
‘A breve vida das flores’ foi considerado um dos melhores romances do ano passado, e a sua fama correu de boca em boca numa altura em que se diz que já ninguém lê. Pelos vistos há quem leia, porque conheço muitíssimas pessoas que o leram, e nenhuma que não tenha gostado.
É um livro fácil de gostar (o que não quer dizer que seja fácil de ler): a história é comovente (não vos dou dar nenhum spoiler, para o caso de ainda não o terem lido), a escrita é muito poética sem ser lamechas (o que é difícil) e a leitura torna-se quase hipnótica. É muito bonito, muito profundo, muito magoado, e deixa-nos de rastos. Pronto, tem um título português arrevesado numa cacofonia perfeitamente dispensável mas sobre isso já falei.
Este ano, chegou-nos ‘Três’, da mesma Valérie Perrin.
História (para despachar) – A história quebra-se entre um presente em que é encontrada uma rapariga morta no fundo de um lago e há uma jornalista misteriosa que chega à terra, e um passado em que se segue a vida entrelaçada de três amigos, Nina, Adrien e Étienne, desde a infância até ao presente. Até aqui nada de original. O que é original é a forma como a história está contada (pronto, e o arranque final).
Reconhece-se o estilo: a mesma escrita trabalhada mas sem ser pesada, a mesma leitura hipnótica, o mesmo tipo de heroína (ou então era a minha ‘atriz mental’ que representou tanto Nina como Violette, na minha cabeça têm a mesma cara, com vocês passou-se isso?), a mesma estrutura dispersa por diferentes anos.
Mas ‘Três’ exige mais do leitor: os vários saltos no tempo quebram a concentração, as personagens são muitas, aquilo que é suposto o leitor – e cada personagem – saber vai-se acumulando e vai sendo sempre convocado, as emoções chegam em catadupa. Portanto, basicamente, é preciso uma leitura mais atenta. Enquanto nas ‘Flores’ uma pessoa ia para lá de kleenex na mão e deixava-se levar, aqui não nos deixam ‘ser levados’, o livro exige sempre a nossa presença, o nosso testemunho.
Bem – também não vos vou dar spoilers (embora me apeteça). Perguntei a vários leitores e alguns disseram-me que já estavam a adivinhar desde o princípio. Devo dar-me com pessoas muitíssimo inteligentes porque eu fui apanhada tão de surpresa que até achei que estava a ler mal. Portanto, primeiro conselho: não discutam o livro com ninguém antes de o lerem, porque de certeza que quem já o leu se vai descair (ao contrário de mim, que sou um túmulo).
Além da surpresa, o segredo desvendado levanta muitas questões interessantes: que escondemos nós, mesmo das pessoas que nos conhecem melhor? Que mundos interiores há dentro de cada pessoa? Que fizemos da criança que fomos? E que fazemos do adulto que somos? Quais são as várias maneiras de sermos fiéis a nós próprios? Às vezes é preciso escolher entre nós e os outros? Entre nós e um outro? Quando é que vale a pena morrer? E quais são as várias formas de ‘morrer’?
Enfim, cada pessoa fará a sua leitura e as suas perguntas. Deixo-vos a ler, que também é uma ótima maneira de viver.
‘Três’ – Valérie Perrin, Ed. Presença, E21,90