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GONCALO F SANTOS

Um estudo realizado pela Netsonda em parceria com o psicólogo e professor Eduardo Sá revelou recentemente que 94% das famílias portuguesas se consideram imperfeitas, com cerca de 70% a admitir que passa pouco ou nenhum tempo em família. O Prof. Eduardo Sá respondeu a algumas dúvidas da ACTIVA em torno deste problema, que é mais profundo do que aparenta: para lá dos portugueses se sentirem infelizes com a sua prestação enquanto pais, encontramos estereótipos em torno do papel da mulher.

Como é que explica que 83% das mulheres ainda sejam as cuidadoras do lar sendo que os homens estão equiparados a outros, podendo esta categoria representar avós ou até empregados domésticos?

O Estudo de Limiano sobre as Famílias Portuguesas ajuda-nos a compreender que, por mais que a paridade das tarefas na família seja reclamada por todos, parece existir uma clara posição secundária do pai em relação à divisão das tarefas relacionadas com a família e com a casa. Esta preponderância, a valer por si, leva-nos a perguntar se as famílias portuguesas não serão, efetivamente, matriarcais. E se a mãe não acabará por ter o papel de “coluna vertebral” na dinâmica da própria família. Mais do que, à primeira vista, se supunha. A maternidade parece transformar famílias modernas, em muitos aspetos, em famílias tradicionais. A ser assim, sem a mãe no seu exercício de funções, a família corre o risco de desmoronar ou de colapsar. O que, de seguida, nos obrigará a perguntar o que é que pode gerar esta divisão de funções entre os pais, mesmo nas gerações mais novas: será a maternidade o fator de “reorganização” familiar que leva a que a divisão de tarefas passe por mudanças significativas? Serão as funções materna e paterna mais “poderosas” que a paridade social entre as mulheres e os homens, a ponto de os “empurrar”, a uns e a outros para papéis mais ou menos ancestrais que contrariam a sua formação e aquilo que, em consciência, considerariam mais correto? E pode este compromisso materno com a família, para além de todos os ónus que lhe traz, corresponder a um fator que a orgulha e que – mesmo sentindo-se exausta e consumida por tantas exigências, e prejudicada, em muitos momentos, em termos profissionais – lhe traz ganhos no seu amor próprio que suplantam tudo aquilo que lhe exigem? E será a posição do homem comodista ou facilitista (como, por vezes, se sugere) ou, pelo contrário, o sobreinvestimento no trabalho não pode, também, representar um “espírito de missão” a bem das necessidades da própria família? Ou seja, terão as famílias mudado tanto quanto todos imaginávamos? Por mais diferentes que sejam, não serão as famílias muito “iguais” aquilo que eram?

2. As grandes preocupações das famílias com filhos têm como principais pontos os filhos e apenas no final manterem-se unidos. De que forma é que o facto de os objetivos pessoais não serem equacionados na mesma medida pode influenciar a concretização pessoal de cada elemento do casal (adultos)?

Os pais reconhecem, muitas vezes, que educar é difícil. E é. Porque exige escolhas e ideias esclarecidas sobre o caminho que se lhes deve dar. Sensibilidade e bom senso. “Espírito guerreiro” e “força tranquila”. Abertura à mudança e compromisso com a história. Liberdade e autoridade. Espírito de família e singularidade. Mas, unicamente, quando se considera a relação dos pais com os filhos. Agora, quando se englobam as características individuais de cada um dos pais, os seus sonhos e os seus projetos, e – mais importante, ainda – a relação dos próprios pais entre si, o grau de dificuldade duma família é um desafio tremendo, todos os dias. Manter uma família unida ao mesmo tempo que alimenta os objetivos de cada um e a relação de todos com todos não é, mesmo, nada fácil. O amor dos pais, a família e os filhos são três realidades com agendas próprias que colidem, muitas vezes, e que deviam merecer uma hierarquia de preponderância na vida de todos os dias por esta ordem de importância.

Como é que se explica que “mas qualidade de vida” e “mais tempo em família” sejam necessidades mais importantes de suprir para estes indivíduos do que ter um bom emprego?

Porque “mais tempo em família” e “mais qualidade de vida” acabam por ser aquilo que nos dá vida. Ao pé das quais “um bom emprego” deixa de ser, bem vistas as coisas, “um bem de primeira necessidade”. Mais família será (muito mais do que um bom emprego) sinónimo de mais qualidade vida. Não nos devíamos de esquecer disso tantas vezes.

Como é que se justifica a diferença entre a forma como homens e mulheres veem a boa utilidade do seu tempo? Os homens consideram que é com a sua companheira/o e as mulheres com os filhos…Poderá haver aqui uma distinção de prioridades? Como lidar com essa diferença?

A mim parece-me que a prioridade à sua companheira, por parte dos homens, representa uma primazia correta. A dúvida passa, unicamente, por nos esclarecermos se esta prioridade não surge porque os filhos acabam por estar cuidados. Seja como for, este desencontro de prioridades, a ser assim, corre o risco de fazer dos filhos, contra a vontade de todos, os melhores amigos dos desencontros dos pais. E, se for assim, dá que pensar.

Há mais mulheres a considerarem-se “muito boas mães” do que homens. Poderá estar ligado ao impacto que têm na vida dos seus filhos? Maior participação igual maior prestação?

As mães são, secretamente, muito vaidosas. E isso é ternurento. Mas, no fundo, é, inequivocamente, verdade. Já viu como as mães dormem, meses a fio, em suaves prestações de duas horas. Depois de serem mães, nunca mais se sentem “donas” de si. É lhes exigido que se desdobrem em inúmeras funções. Têm de compatibilizar tarefas familiares e compromissos profissionais. E, no fim, ainda conseguem ter um sorriso bondoso rasgado e luminoso? Como é que, diante de tudo isso, seria admissível que fossem outra coisa que não “muito boas mães”?

O estudo indica que 94% dos pais não se consideram perfeitos. A imperfeição pode estar de mãos dadas com algum sentimento de culpa? Como gerir essas emoções?

O estudo Limiano aponta-nos um número, mas o que sabemos é que a imperfeição humana é um património da Humanidade. E quanto mais ela nos leva a sentir que somos imperfeitos mais a culpabilidade nos aguça o engenho de sermos melhores, todos os dias.

De que forma é que as famílias podem adaptar as “frustrações” demonstradas no estudo em pontos positivos da sua vida?

Reconhecendo que nos tornamos bons pais quando – um pouco como com os antibióticos – aprendemos a fazer uma asneira de oito em oito horas. E a aprender com elas.

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