
AndreyPopov
Joana*, 30 anos, tinha 16 quando conheceu aquele que hoje é o seu marido. Pouca gente tinha ainda acesso à Internet em casa, vivia-se o advento das salas de chat e um mundo de novas formas de conhecer pessoas abria-se. Joana era uma entre milhares de adeptos portugueses do MIRC, um canal de conversação online. “Um dia, um amigo em comum pôs-nos em contacto online e disse-lhe ‘fala aqui com esta rapariga, que é muito simpática’. Conversávamos sobre escola, família, sobre as nossas vidas… Tínhamos muito em comum, interesses semelhantes, viajar, a forma como víamos o mundo e a vida. E o facto de ele não dar erros ortográficos também me chamou a atenção”, ri. “Nem fotografias trocámos. Esta foi a nossa única forma de relação durante três anos. Morávamos longe, ele em Santarém e eu em Lisboa, e era impossível conhecermo-nos.”
“Tornámo-nos cada vez mais cúmplices”
Ao longo desse tempo, a intimidade foi crescendo. “O anonimato fazia-nos pensar que, se estávamos longe e não nos iríamos ver, poderíamos revelar mais sobre nós. Tornámo-nos cada vez mais cúmplices e começámos a pensar na hipótese de nos conhecermos pessoalmente. Ele também diz que pensava em mim como alguém que o compreendia, porque não tinha muitos amigos e nem se identificava com as pessoas da terra dele.”
Nessa altura, o acesso à Internet era bem mais caro do que é hoje e feito por telefone. “Por causa das nossas conversas cheguei a pagar uma conta de 60 euros (12 contos que, na altura, era caríssimo). Uma vez, ele viajou e enviou-me um postal de Amesterdão. Foi a primeira vez que a nossa relação passou ao mundo real – se um amigo da Internet vai de férias e se lembra de mim, devo fazer parte da vida dele de alguma maneira. Depois daquele primeiro postal vieram outros e prendas que me comprava em viagem.”
Quando ele lhe anunciou que ia estudar para Lisboa, combinaram um encontro e Joana teve uma agradável surpresa. “Houve logo um clique entre nós. Assim que o vi, pensei: ‘Afinal, ele é mesmo giro!’”, lembra com uma gargalhada. “Correu tão bem que passámos a combinar mais encontros. Íamos sem outras intenções e ambos éramos comprometidos… mas deixámos de o ser passados dois meses e começámos a namorar. É estranho, mas afinal já nos conhecíamos muito bem, sabíamos tudo um sobre o outro sem nunca nos termos visto. Já havia empatia pela maneira de pensar, escrever. Se criámos esta relação de três anos sem fotografia é porque a parte física ficava para depois. Bastou um encontro para ele fazer parte da minha vida – já passaram quase 15 anos, casámos e temos dois filhos.”
O cérebro apaixonado… e viciado
A antropóloga Helen Fisher quis perceber o que acontecia no cérebro humano quando entra em modo Cupido, como no caso de Joana e o marido. Pegou em vários casais, que dividiu em três grupos – os recém-apaixonados, os rejeitados e os que continuavam apaixonados ao fim de 20 anos – e submeteu-os a exames de ressonância magnética. Descobriu que o amor romântico ativa as células da área tegmental ventral, que produzem o estimulante dopamina e estão situadas na zona responsável pelas sensações de recompensa e prazer, “uma área associada à motivação, querer, ânsia, concentração, que também fica mais ativa quando se consome cocaína”, explica a antropóloga numa conferência TED. “O amor romântico tem todas as características de um comportamento aditivo. Focamo-nos na pessoa, pensamos nela obsessivamente, distorcemos a realidade, estamos dispostos a correr imensos riscos para a conquistar.”
A aparência vem primeiro
Será que o mesmo se passa com as paixões que nascem em meio virtual? Podemos ficar tão obcecados como quando nos apaixonamos ao vivo e a cores? “Não posso chamar-lhe obsessão”, diz a psicóloga clínica e investigadora Cláudia Morais, autora de ‘O Amor e o Facebook’ (Oficina do Livro). “No processo de enamoramento há uma centralização no objeto do nosso afeto. Vamos estar muito mais atentos e centrados nessa pessoa, na forma de lhe agradar – até há alterações fisiológicas que nos predispõem muito mais a isso.”
Na era do Facebook e do Whatsapp, quando a troca de imagem é tão fácil, não admira que já exista quem admita que se apaixonou por uma imagem de perfil. “Há 10 anos já contactava com casais que tinham iniciado a sua relação amorosa via Internet, em canais como o MIRC. Entretanto, com o Messenger, Hi5, Facebook e outras redes sociais, as coisas explodiram. Atualmente, há cada vez mais pessoas que, na sequência de um divórcio, recorrem, não tanto ao Facebook, mas a sites de relacionamentos, que vendem esse serviço.”
De modo geral, o aspeto físico é o primeiro passo para o enamoramento, tanto para homens como para mulheres, explica Cláudia Morais. “O que não significa que seja essencial para todos. Depois, há a necessidade de segurança e acolhimento, que também tem a ver com a bagagem emocional que cada um traz. Se acabei de sair de uma relação com uma pessoa controladora e tumultuosa, mesmo que instintivamente, vou procurar alguém que tenha respeito pela minha liberdade, que não dê sinais de comportamentos abusivos associados à tentativa de controlo. Seja nas relações iniciadas na Internet ou presencialmente, precisamos de sentir que a outra pessoa está disponível para ir ao encontro das nossas necessidades afetivas.”
Uma versão editada de nós
Os mais céticos diriam que, na Net, essa ideia de segurança, apoio e empatia é uma ilusão. “Potencialmente, pelo menos”, concorda a psicóloga. “Até porque é relativamente fácil dar-se apoio por escrito e estar lá, mesmo não estando. Pode gerar-se uma ilusão de disponibilidade e de investimento. Quando alguém responde por escrito a um pedido de apoio escolhe quando responde ao meu email ou mensagem. Pode nem estar a sair da sua zona de conforto, nem ter vontade de o fazer. Mas, se calhar, já vou lidar mal com a possibilidade da pessoa com quem tenho uma relação presencial me responder ‘espera aí, tenho que acabar este jogo primeiro’.
Além disso, na Internet mostramos o que queremos de nós, podemos levar a fotografia e a alma ao Photoshop e mostrar uma versão ideal e branqueada. Fala-se online, em geral, durante semanas ou meses, trocam-se mensagens e confidências. Quando o interesse aumenta, passa-se para o telefone e depois para o encontro presencial, em que, muitas vezes, nem tudo o que parecia se revela verdadeiro.
Foi mais o menos o que aconteceu a Marta* da última vez que conheceu alguém online. Solteira, aos 35 anos a carreira leva-a a passar mais tempo no estrangeiro do que em Portugal. “Estava a precisar de conhecer alguém interessante. Através de amigos comuns comecei a falar com este homem no Facebook. Falávamos já há uns meses, ele tinha uma conversa cativante e inteligente, partilhávamos os mesmos gostos. Numa das minhas idas a Portugal decidimos encontrar-nos finalmente.” Mas ao vivo, o tipo atraente, culto, com uma conversa interessante e que partilhava o mesmo amor pela música revelou-se “comodista, cheio de clichés, muito moralista, com vistas curtas mas a achar-se um visionário. Era simpático e tinha uma visão artística gira, mas no geral era pouco interessante. Já tive ótimas surpresas com pessoas que conheci através da Internet, mas esta não foi uma delas. E fiquei muito zangada comigo por não ter sido mais perspicaz e ter feito um perfil dele totalmente distinto na minha cabeça.”
Cláudia Morais explica: “É verdade que online há uma ‘edição’ maior, mas o início da relação é sempre editado, mesmo nas que começam presencialmente. É natural que, no princípio, não nos sintamos tão seguros, que tentemos mostrar o melhor de nós e camuflar aquilo que, aos nossos olhos, é o pior. O que se espera, em qualquer tipo de relação afetiva, é que a nossa segurança vá crescendo na medida que nos vamos expondo e que vamos aceitando o outro com os seus defeitos e limitações. O que difere no caso de uma relação iniciada através da Internet é que, como a pílula pode estar mais dourada, se iniciar uma relação com base em expectativas muito elevadas ou distorcidas da realidade, provavelmente a desilusão será maior a partir dos primeiros contactos presenciais. Ao telefone ou presencialmente, já acedo a uma comunicação mais rica, ao tom de voz, à disponibilidade do outro para mim e às suas verdadeiras intenções – que me mostram que as coisas podem não ser bem como me foram ‘vendidas’ pela Internet.”
Mais homens à procura de sexo online
As intenções de homens e mulheres são diferentes quando procuram par na Internet. “Há muitos homens e mulheres em busca de um relacionamento sério, mas há mais frequentemente homens que mulheres interessados numa relação fortuita”, diz
-a psicóloga Cláudia Morais. “O que também acontece é que essas expectativas não são logo escancaradas. Temos, muitas vezes, uma adulteração das intenções: um homem que não tem intenção de ter um relacionamento sério com aquela pessoa mas, como calcula que não consiga ter intimidade sexual sem esse processo de galanteio, tente cortejar dessa maneira até concretizar os seus objetivos. Também temos o processo inverso: mulheres que temem que a sua timidez ou postura mais convencional possa assustar os homens com quem conversam e, por isso, assumem uma postura mais atrevida online.” Por isso é que, quando as relações passam ao plano real há, muitas vezes, um choque de realidade.
Vantagens de encontrar par na Net
Mas nem tudo são ilusões e desilusões. Os amores começados online até podem ter vantagens relativamente aos que começam cara a cara. “Nesta área, os estudos ainda são contraditórios, mas alguns mostram que as relações começadas na Internet são mais sólidas ou têm mais probabilidades de virem a dar certo. Isso tem a ver com a revelação mútua que acontece no início de qualquer relação. Por causa do facilitismo da comunicação nas redes sociais, muitas vezes também nos sentimos mais à vontade para nos expormos de forma verdadeira – claro que o oposto também acontece; essa é a grande fragilidade destas relações. Se eu revelar presencialmente uma parte do meu lado lunar, vou sentir a rejeição ou o dano imediatamente. Se essa rejeição acontecer via Internet, não me vou sentir tão melindrada e na prática o impacto será menor. ”
Há outras vantagens. Quanto mais velhos ficamos, mais o tempo urge nestas coisas de encontrar o novo amor e a Internet pode ser uma ótima ferramenta. “Em pessoas com mais de 50 anos, falamos muitas vezes da falta de vontade em perder tempo à procura. Nas pessoas mais jovens – porque também as há nas redes sociais e até nos sites de relacionamento pagos – à procura de uma nova relação, não será tanto o tempo a perder mas a ausência de competências sociais: não se sentem tão seguros para desenvolver uma relação amorosa a partir do conhecimento presencial. São pessoas extremamente tímidas e introvertidas, com dificuldades de socialização e em mostrarem-se interessantes, que recorrem às redes sociais e sites de relacionamento para acelerarem este processo.” Por isso, tímidas e veteranas, uni-vos: a vossa alma gémea pode estar online.