No Natal, o termo ‘despachar’ vem-nos à cabeça mais do que seria desejável. Há pessoas que ‘despachamos’ com relativa facilidade, mas a maioria apresenta uma angustiante propensão para ‘ter tudo’. Na maior parte das vezes, o pânico vai aumentando na relação inversa às boas ideias, e o pobre infeliz acaba presenteado com uma magnífica jarra em forma de melancia com ‘pânico’ escrito por todo o lado e que irá imediatamente para o armário, quando não para o lixo.
Outra forma de ‘mascarar’ a coisa é dizer que estamos em crise e que só as crianças é que merecem presente, e está o assunto arrumado. Mas porquê? Se tiver mesmo de escolher, tudo bem. Mas há por aí muito mais adultos a precisarem de um presentinho para animar do que as crianças, que regra geral já recebem cangalhadas de presentes ao longo do ano. E há muitos presentes que… não custam nada (aproveite e leia o nosso artigo ‘Presentes que não custam nada’). O que conta, como diziam as nossas avós, é mesmo a intenção.
Quem são as pessoas mais propensas a ‘terem tudo’? Não há regra. Podem ser próximas ou distantes, a mãe ou o primo de Paris, o irmão ou o tio Joca.Geralmente, ou são pessoas autosuficientes que vão num cruzeiro ao Egipto quando lhes apetece sem darem cavaco a ninguém, ou são daquelas que não lêem, não fazem tricot, não gostam de bombons, definitivamente não vão passear ao Egipto, não têm passatempos, nem interesses, nem sequer vícios, e ninguém sabe como é que ocupam os dias.
O que fazer quando se encalha numa pessoa que tem tudo: o principal é não entrar em pânico e não comprar a primeira coisa que avistar, que geralmente se arrisca a ser um kit de jardinagem quando a pessoa em causa nem sequer tem potinhos com cactos falsos na janela da casa de banho, ou um magnífico livro sobre música no século XVIII quando a pessoa é virtualmente analfabeta e completamente surda.
O que não fazer: Não dar qualquer coisa de que nós gostamos muito mas que não sabemos se o outro vai gostar. Não aproveitar para a converter oferecendo-lhe uma inscrição no body-combat quando sabe muito bem que ela é uma adepta do sofá.
Portanto, para evitar perder amigos desnecessariamente, aqui apresentamos um pequeno guia para presentear pessoas difíceis. E lembre-se: para quem tem imaginação, ninguém tem tudo.
O que oferecer…
– Aos maníacos da telenovela – Chegou à conclusão que o único interesse dela é ficar sentada no sofá a ver a telenovela? Então ofereça-lhe uma bela almofada de sofá, uma lindíssima caixa de bombons ou uma manta macia para pôr nos joelhos. Também lhe pode dar um gato, mas verifique primeiro se ela não é alérgica e se tem paciência para tratar do bicho, coisa que a generalidade das pessoas não tem. Pronto, esqueça o gato. Ofereça-lhe um saco de água quente original, que é igualmente aconchegante e não precisa que o levem ao veterinário, embora não responda quando o chamam.
– À tia Emília – Geralmente ninguém lhe dispensa o tempo que ela merece com a desculpa que ela não faz nada. Não é verdade. As tias Emílias fazem sempre alguma coisa. Se ela faz tricot, ofereça-lhe uma colecção de novelos numa caixa bonita. Se ela gosta de fotografias, ofereça-lhe um álbum (embora geralmente não tenham muita paciência para fazer álbuns). Ofereça-lhe uns brincos bonitos, um cachecol macio, umas luvas à moda antiga, uma mala ou uns sapatos bons para andar. Não lhe ofereça: mais tralha para a casa, que geralmente é do estilo, como dizia o Ramalho Ortigão, que para entrar uma visita tem de sair uma cómoda. Mas se vir que ela precisa mesmo de um microondas, porque não se junta com outra pessoa e lhe oferece um? Também pode oferecer um presente original, igualmente adequado a mães, primas, irmãs, sogras e amigas: combine na florista para, durante um ano, lhe mandar um ramo de flores todas as semanas (pronto, todos os meses). É caro, mas compensa e além disso vão amá-la o ano todo e não apenas no dia 24 do 12.
– À sua sogra – Ela vai rejubilar com mais uma fotografia emoldurada, mas não dos netos, de que já tem quinhentas mil espalhadas pela casa, nem, por favor, sua e do filhinho dela. Não, o golpe aqui é oferecer-lhe uma fotografia dela própria com o seu querido filhinho. Se não tem nenhuma, tire-lhe você mesma. Resista à tentação de se pôr você também a espreitar lá atrás como o Emplastro do
– Aos workaholics – Aqueles que não saem do escritório como numa série americana dos anos 80, têm um affair permanente com o telemóvel, e no carro falam alto para o kit mãos-livres durante toda a marginal como se lhes tivesse dado um ataque de loucura. Como não saem do escritório a não ser para irem almoçar com clientes e não saem de casa a não ser para irem ao escritório, pode por exemplo oferecer-lhe uma massagem relaxante ao domicílio. Geralmente adoram aquelas coisas última geração tipo computadores que são também telemóveis, telemóveis que são também televisões, televisões que são também máquinas de lavar, etc. Se não quiser meter-se pelo mundo da alta tecnologia, também pode tentar umas pantufas novas, uma garrafa de vinho daquelas que custam os olhos da cara, ou livros de BD para ele relaxar antes de dormir.
– Aos recém-pais – Ofereça uma babysitter. Claro que não é meter a menina dentro de um embrulho com um laço cor de rosa e mandar entregar a dizer: ‘Esta é a Ana Sofia, sabe mudar fraldas e atura birras entre as 8 e as 2 da manhã’, mas pode sempre oferecer o equivalente ao pagamento de algumas sessões. Uma ideia para pais esotéricos é ‘O Livro do Signo’, um dossier pessoal da criança que inclui descrição astrológica, uma história adequada e conselhos aos pais, e que pode encomendar a qualquer astrólogo.
– Aos adolescentes – Para evitar aquela cena de vê-los revirar os olhos e murmurar ‘dahhh’, o melhor é telefonar aos pais antes de se arruinar em qualquer coisa inútil. Se não tem tempo para andar a ligar aos paizinhos, e além disso mesmo os pais às vezes não fazem ideia, o melhor presente, é triste mas é verdade, é dinheiro. Ou cheques. Ou recarregar-lhes o telemóvel até fazerem 80 anos. As raparigas geralmente gostam de toda a roupa, e algumas iriam adorar uma caixinha de maquilhagem. Também ficarão extasiadas com a sua carta astral. Os rapazes, caso se queira arruinar, gostam de jogos de computador. Caso não se queira arruinar, pode oferecer-lhes chocolates, que, é estranho mas é verdade, continuam bastante apreciados.
– Às mães difíceis – Em vez de deambular durante horas e depois escolher qualquer coisa de que ela nunca gosta, páre! Não se martirize mais! Ofereça uma assinatura da sua revista preferida (a ‘Activa’, pois claro). Ofereça-lhe o
– À criança irritante – Até aos seis anos, pode oferecer bonecas às meninas. Mesmo que já lá tenham 400 em casa, mais uma nunca é demais, porque as mães, como toda a gente sabe, têm um coração enorme. Aos meninos, carrinhos. Uma alternativa são contas de enfiar para as meninas e uma lanterna para os meninos. A ambos, pode oferecer puzzles e canetas de feltro. Parece banal, mas não se sabe porquê, as deles estão sempre sem carga e a amarela nunca escreve.
– Aos desconhecidos – Aquelas pessoas que conhecemos mal mas a quem temos que oferecer presentes, como o filho do patrão ou o tio do Brasil que nunca vemos. No caso de ter mesmo de oferecer qualquer coisa (ao filho do patrão? Mas porquê?) a melhor ideia para desconhecidos é mesmo uma caixa de bombons ou, no caso do filho do patrão não ter 10 anos, uma bela garrafa de vinho ou de licor.
– À prima intelectual – A sugestão mais óbvia, livros e CDs de Beethoven, nem pensar. Ela já tem todos os que lhe interessam, e corre o risco de lhe dar qualquer coisa que ela já leu em 1984. A segunda sugestão óbvia, um cheque-livro ou disco, parece boa mas verifique primeiro se ela não é do tipo despassarado que só se vai lembrar de ir levantá-lo em Setembro de 2013. Se não fizer questão da surpresa, pode falar com ela e oferecer-lhe a entrada para um concerto. E por que é que não estimula outros sentidos? Ofereça-lhe uma jóia original, uma garrafa de licor, uma caixa de música, qualquer coisa da loja de um museu, um caderno de capa dura e uma caneta bonita para ela escrever poemas…
– Aos homens – Como são todos iguais, podemos incluí-los numa só categoria, coitados. O homens em geral gostam de: livros sobre o seu clube. Perfume (ao contrário das mulheres, costumam gostar seja de qual for, desde que seja de marca e tenha um ar caro). Também gostam de cremes de rosto e produtos de beleza em geral, desde que não seja um enrolador de pestanas. Se lhe der uma caixa de ferramentas, mesmo que não sirva para nada e que eles nem sequer saibam e/ou tencionem pregar um prego, vão entrar em êxtase. Geralmente também gostam daqueles puzzles de mil peças que ocupam o chão da sala inteira, mas prepare-se para só ter sexo daqui a três meses. Uma assinatura da ‘FHM’ ou da ‘Visão’ será uma boa ideia. E se estiver com um apreciador dos prazeres da mesa, pode oferecer-lhe uma boa garrafa de vinho.
Nenhumas ideias, pouco tempo, menos paciência?
– Entre numa única loja e despache toda a gente de lá. Convém não ser uma sex shop. Mas se entrar numa livraria grande, é provável que encontre livros adequados para toda a família.
– Aposte nos presentes pessoais: livros de signos, papel de carta personalizado, toalhas ou guardanapos bordados com o nome ou o monograma…
– Socorra-se dos seus talentos. Claro que não vai bordar um naperon de Bambis para o seu chefe (enfim, conforme o chefe…), mas quase toda a gente gosta do seu nome bordado seja onde for. Se sabe pintar caixas ou fazer colares de contas, aproveite…
– Se vir que a pessoa precisa mesmo é de um casaco forte, um frigorífico novo ou uns brincos especiais, em vez de esquecer por que é caro e de lhe comprar qualquer coisa barata, porque não se junta com mais pessoas?
– Convém ter em casa meia dúzia de coisas que podes dar a quem quer que seja: uma caixinha com sabonetes de limão, uma vela anti-tabaco, uma caixa de bombons, um bloco de notas. Há sempre quem apareça quando menos se espera.
– Eles já têm tudo? Então dê-lhes mais do mesmo e está o assunto arrumado. Mais perfumes, mais livros, mais bombons. Para quem adora perfumes, livros e bombons, muito não é demais.
– Convém não esquecer: aquilo que as pessoas mais querem não são os seus presentes, é a sua simpatia, a sua disponibilidade, os seus abraços e o seu mimo.