nos dá vida. Ao pé das quais “um bom emprego” deixa de ser, bem vistas as coisas, “um bem de primeira necessidade”. Mais família será (muito mais do que um bom emprego) sinónimo de mais qualidade vida. Não nos devíamos de esquecer disso tantas vezes.

Como é que se justifica a diferença entre a forma como homens e mulheres veem a boa utilidade do seu tempo? Os homens consideram que é com a sua companheira/o e as mulheres com os filhos…Poderá haver aqui uma distinção de prioridades? Como lidar com essa diferença?

A mim parece-me que a prioridade à sua companheira, por parte dos homens, representa uma primazia correta. A dúvida passa, unicamente, por nos esclarecermos se esta prioridade não surge porque os filhos acabam por estar cuidados. Seja como for, este desencontro de prioridades, a ser assim, corre o risco de fazer dos filhos, contra a vontade de todos, os melhores amigos dos desencontros dos pais. E, se for assim, dá que pensar.

Há mais mulheres a considerarem-se “muito boas mães” do que homens. Poderá estar ligado ao impacto que têm na vida dos seus filhos? Maior participação igual maior prestação?

As mães são, secretamente, muito vaidosas. E isso é ternurento. Mas, no fundo, é, inequivocamente, verdade. Já viu como as mães dormem, meses a fio, em suaves prestações de duas horas. Depois de serem mães, nunca mais se sentem “donas” de si. É lhes exigido que se desdobrem em inúmeras funções. Têm de compatibilizar tarefas familiares e compromissos profissionais. E, no fim, ainda conseguem ter um sorriso bondoso rasgado e luminoso? Como é que, diante de tudo isso, seria admissível que fossem outra coisa que não “muito boas mães”?

O estudo indica que 94% dos pais não se consideram perfeitos. A imperfeição pode estar de mãos dadas com algum sentimento de culpa? Como gerir essas emoções?

O estudo Limiano aponta-nos um número, mas o que sabemos é que a imperfeição humana é um património da Humanidade. E quanto mais ela nos leva a sentir que somos imperfeitos mais a culpabilidade nos aguça o engenho de sermos melhores, todos os dias.

De que forma é que as famílias podem adaptar as “frustrações” demonstradas no estudo em pontos positivos da sua vida?

Reconhecendo que nos tornamos bons pais quando – um pouco como com os antibióticos – aprendemos a fazer uma asneira de oito em oito horas. E a aprender com elas.

Palavras-chave

Relacionados

Mais no portal

Mais Notícias

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

O futuro da energia é agora

O futuro da energia é agora

Conheça Cândida, a concorrente mais ousada de

Conheça Cândida, a concorrente mais ousada de "Hell's Kitchen"

Os 40 atores negros mais famosos de Hollywood

Os 40 atores negros mais famosos de Hollywood

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e "resorts" de Portugal

As imagens das cenas de sexo lésbico de Margarida Corceiro na TVI

As imagens das cenas de sexo lésbico de Margarida Corceiro na TVI

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

“Rigoletto” estreia no Coliseu do Porto com uma leitura provocadora sobre o poder e a condição humana

“Rigoletto” estreia no Coliseu do Porto com uma leitura provocadora sobre o poder e a condição humana

Microsoft revela poupanças de 500 milhões com Inteligência Artificial, depois de despedir nove mil

Microsoft revela poupanças de 500 milhões com Inteligência Artificial, depois de despedir nove mil

Portugália Belém reabre renovada em ano de centenário

Portugália Belém reabre renovada em ano de centenário

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Moda:

Moda: "Look" festivaleiro

Tudo isto é cinema

Tudo isto é cinema

De Zeca Afonso a Adriano Correia de Oliveira. O papel da música de intervenção na revolução de 1974

De Zeca Afonso a Adriano Correia de Oliveira. O papel da música de intervenção na revolução de 1974

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1754

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1754

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

Reino Unido junta-se a França para investir na rival europeia da Starlink

Reino Unido junta-se a França para investir na rival europeia da Starlink

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem "acordar" células cancerígenas adormecidas nos pulmões

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Pigmentarium: perfumaria de nicho inspirada na herança cultural da República Checa

Pigmentarium: perfumaria de nicho inspirada na herança cultural da República Checa

Lady Kitty Spencer regressa a Roma para o desfile de alta-costura de Dolce & Gabbana

Lady Kitty Spencer regressa a Roma para o desfile de alta-costura de Dolce & Gabbana

Familiares e amigos despedem-se de João Lobo Antunes

Familiares e amigos despedem-se de João Lobo Antunes

Pode a Inteligência Artificial curar o cancro?

Pode a Inteligência Artificial curar o cancro?

CARAS Decoração: 10 ideias para transformar o velho em novo

CARAS Decoração: 10 ideias para transformar o velho em novo

O que os cientistas descobriram ao

O que os cientistas descobriram ao "ressuscitar" o vírus da gripe espanhola

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

Miguel Herdade:

Miguel Herdade: "Desde o ano 2000 que a escola não esbate as desigualdades"

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

Maria João Ruela reúne família na apresentação do seu primeiro livro

Maria João Ruela reúne família na apresentação do seu primeiro livro

O grande negócio dos centros de dados

O grande negócio dos centros de dados

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1756

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1756

Glamour e elegância na gala dos International Emmy Awards

Glamour e elegância na gala dos International Emmy Awards

Pavilhão Julião Sarmento - Quando a arte se confunde com a vida

Pavilhão Julião Sarmento - Quando a arte se confunde com a vida

Repórter Júnior: Entrevista a Luísa Ducla Soares

Repórter Júnior: Entrevista a Luísa Ducla Soares

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

Os “looks” dos famosos na passadeira vermelha dos Globos de Ouro

Os “looks” dos famosos na passadeira vermelha dos Globos de Ouro

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril

Descobrir o Porto, da Sé até à Ribeira com Germano Silva

Descobrir o Porto, da Sé até à Ribeira com Germano Silva

Parabéns, bicharada!

Parabéns, bicharada!

Adalberto Ribeiro: “Não procuramos seguir modas nem programar em função do que é mais mediático. Procuramos artistas que tenham autenticidade, qualidade e algo para dizer em palco”

Adalberto Ribeiro: “Não procuramos seguir modas nem programar em função do que é mais mediático. Procuramos artistas que tenham autenticidade, qualidade e algo para dizer em palco”