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ROTA DA SEDA

Carla Mota e Rui Pinto. Ela é geógrafa, ele é físico, e ambos são autores do blog ‘Viajar entre Viagens‘ e do livro ‘Viagem pela Rota da Seda’.

Os grandes viajantes Carla Mota e Rui Pinto e o livro que os inspirou

“Há 15 anos que somos viajantes intrépidos a percorrer o mundo juntos, de mochila às costas. No nosso currículo contam-se mais de 100 países. Ler é e sempre foi a nossa porta de entrada no mundo. As ‘Viagens’ de Marco Polo foi um dos livros que mais nos inspirou. Lemos o livro separadamente e depois, novamente, juntos. Desse livro resultou uma viagem que durou vários meses, de Istambul até à China. Para refazer a viagem, preparámo-nos devorando o livro, tentando encontrar no mapa os lugares atuais. Lembro-me de uma passagem sobre Tabriz, no Irão, onde perdemos imenso tempo à procura de uma igreja inserida no livro mas que já tinha sido ‘engolida’ pelo crescimento da cidade e praticamente era um edifício decrépito e abandonado. Foi uma pequena desilusão, mas outros locais superaram as expectativas, sobretudo na parte chinesa, no deserto de Taklamakan. Fantástico! Desta aventura resultou o nosso mais recente projeto, um livro sobre a nossa experiência na Rota da Seda. Das nossas viagens trazemos sempre livros sobre a história desse país ou de algum autor de lá. No Báltico, por exemplo, comprámos vários livros sobre a perseguição dos judeus na II Guerra Mundial na Lituânia, as obras de Che Guevara, na Argentina, ou de Pablo Neruda, no Chile. Levámos o livro do Luís Sepúlveda ‘O Mundo do Fim do Mundo’ connosco para o Canal Beagle em busca dos cemitérios espontâneos de baleias. A biografia de Fernão Magalhães é um dos nossos preferidos: visitámos na Argentina os locais que marcaram a sua viagem de circum-navegação e fomos às Filipinas em busca do lugar onde foi morto. Os livros dão-nos o mote para viajar. Nós escrevemos os capítulos seguintes.”

PERU

Ana Ni Ribeiro. Nutricionista com paixão pelo mundo dos livros e por viagens, autora do blog e página de Instagram ‘A Nitricionista‘ e do livro ‘A Minha Dieta’.

A nutricionista prova sempre os alimentos típicos de cada país. Mario Vargas Llosa inspirou-a a viajar ao Peru.

“Quem me conhece ou está atento ao meu Instagram sabe que sou apaixonada pela minha profissão e viajar é um dos meus vícios. Como dizia Pessoa, ‘afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras’. Os livros também nos permitem viajar, e eu sempre gostei de ler, muito. Aliás, a minha mãe conta que eu ainda não sabia ler e já folheava livros, com todo o cuidado para não os estragar. Em casa dos meus pais havia (e há) muitos livros, e tinha todas as coleções de livros adaptados à minha idade. Mas mesmo assim, com 10 anos já tinha lido ‘Os Maias’ e vários outros clássicos. Tenho sempre vários livros na mesa de cabeceira, mesmo que em alturas de excesso de trabalho não tenha tempo. Durante a quarentena de março, por exemplo, não consegui ler nem uma página, mas agora voltei ao normal e li imenso no verão, romances e biografias, os meus preferidos. Um dos meus autores favoritos é o peruano Mario Vargas Llosa, desde ‘Conversa n’A Catedral’, passando por ‘A Cidade e os Cães’ e ‘Os Cachorros/Os Chefes’. Foi através da leitura da sua obra que nasceu o desejo de conhecer o seu país natal, o Peru. E como não podia deixar de ser, descobrir uma das gastronomias mais elogiadas do mundo. Durante anos sonhava ir lá, até ao dia em que decidi que era a altura certa e três meses depois estava a aterrar em Lima, uma de muitas cidades que recomendo, pela cultura, pela história, e claro pela gastronomia, que é absolutamente maravilhosa, desde os pratos típicos aos de fusão. Adorei visitar os mercados e apreciar a variedade de legumes e fruta de que nem sabemos o nome, mas que não resistimos comprar e provar. Foi lá que comi o melhor ananás da minha vida, e olhem que eu já comi muito ananás! É fantástico como os livros nos permitem viajar e quando efetivamente fazemos essas viagens é uma emoção, um arrepio na pele… como se já lá tivéssemos estado. Adoro aquela sensação ‘eu já estive aqui, sei qual é essa esquina, conheço tão bem essa luz’.”

LOS ANGELES

Luís Oliveira e Silva. Professor Catedrático e Físico no Instituto Superior Técnico, leitor compulsivo e apaixonado pela ‘cidade dos anjos’.

A Cidade dos Anjos é um tema recorrente das leituras do professor catedrático.

“Na minha família, os livros estiveram sempre presentes. A minha avó materna dizia que os livros são os nossos melhores amigos e continuo a cultivar essas amizades de forma intensa. As minhas leituras seguem ondas de interesse intelectual em que sou, muitas vezes, exaustivo, talvez por deformação profissional – quando encontro um autor que aprecio gosto muito de ler todos os seus livros para compreender o seu estilo, a evolução da sua escrita e do seu pensamento. Enquanto jovem, apreciava as biografias e os romances dos autores norte-americanos do séc. XX, nos últimos anos, motivado pelo contexto político mundial, li muitos romances distópicos e também interpretações políticas dos últimos quatro anos nos Estados Unidos e na Europa. Um tema recorrente das minhas leituras é a cidade de Los Angeles, onde dei aulas e vivi durante vários anos. Como é (e sempre foi) uma cidade singular e única, mas difícil de compreender, existe sempre muito para (re)descobrir. Quando quero ‘regressar’, mergulho nos livros de Raymond Chandler. Este escritor escreve de forma notável e quase cinematográfica, fazendo com que seja muito fácil imaginar o protagonista, Philip Marlowe, a percorrer de carro as longas avenidas e os becos de Los Angeles, de Malibu a Santa Mónica ou Beverly Hills, do Griffith Park a Hollywood ou a Westwood, criando um roteiro físico e moral da cidade. É verdade que tudo se passa nos anos 40 do séc. XX, mas os pontos mais importantes da cidade, as desigualdades sociais, o estilo de vida, e os detalhes da toponímia não só me fazem reviver a cidade que conheço e vivi, como servem de guia para novas descobertas. Outros autores tentaram capturar o espírito de uma cidade, mas, nas minhas leituras, só LA, na sua atmosfera de permanente volatilidade, é que se deixou capturar pelos seus escritores e em particular por Raymond Chandler.”

PATAGÓNIA

Raquel Ochoa. Romancista, biógrafa, cronista de viagens, autora do blog ‘O Mundo Lê-se a Viajar‘ e de vários livros, ‘Pés na Terra’ é o mais recente.

A escritora adora viajar e o livro de Bruce Chatwin inspirou-a a ir à América do Sul.

“Ler é para mim uma relação íntima, como lavar os dentes, dar um beijo a quem amamos, cozinhar para comer. Leio todos os dias e de tudo mas tenho especial interesse em ficção – romances. O primeiro livro a conseguir transportar-me totalmente, apesar de não ser um livro de viagem, mas uma transformação emocional do herói, foi ‘Siddhartha’, de Herman Hesse. Já a obra que me fez querer visitar muito um país foi ‘Na Patagónia’, de Bruce Chatwin. Despertou-me uma enorme sede de América do Sul, sobretudo desse território longínquo tão a Sul. De tal modo me envolveu que lá fui pessoalmente uns anos depois e eu própria escrevi um livro, ‘O Vento dos Outros’, sobre a minha experiência. A Patagónia é um desses sítios do mundo que por mais que colecionemos informação, quando lá chegamos tudo é impacto, surpresa, e admiração. Já se escreveram muitos livros sobre aquelas paragens, mas quando lá chegamos há uma reação pessoal. A Patagónia, na sua grande extensão, é simplesmente uma estepe muito batida pelo vento, onde de quilómetros em quilómetros surgem locais admiráveis. Compreendi toda a mística de que se fala nos livros e o título  ‘O Vento dos Outros’ faz essa alusão – à “voz” daquele vento. Quando viajo para um país, gosto de ler sobre ele antes de partir. Os de História, creio, são essenciais para perceber uma certa cultura, mas a ficção, se for boa, consegue contar-nos muitíssimo sobre os aspetos mais importantes a reter daquele lugar.Captar o espírito do local num livro nem sempre é fácil, a Índia, por exemplo, é muito complexa, e por isso, sempre que me aventuro a escrever sobre ela, quer em ficção (‘A Casa-Comboio’), quer em literatura de viagens (‘Pés na Terra’), sei que vou sempre ficar aquém. As viagens são, em grande medida, um exercício de liberdade. Ensinaram-me que nunca poderei viver sem ela. Não estou a dizer que só quem viaja é livre, nada disso, mas o ato de viajar, as escolhas e decisões diárias, a expansão dos conhecimentos é, dito de outro modo, a liberdade a ser vivida.”

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