
Por esta altura, já toda a gente (enfim, muita gente) conhece o nome de Eunice Paiva, largamente devido aos Globos de Ouro que deram o prémio de Melhor Atriz Dramática à brasileira Fernanda Torres, para grande orgulho também dos portugueses, que se sentiram um bocadinho premiados por ter sido um filme em língua portuguesa.
Dito isto, a semana em que o filme estreou em Portugal foi uma excelente altura para lançar o livro que deu o mote ao filme, que tem o mesmo nome (e que, ao que parece, levou anos para ser adaptado ao cinema). Escritor, jornalista e dramaturo, o autor conta aqui a sua história, começando na infância, e como foi crescer em plena ditadura brasileira, numa família diretamente – e dramaticamente – afetada pela sua violência: o pai, o deputado Rubens Paiva, foi torturado e morto, e a mãe, Eunice Paiva, ficou sozinha, sem saber o que acontecera ao marido, sem um corpo para enterrar e com cinco filhos para criar.
O filme é a história de uma mulher que se reinventou: depois do ‘desaparecimento’ do marido, em 1971, voltou à universidade, formou-se em direito, e além de sustentar a família tornou-se uma importante advogada na luta pelos direitos humanos, especialmente dos direitos dos povos indígenas.
O livro tem algumas diferenças: acima de tudo, retrata muito bem como é viver numa família em que o pai está ‘desaparecido’: teme-se o pior mas não se sabe realmente nada, não há corpo para enterrar nem luto que se possa fazer. Como a própria Eunice afirma, “A tática do desaparecimento político é a mais cruel de todas, pois a vítima permanece viva no dia a dia. Mata-se a vítima e condena-se toda a família a uma tortura psicológica eterna. Fazemos cara de fortes, dizemos que a vida continua, mas não podemos deixar de conviver com esse sentimento de injustiça.”
Mas enquanto o filme é uma homenagem à mãe, focando-se na figura de Eunice Paiva como símbolo de resistência e de amor maternal, o livro é mais abrangente e mais fluido. No filme, vemos as coisas do ponto de vista da mãe. No livro, vemos o ponto de vista do filho, Marcelo, acerca da sua infância, do contexto do Brasil na época da ditadura, do que de facto aconteceu com Rubens Paiva. Há outras diferenças: enquanto que o filme começa quando a família já está no Rio de Janeiro, o livro também conta o que aconteceu antes (até para marcar a diferença entre as duas ‘vidas’).
E, sim, a figura de Eunice parece um pouco mais fria no livro (embora se perceba porquê). Marcelo recorda como era crescer com uma mãe que não criou os filhos com paninhos quentes e que ‘nunca foi a uma reunião da escola’ porque tinha mais que fazer. Também interessante é, no fim da vida de Eunice, a forma como um filho se torna de certa forma um pai, quando a mãe desenvolve Alzheimer.
Numa altura em que a sombra da ditadura cresce de tantas formas, talvez seja útil ler o livro (e ver o filme), para perceber porque é que não queremos voltar a nada parecido. Além disos, em Portugal sabemos muito pouco sobre a ditadura brasileira. Este é um bom livro para ficarmos um pouco menos ignorantes.
‘Ainda estou aqui’ – Marcelo Rubens Paiva, D. Quixote, E18,80