“Embora exteriormente pareça uma mulher saudável de trinta e dois anos, no início do ano recebi a notícia de que tinha cancro no pulmão e era incurável” – este é o ponto de partida de um percurso que já sabemos como acabou: Lara da Rocha Vaz Pato morreu a 27 de Maio de 2022, aos 31 anos. Curiosamente, este não é um livro fúnebre, e também não é um livro só sobre cancro. O inesperado diagnóstico, no princípio da pandemia e numa idade em que as pessoas se preocupam com coisas como comprar casa ou ter filhos, levou Lara Vaz Pato a pôr tudo em causa: a forma como vivia, os seus pensamentos, até o seu passado.

E a pergunta ‘quem sou eu?’ trazida pela doença leva-a numa viagem onde, apesar de ela dizer que escreve apenas para si própria, o leitor se sente acolhido. Portanto, esta é uma ‘espécie’ de autobiografia na sombra – mas também na luz – do fim.

Não é um livro absolutamente nada português. Não há aqui choradinho nem pieguices nem aquela coisa de ‘o cancro fez de mim melhor pessoa’. As angústias e o medo não se evitam e fala-se delas abertamente, tal como da reação dos outros. Lara conta-nos por exemplo as reações à careca: “As reações mais desconfortáveis à minha careca provinham de pessoas que não eram nem minhas amigas nem estranhas. Sempre que encontrava uma dessas pessoas, a expressão no seu olhar era um misto de curiosidade e de pânico.”

Ela própria partilha dos dois sentimentos em relação a si própria: curiosidade e pânico. Mas não deixa de ver o lado melhor de tudo, até de ter cancro. Rimo-nos muito com este livro, o que pode parecer estranho a quem não perceba como o humor pode tornar a vida – e a morte – suportável. Afinal, o humor sempre foi uma arma poderosa contra o medo.

Lara partilha connosco muitos episódios da sua vida: a relação estreita com a mãe e difícil com o pai, a morte da mãe quando Lara tinha 12 e o pai aos 20, a aproximação da irmã, a pressão de estudar em Portugal durante a crise dos anos 2000. Seguimos os seus estudos, o mestrado em física e o doutoramento em engenharia biomédica, a sua luta para viver na Bélgica e na Holanda, as dúvidas profissionais e as exigências do mercado tecnológico, um mundo que muitos portugueses não conhecem.

Aliás, este livro foi escrito em inglês e Lara faz algumas vezes uma contextualização: “Talvez deva explicar que nasci e cresci em Portugal, um dos países mais pobres da Europa, e a maioria dos portugueses pode ser dividida em duas categorias: aqueles que são pobres e aqueles que vivem a sua vida com medo de serem pobres.” Aqui encontramos não apenas o retrato de uma pessoa que se confronta com a sua própria morte mas também uma história de vida que espelha a que foi – e é – a de tantos jovens portugueses que não encontravam no país condições ideais para seguirem a sua carreira.

Entre tanta literatura absolutamente ‘esquecível’, este é mesmo um daqueles exemplos que vale a pena deixar entrar na nossa vida: Lara pode ter morrido a 27 de Maio de 2022, mas neste livro ela continua connosco, a fazer-nos rir e chorar, trazendo-nos para a vida dela e levando-nos com isso a pensar também nós na nossa vida.

Ah, onde é que entra o Death Café? (porque entra mesmo um Death Café, e um psicólogo e uma virgem). Isso descobrem vocês.

Uma mulher com cancro, um psicólogo e uma virgem entram num death café’ – Lara Vaz Pato, Quetzal, E17,70

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