Foto Pexels/Kostya Levit Naddub

Passo por lojas carregadas de enfeites de natal, as luzes já montadas, um clima de pré-festa como se não se passasse nada, mas chego a casa e os telejornais parecem um filme de terror. Percebo o dilema dos pais: sendo que os miúdos também recebem estas imagens e também estão assustados, como é que podemos falar do que está a acontecer – a guerra, a crise, o desemprego, a falta de dinheiro – sem que elas percam a ideia de que apesar de tudo há muita coisa mágica?

Para nos falar da magia do Natal, ninguém melhor do que… o próprio Pai Natal. Não estou a brincar. Tenho a honra de ser amiga do Pai Natal ‘himself’. Severino Moreira, 74 anos, é há 23 o Pai Natal ‘residente’ do Colombo e nunca deixou de se espantar com os efeitos que dez minutos de magia têm na vida de todas as crianças, mesmo – principalmente – em alturas mais complicadas.

“Mesmo nos anos em que estivemos em confinamento, incluindo o Pai Natal, eu fiz as minhas sessões em zoom”, conta-me. “Obviamente que não era a mesma coisa, porque para mim ser Pai Natal é o contacto com as crianças, mas para que veja como a magia não os abandonou mesmo num dos períodos mais duros da Humanidade: quando fiz aquela pergunta sacramental ‘e quais são os teus desejos?’, um rapazinho disse-me: ‘Queria ter uma varinha de condão para destruir todos os vírus do mundo’.” Portanto, as crianças são muito fantasiosas mas também muito práticas… “Tal qual. E apercebem-se de tudo o que se passa. Ser Pai Natal é um confessionário infantil: eles contam-me tudo. E já tive momentos bem dramáticos.”

Recorda uma menina que lhe chegou com um ar assustado e que disse: “Pai Natal, eu não quero brinquedos, só quero que quando fores lá a casa ralhes muito com o meu pai para ele não bater mais na minha mãe.” O que é que se diz numa situação destas? “A única coisa a fazer é tentar que as crianças levem dali alguma esperança, alguma fantasia, alguma reconciliação com elas mesmas.”

Quando são pequenos, o Pai Natal faz por manter a ‘crença’. “Houve um menino que me disse: ‘Ouve lá, eu sei que tu não existes, que és um fulano qualquer com uns pelos falsos colados à cara’.” Eu, que me orgulho da minha barba verdadeira, disse-lhe logo: ‘Então puxa’. Ele deu-me um puxão tão grande que até vi estrelas (risos). E foi dali a gritar: ‘Vou dar um murro ao Rodrigo que disse que tu não existes!’” (risos). Mas se as crianças já são mais velhas, têm outra conversa. “Há quem já não acredite mas goste de tirar fotografia, por duas razões: primeiro porque gostam do carinho, da conversa, da atenção personalizada. Depois, acham mais seguro manter a ‘crença’ porque sabem que enquanto houver Pai Natal, vai haver presentes.” (risos)

A propósito, uma vez apareceram-lhe uns gémeos carregados de catálogos todos sublinhados. E diz Severino: ‘Mas vocês não sabem que o Pai Natal conhece os brinquedos todos?’ Resposta: ‘Pois pois. Por isso é que no ano passado trocaste aquilo tudo…” (risos)

Num ano em que se adivinham menos presentes, o Pai Natal continua a apostar na necessidade da magia, das histórias, do encantamento. “A fantasia é a capacidade de criar mundos fantásticos, e liberta em todos nós energias criadoras muito importantes para mantermos a sanidade mental. Estar com o Pai Natal é um pequeno-grande momento em que as crianças saem dali um pouco mais acarinhadas. Se as pessoas soubessem como isso é bonito e profundo, apreciavam melhor o que a fantasia nos traz a todos nós…”

Fora os tabus

Portanto, o que já aprendemos: 1) que mesmo o Pai Natal tem dificuldade em dar a volta às situações mais difíceis. E 2) que apesar disso, a fantasia continua a ser uma luz em dias escuros. Mas dizem vocês, ‘obrigadinha, sendo Pai Natal é fácil’. Então vamos saber como é que eu, não sendo Pai Natal, posso fazer esse milagre da fantasia na vida de todos os dias.

“Muitos pais têm esta dificuldade de perceber se devem ou não falar de temas mais difíceis com as crianças, mas a resposta é sempre sim”, defende Ana Carina Valente, que além de psicóloga, professora e habituada a prestar primeiros socorros psicológicos a pessoas em situações de extrema dificuldade, como os refugiados ucranianos. “Ainda por cima, nós não controlamos tudo o que as crianças veem e ouvem, e os mais velhos estão nas redes sociais e nos telemóveis, com acesso a muita informação. Portanto, aconselho a que não existam temas tabu. Se é um assunto em que temos dificuldade, então pensemos previamente no que queremos dizer-lhes.”

A ideia é transmitir alguma tranquilidade e confiança, falando de forma simples e clara. Mas primeiro ela precisa de ser ouvida e de aprender a confiar nos pais. E se depois eles ficam com pesadelos? “Esses receios iriam manifestar-se de qualquer maneira. Se eu tiver um espaço de segurança e tiver sempre quem me responda, é o ideal. E depois, dar tempo e espaço à criança para perceber aquilo que sente. Porque isto não é imediato.”

A guerra é um assunto especialmente difícil, mas a verdade é que todos já perceberam que ela existe, e podíamos aproveitar estas oportunidades para explorar muitos assuntos: “Que tipo de pessoa queremos ser, que formas existem de gerir os nossos conflitos, o valor da paz, que ‘guerras’ criamos no nosso pequeno mundo. Isto também nos pode levar a nós, pais, a repensarmos que educação queremos dar às crianças.” Claro que os pequeninos acham sempre que a guerra é à porta, mas podemos mostrar-lhes no mapa onde fica, que é longe, e envolver a criança nesta confiança.

Como falar da crise

Mais do que a guerra, problemas mais próximos como a crise ou a falta de dinheiro podem até ser mais assustadores. “Mas mesmo a crise pode ser, não esquecida, mas discutida em segurança”, explica Ana Carina Valente. “Podemos dizer: vai haver menos dinheiro em casa e temos de gerir isto de forma diferente, mas não é nada que não se ultrapasse em família. Podemos lembrar situações parecidas que já tenham vivido, afinal esta não é a primeira crise. Podemos falar de e com avós e bisavós que também tenham passado dificuldades mas que aqui estão para contar como foi. O importante é passar sempre uma mensagem de esperança no futuro: ‘a mãe agora está desempregada mas vai arranjar outro emprego’, e ver isto como uma forma de reforçar a união familiar.”

O problema é que os adultos também estão com medo, também estão desorientados, mas não podem passar esse estado emocional aos filhos. E isto pode ser stressante. “Se sentirmos que há umas horas ou dias em que estamos mais em baixo, devemos adiar o momento de falar nisso para uma altura em que estejamos mais controlados, para que a criança não registe uma mensagem de desespero”, orienta Ana Carina. Porque nós também temos de sentir esperança para a transmitirmos.

Mas como é que isso se consegue? Criar esperança nos adultos, quando os pobres adultos andam com a esperança tão em baixo? “Pensando que já passámos por situações piores ou igualmente más, ou alturas em que pensámos que não íamos ser capazes de aguentar, e fomos. Já houve muitas guerras no mundo e os países acabaram por reorganizar-se, já houve muitas crises e saímos delas, muitos de nós temos na família pessoas que passaram tempos difíceis, e portanto é a isto que temos de nos agarrar. A componente financeira obviamente que é importante e está sempre ligada à saúde mental, mas a forma como olhamos para a nossa vida conta, a forma como nos conseguimos reorganizar conta, e o que devemos transmitir aos nossos filhos é que é importante fazermos todos o melhor que pudermos.”

Aliás, os próprios miúdos ajudam-nos a nós, adultos, a manter a esperança. Ok, se calhar dantes íamos às compras e ao cinema e agora já não podemos, mas podemos ir mais vezes ao parque jogar à bola, por exemplo… Há que nos reinventarmos enquanto família. “E se virmos que não conseguimos, a quem podemos pedir ajuda? A um tio ou um amigo que possa ficar com a criança? Há quem esteja de facto sozinho, mas a maioria de nós não está. Portanto, não pense que ‘não quer incomodar’. Recorra à sua rede de apoio. Às vezes os pais também precisam de tempo para respirar, para encontrar o seu chão. É preciso mesmo uma aldeia para criar uma criança. Use a sua.”

Todas as armas são poucas

Outra arma para resistir a tempos difíceis, além da calma, da esperança (e dos tios), é a fantasia. Mas como incentivar a capacidade de sonhar? “Todas as crianças a têm, porque a fantasia é uma forma de sobrevivência”, explica Ana Carina. “Nós, pais, podemos aprender com eles, porque ninguém aguenta viver em crise emocional. “Por isso, incentive a criatividade e o pensamento mágico.” E o Natal presta-se muito a isto, e não apenas pela parte dos presentes. “Há a história do Pai Natal, a carta, o Menino Jesus, até a fada dos dentes, e em algumas famílias há isto tudo porque todas as armas são poucas (risos), portanto mostre-lhe as luzes, as músicas, as cores dos enfeites da árvore.” Se não aprenderem em crianças a serem capazes de imaginar novos mundos, para serem capazes de pensamento abstrato, para serem capazes de se maravilhar, de observar, de sentir coisas diferentes, quando é que vão aprender?

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