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Aurélio Vasques

Porquê este título tão cheio de incertezas?
Tinha muitos títulos para este disco. Como não gosto de viver contido nem refém de coisa nenhuma, acho que ele não tem um conceito, tem uma inspiração, que é o poema ‘Orfeu Rebelde’ do Miguel Torga. Além disso há uma frase atríbuída ao Prof. Agostinho da Silva, de que gosto muito: “Tento ao máximo não fazer planos para a vida para não estragar os planos que ela possa ter para mim.” Então, “hoje é assim, amanhã não sei.”
Se me pedir para definir o disco numa frase ou duas, digo que são as duas últimas frases do Orfeu Rebelde: “Canto sem perguntar à Musa se o canto é de terror ou de beleza.” O fado sempre foi também uma cantiga de intervenção e crítica social. É importante e sinto essa necessidade. Faixas deste disco como ‘Portugal’, ‘Dias de Hoje’, até o ‘Soneto de Mal Amar’ do Ary dos Santos, falam um bocadinho da esperança e da falta dela. Tenho esperança nos outros e em mim. Por isso canto estes temas e estes versos. O ‘Orfeu Rebelde’ inspirou-me porque também sou rebelde e as temáticas dos meus discos são sempre diferentes.

É um rebelde?
Sempre fui e quero continuar a ser. Sou terrivelmente infantil e às vezes um bocadinho naïf, crédulo em coisas que não devia. Faço uns disparates, gosto de brincar e de gozar comigo mesmo – tanto que adoro as alcunhas que me põe: o Banda Larga, o Fio de Azeite… Irrita-me solenemente esta coisa de que só podem existir magros no mundo, que os gordos não são bonitos. Ai os padrões!… Não obedeço a padrões, simplesmente tempero as minhas convicções com a dúvida.

Chamaram-lhe purista já muitas vezes mas este álbum não o mostra tanto: tem piano, tem temas em outras línguas…
Todo aquele que me chame purista tem que me definir o que isso é. Se for porque mantenho a tradição – e, na sua origem, a palavra significa transportar alguma coisa para outro – isso não significa que tenha que ser obtuso ou fechado. Sei que vou ser crucificado e passar por arrogante, mas não tenho que provar mais nada aos fadistas ou ao Fado, porque tenho tanto ou tão pouco Fado em mim que posso dar-me ao luxo de entrar e sair dele sempre me apetecer. E se se me apetecer, depois deste, faço um disco só com temas dos anos 20 e 30 do século passado e quero ver o que dizem. Não estou preocupado com o que podem dizer. O Fado tenho-o em mim e sei dele por amor.

O meio fadista cobra muito aos seus artistas?
Não, eu é que cobrei a mim próprio, porque é do Fado que venho e tenho todo o respeito por ele. E se me apetecer chamar a isto Fado, chamo. Ninguém tem pejo a chamar Fado aos discos que fazem e que nada têm a ver com ele. O que, afinal, é purismo ou tradicionalismo?…

Tem uma forma muito cigana de cantar… Há qualquer coisa entre o Fado e o Flamenco no seu canto.
Sim! Não se engana. Fui criado com eles, tive muita convivência com a etnia cigana e uma grande paixão por ela e pelo flamenco.

O Alentejo é outro dos temas comuns a algumas músicas. E no ‘Fadinho Alentejano’ até cruza cante alentejano e fado…
É uma cantiga feita por alguém que não é fadista senão de coração, o Paulo de Carvalho. Nem é um fado nem é um cante; é uma cantiga popular com o cheiro e o tempero das duas coisas. O Paulo mostrou-me aquilo e saltou-me logo um sorriso. Não pretende ser mais do que uma cantiga para rir, mas tem muita mensagem subliminar. Achei que aquilo fazia sentido com um grupo coral, e gravei com os ‘Ganhões de Castro Verde’. Foi uma experiência que adorei.

Também compôs uma música para este disco. Gostava de apostar mais nessa faceta?
Não porque não sou compositor; as coisas aparecem-me. Tenho muita coisa mas não mostro por vergonha. Estava em estúdio e chamei o Carlos Manuel, produtor deste disco: ‘Anda cá ouvir isto’ e mostrei-lhe a Canção das Águas Claras – fiz-lhe a melodia de voz e uns rudimentos de guitarra. E ele disse: ‘Pois, mas vais gravar isso’. Ainda lhe disse que não, mas ele disse que era muito bonito e que era mesmo para gravar. Sou muito mau juiz em causa própria.

É muito exigente consigo?
Terrivelmente. Isso dá-me conta dos nervos e da saúde.

Bernardim Ribeiro, Paul Verlaine, Almada Negreiros, Vinicus de Morais: são poetas pouco convencionais para fados. Como chegou até eles?
O Almada e o Bernardim, a Amália já os gravou, um no disco ‘Obsessão’ e outro no meu disco preferido dela, ‘Cantigas numa Língua Antiga’. Está lá o Rondel do Alentejo e eu sempre quis cantá-lo. O Paul Verlaine apareceu depois de mandar um poema do Ary dos Santos, ao João Paulo [Esteves da Silva, compositor de alguns dos temas do novo álbum]. Disse-lhe que gostava de ter mais uma música dele no disco e ele disse que tinha um poema musicado do Verlaine, que já tinha mostrado a outros cantores mas que ninguém queria cantar. Perguntou-me se eu gostava mesmo, até porque o Verlaine tinha fama de poeta maldito. Falo pouco francês, mas a musicalidade das palavras e a intenção conquistaram-me.

Também conviveu com alguns dos grandes nomes da velha guarda do Fado…
Tive essa sorte, tive referências. Comecei a cantar em público aos 12 anos. Mas hoje é difícil para quem apareça [ter essas referências] porque não há velhos. Convivi com fadistas, guitarristas, poetas: Fernando Maurício, Beatriz da Conceição, Argentina Santos, Adelino dos Santos, Acácio Rocha, Celeste Rodrigues, António Rocha…

O Fernando Maurício foi seu amigo. Como é que ele era?
Sim, tive essa bênção, de poder privar com ele, cantar e aprender com ele. Ele nutria amor por mim e eu por ele. Ele era um homem muito inteligente, um génio – os génios não são loucos, são excêntricos e ele era, de certa forma, excêntrico. Não transparecia logo essa genialidade mas, se o ouvíssemos e convivêssemos com ele, percebíamos isso. Tinha uma criatividade, um disparo da voz, uma beleza, enormes. Com ele aprendi a não ter medo, mas a deixar um bocadinho dele em mim para não perder a imaginação, e a desafiar as coisas constantemente, mas de uma forma lúcida e não leviana. Disse-me sempre que primeiro era preciso estudar as melodias, os poetas, as métricas e depois, sim, desafiar e deixar o cunho pessoal. Foi o que me dediquei a fazer, por isso é que me chamam purista.

É verdade que chegou a pensar em ser padre?
Fui para um colégio interno diocesano, religioso, onde conheci um homem extraordinário, o Padre Manuel Alves. Um homem de uma grande sensibilidade, bondade e capacidade de lidar com os jovens. Nunca olhou para mim com um olhar inquisidor, quando eu fazia disparates. Era sempre com ternura. E pensei que gostava de ser como aquele homem. E como ele me falava em Jesus Cristo, pensei em ir estudar para o seminário e seguir o sacerdócio. Mas depois o Altíssimo não quis…

É um homem de fé, então.
Sou. Não estou nada preocupado se isso é politicamente correto ou não. Para mim a religião resume-se a perfume, cor e silêncio: o perfume é o da bondade, a cor é do amor e o silêncio é o da paz. Tudo o resto não me interessa. Tenho fé na natureza, no mundo, nas pessoas boas, até tenho fé que as pessoas más possam vir a recuperar. Mas é uma fé de crença na bondade e no Homem e nas coisas maravilhosas que pode fazer. O Rão Kyao tem uma frase que eu adoro: ‘Não acredito que alguém que prove a bondade não fique viciado.’

Começou a cantar em miúdo mas diz que não acha muita piada a ver miúdos a cantar fado. Porquê?
Estava a ser injusto até comigo, porque comecei em miúdo. O Fado é uma coisa muito séria e adulta, mas temos que começar de meninos para aprender porque não há escola (o que há são as casas de Fado) e é preciso ouvir os mais velhos. Irrita-me ouvir moços pequenos cantar coisas em que não os posso levar a sério. Não posso ouvir um mocinho cantar o Amor. Não faz sentido! A minha filha gosta de cantar; deixo-a a cantar coisas mais ligeirinhas… mas ‘A Gaivota’, da Amália?! Eiiii!…

A sua filha já canta?
Já, infelizmente. Isto é uma vida tão dura… tem umas coisas muito boas, mas tem um outro lado. E não quero que ela viva com a síndrome do ‘é filha de fulano’, tem que valer por ela e pelo talento que Deus lhe possa dar. Ela tem música nela, estuda piano, tem uma facilidade rítmica fantástica. Se ela me disser que também quer cantar? Vou ficar feliz e estou aqui para apoiá-la, mas também sou pai e quero protegê-la de algumas coisas que esta vida tem. Também tenho que perceber que a minha filha tem que passar pelo sofrimento para dar valor às coisas.

E a si, quem é que o protegeu?
O Maurício protegeu-me, de certa maneira, e outros mais velhos. Por isso digo que não tenho nada a provar porque foram os mais velhos que me puseram cá e disseram que eu tinha jeito.

Quem é que o ensinou a cantar Fado?
Isto nasce com a gente. Há coisas que se limam e se aperfeiçoam e se compreendem – as métricas, as tónicas, os autores. Isso aprendes-se a ouvir. Mas o resto, a carga fadista, o condão, isso não. Sente-se. Uma coisa é ser fadista, outra é cantar fado. São coisas muito diferentes.

Voltámos ao purismo, foi?
É. (risos) Ele de repente aparece.

Mas cresceu a ouvir, antes de se dar com os profissionais?
Sim. Ouvia a minha mãe a cantar enquanto fazia a lida da casa. E ficava ali preso a ouvi-la. Depois, a minha tia – ela sim, profunda conhecedora de e frequentadora de casas de fado – ia lá a casa ajudá-la. Tia por afinidade, porque nos bairros típicos de Lisboa há muito este espírito de solidariedade. Padeci muito de saúde quando era bebé, dava muito más noites e tinha um irmão, a minha mãe trabalhava muito. Nasci com insuficiências respiratórias, três hérnias na virilha, e aos 25 anos soube que só tinha um rim. Foi por causa dessa minha tia que eu conheci o Fernando Maurício, na festa dos 50 anos dela. E ela tinha discos que nunca mais acabavam e que eu ouvia tocar.

A 30 de abril temos concerto no Coliseu. Quais são as suas expectativas para ele?
É o meu primeiro Coliseu em nome próprio. São muitos nervos e ansiedade. Uns dias lido bem com isso e estou muito confiante, noutros não. Sou um conta-rotações. Mas é bom ter medo para ter imaginação – quando tenho um pouco de medo, os mecanismos na minha cabeça obrigam-me a arranjar esquemas para me desenrascar.

E como é que se ‘desenrasca’ um Coliseu?
Sei lá! Cantando o melhor que puder e souber e dormindo bem, que é coisa que não faço. Pisei pela primeira vez aquele palco há 20 anos, com 15, na Grande Noite do Fado. Fiquei em segundo lugar, mas nos dois anos seguintes fiquei em primeiro. Mas vai ser um motivo de orgulho e satisfação, sobretudo se a casa estiver cheia. No concerto vão poder ouvir fados de outros discos, como ‘Fado do Alentejo’, ‘Fama de Alfama’, ‘Porta do Coração’ e vamos ouvir este disco na íntegra, com todos os músicos que participam dele.

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