*artigo publicado originalmente em fevereiro de 2017

Quem primeiro sente o amor no ar (além dos adolescentes, como é óbvio) são os professores. “A partir de finais de fevereiro, sente-se logo a diferença: ouve-se mil vezes os professores dizer ‘pronto, já começou a primavera’”, ri Luísa Fortes da Cunha. Escritora de livros para adolescentes – a colecção Teodora já vai no n.º14 – é também professora de educação física do terceiro ciclo, e nota que a época dos namoros é ‘cíclica’. “Há mesmo um decréscimo nas notas, as hormonas andam todas aos saltos, e os miúdos enlouquecem na primavera.”

Com uma relação muito próxima dos alunos, não é raro ser escolhida como confidente, principalmente pelas meninas. “Sempre tive muitas jovens que me pediam apoio nos desgostos de amor. Muitas não conseguiam falar com os pais e viam em mim a mãe que não tinham. E o desgosto do primeiro amor é geralmente muito sofrido já que foi vivido intensamente.”
E o que é que se conta a uma confidente? Tudo. Por vezes, absolutamente tudo. “Contam-me muitas coisas, até mesmo a sua primeira relação sexual. Houve mesmo uma situação em que isso correu bastante mal, e eu percebi que ela não estava bem. Aí perguntei o que tinha acontecido e ela contou-me tudo. Muitas miúdas que me abordaram a pedir ajuda agradeceram-me no final da conversa desta forma: ‘muito obrigada, foi muito bom poder desabafar consigo’.”

Parece mesmo o fim

Estes desgostos são vividos cada vez mais cedo. Com a entrada cada vez mais precoce na adolescência, estas preocupações surgem em idades cada vez mais novas. “Com apenas oito anos, as nossas crianças entretêm-se com séries que não são mais do que telenovelas e deliram com modelos que há uns anos só despertavam interesse em raparigas de 14 anos”, nota Inês Teotónio Pereira, no blog ‘A Um Metro do Chão’. “Em vez de brincarem às bonecas, as nossas filhas mais pequeninas sonham agora com romances e com desgostos de amor.” Segundo a psicóloga Teresa Paula Marques, as novelas não têm grandes culpas no cartório. “O que me parece que está a acontecer é uma entrada cada vez mais precoce na adolescência, devido a muitíssimos fatores, daí que surjam as preocupações amorosas, tal como as preocupações com o físico.”

Mas ‘acabar’ com alguém pode ser dramático em qualquer idade. “Não me chateia nada a minha filha ter namorados”, afirma José Sousa, informático, pai da Marta, de 18 anos. “Mas fico fora de mim quando as paixões acabam e ela fica de rastos. Isto para os pais é difícil porque depois não sabemos o que dizer. Finjo que não percebo, mas custa-me imenso vê-la sofrer.”

Pai ou mãe, muitas vezes não sabemos o que fazer perante um filho em sofrimento. Fingimos que não vemos? Minimizamos? Falamos com ele? Mas se falamos, dizemos o quê? “O apoio dos pais é fundamental para tentar desmontar o que lhes aconteceu e tentar aproximá-los da racionalidade – o que não é fácil”, nota Luísa Fortes da Cunha. “Devemos ser pacientes e bons ouvintes. Contar as nossas vivências quando tínhamos a sua idade também ajuda muito. Há alturas em que tenho de desmontar a situação porque eles estão mesmo em sofrimento. E tenho de os fazer perceber que eles não são os primeiros, que nós também passámos pelo mesmo. A primeira relação muitas vezes acaba mal, e para eles parece mesmo o fim, porque não têm experiências amorosas anteriores e portanto nada lhes garante que vão conseguir sobreviver. Mas quando conseguimos desmontar isso, é um alívio enorme. Ouvi-los é uma forma de os ajudar a ultrapassar a perda. Mesmo que continuem a sofrer, vão sentir que o pesadelo é muito menor.”

Atenção à conversa

Ok, então eu tenho uma filha ou um filho a sofrer porque acabou tudo com o Manel ou com a Maria. Faço o quê? Tudo menos dizer-lhe “deixa lá, não ligues”. “Os pais devem levar a situação a sério, ouvi-los e acarinhá-los”, resume a psicóloga Teresa Paula Marques. “De evitar: desvalorizar aquilo que o jovem diz e sente, porque, naquele momento, isso corresponde inteiramente à verdade. É preciso ouvirem com paciência e perguntarem em que é que os podem ajudar. Frequentemente os pais não podem ajudar em nada que não seja estar ali e oferecer-lhes um ombro onde chorar.”

Imaginemos agora que a altura em que a minha filha acaba um namoro é a primeira vez que eu sei que a tal relação sequer existia. Como se reage a isto? “Proibir não funciona”, adianta Teresa Paula Marques. “Ainda para mais, há muito a colagem ao ‘Romeu e Julieta’, que um pouco de drama só vai potenciar. Posto isto, os namoros não devem ser proibidos porque o início da vida afetiva é absolutamente natural e saudável.”

Mesmo agora, que os pais têm uma relação mais próxima dos filhos, nem sempre é fácil que eles desabafem. Portanto, não deve esperar até à adolescência para se habituar a conversar com eles. Porque, se qualquer adolescente fecha a porta do quarto, se até aí não está habituado a conversar com os pais, não é agora que vai fazê-lo. “Uma relação de cumplicidade ergue-se desde o berço”, explica a psicóloga. A proximidade não significa que os pais sejam os melhores amigos dos filhos. “Implica que os filhos sintam que podem contar sempre com os pais. Se ao longo do crescimento, as crianças tiverem esta segurança, não irão hesitar em confidenciar amores e desamores.”

LEVAR TAMPA POR SMS

Claro que acabar tudo hoje não é exactamente o mesmo que acabar tudo no ‘nosso tempo’ e as redes sociais alteraram a forma como os adolescentes vivem esses amores (hoje é comum ‘levar tampa’ pelo Facebook ou por SMS). “Claro que alteraram”, confirma a psicóloga Teresa Paula Marques. “Muitas relações começam e terminam nas redes sociais, ou através de mensagens. Contudo, os estudos apontam que o impacto emocional é equivalente ao que acontece no mundo offline. Há desgosto, tristeza e muitas vezes também humilhação, uma vez que via Facebook toda a gente fica a saber.”

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