
Então se perguntarem a história de ‘Nessa altura já cá não estamos’ (Lola Mascarell, D.Quixote), a resposta básica é: a protagonista descobre que os pais puseram à venda a moradia onde passou férias durante a infância, mas como não quer perdê-la para um estranho, pede um empréstimo ao banco e tenta adiar a venda, aproveitando os últimos momentos na casa.
Pronto. Isto é ‘a história’. E no entanto, isto é o que menos importa neste livro. Aliás, eu diria mesmo que é apenas um pretexto, um enquadramento narrativo para aquilo que na verdade é um longo poema em prosa, ou um poema feito de vários retalhos de poemas.
Não me interessa nada a infância de outra pessoa. Aliás, irritam-me bastante livcros que ‘evocam a infância’. Claro que vocês provavelmente também não estão nem aí para aquilo que me irrita, mas isto só para vos explicar que quando me disseram que era ‘um livro sobre a infância’ claro que revirei os olhos. Oh não, outro.
Verdade absoluta: é muito difícil escrever um livro muito bom sobre a infância, precisamente porque ninguém quer saber. É como contar os nossos sonhos a alguém. Já repararam? Ninguém quer saber. Pois este livro consegue-o. A mim não me interessa nada se isto foi verdade ou não, se foi mesmo a infância da Lola Mascarell ou não. É tão bonito (odeio esta palavra mas já vão ver o que eu quero dizer) que se desbanaliza como infância, é tão pessoal que se torna universal, é tão bem escrito que na verdade tanto podia ser sobre a infância como sobre outra coisa qualquer, a ideia que eu tenho é que esta mulher há de escrever bem sobre tudo.
Aliás, nota-se muito que Lola Mascarell é poeta (ganhou dois prémios de poesia) porque a linguagem tem na verdade o papel principal neste livro. Que não é, ao mesmo tempo, um mero exercício de escrita. Aqui se fala de recompensas e portas sagradas, de óculos e lentes de contacto, do poder do aborrecimento e de guisado de almôndegas, de histórias e segredos, da fragilidade da memória e do poder das palavras.
Aqui se fala de culpa:
“Sempre que acontecia alguma coisa má, pensava que a culpa era minha. Por não me lembrar, por ão estar atenta, por não olhar. Ainda não sabia que se tratava de um sentimento genuinamente humano, tristemente comu, uma consequência lógica do nosso livre-arbítrio.”
E de luz:
“Por vezes estar vivo é olhar para uma luz. Agarrar-se à luz como quem, na queda, se segura aos ramos de um arbusto. Olhá-la simplesmente. A vela que a minha avó acendeu naquela tarde era então o seu vínculo à vida, a sua ligação aos misteriosos túneis da imaginação. Não a acendera apenas para iluminar os nossos últimos minutos na casa da Rua Quart. Acendera-a para se recordar a si própria de que ainda estava viva.”
E de fantasmas (prometo que é a última citação, só para perceberem aquilo de que vos falei há bocado).
“Acredito nos fantasmas e nos espíritos porque os senti muitas vezes: enquanto esticava os lençóis da cama, ao varrer o chão, quando corria as cortinas. Uma presença que corrige a ausência dos que já cá não estão.”
É engraçado notar ainda que o título original está no feminino, ‘Nosotras ya no estaremos’ (soa tão mais poético que o título em português). Talvez porque as verdadeiras guardiãs da memória ainda sejam as mulheres…
‘Nessa altura já cá não estamos’ – Lola Mascarell, D.Quixote, E15,90