
Para quem como eu já faz parte da grande corte de fãs de Camilla Läckberg, aqui fica mais um episódio da vida de Patrik e Erica (embora claro que seja sempre possível começar por qualquer um dos livros). O tempo vai passando e a família vai crescendo, mas os crimes na pequena localidade de Fjällbacka não páram de acontecer (espanta-me sempre como é que os autores de policiais escolhem sempre como cenário localidades muito pequenas. Já com a Miss Marple era espantosa a quantidade de crimes horrendos que acontecia praticamente todos os dias na pacata St. Mary Mead. Mas digamos que é compreensível do ponto de vista do encenador: é mais fácil contar uma história se reduzirmos o palco. Adiante).
Uma das coisas que sempre achei original na Läckberg é a forma como sobrepõe a violência extrema à domesticidade perfeita, o crime horrendo e a vida familiar, os psicopatas e os pais de família. Aliás, para dizer a verdade, agora não me lembro de todos mas ela tem um pendor humanista para explicar todos os crimes, por mais horrendos que sejam – como é aqui o caso.
Outra imagem de marca é a forma como também sobrepõe passado e presente, de forma a que a ligação entre os dois só se perceba no fim (felizmente que deixaram de pôr o passado em itálico, era uma coisa que perturbava imenso a leitura. Um obrigada à editora).
Então, história: Patrik é chamado para investigar o caso de um fotógrafo de arte, encontrado morto numa galeria de arte. Mais tarde, acontecem mais três crimes muitíssimo chocantes que abalam a vida de um famoso escritor e da sua mulher, mas não vos vou aqui falar mais disto para não ser spoiler.
Bem, enquanto o marido está a braços com quatro mortos, dois dos quais especialmente tocantes, Erica, como já é habitual, põe-se em campo para descobrir o que aconteceu a uma transsexual e à filha nos idos anos 80.
Como também é habitual, os dois casos, o do marido e o da mulher, acabam por se sobrepôr.
Pronto, se gostei: gostei. É Camilla Läckberg no seu melhor: a história é muito bem montada e muito bem pensada, embora não seja difícil adivinhar o fim (ou parte dele, porque há tipo 3 fins). Claro que tudo aquilo é rocambolesco (adoro esta palavra) e não estamos a ver acontecer em nenhuma parte da vida chamada real, mas por isso é que estamos a ler um romance policial e não um ensaio sobre canalizações, por exemplo.
Problema: não lhe chamaria um problema porque o problema é meu e não dela. Acho que não estou numa fase da vida muito dada a policiais, se calhar porque apanhei uma grande overdose durante a pandemia (lembram-se?). Às tantas começou-me a parecer que havia ali personagens a mais: os tipos da esquadra, que são imensos (em Portugal a coisa aguentava-se com metade do pessoal), a família do escritor, os maridos e mulheres e filhos da família do escritor, as personagens secundárias tipo os que fazem as autópsias ou os que ajudam a investigar, olhem, se calhar é de vir de um Regency Romance mas a minha cabeça não estava para aí virada e passei o tempo a ter de ir atrás ver outra vez quem era aquele (a Philippa Gregory diz que o mais cansativo num romance histórico é ter de estar sempre a relembrar às pessoas quem são as personagens, e de repente lembrei-me disso).
Dito isto, é um belo policial: bem esgalhado, bem escrito, com temas que tocam a todos como a importância das mães (e dos pais) na construção de um ser humano, e com a faixa de bónus de ter uma personagem principal trans, porque nunca é demais relembrar que este mundo é de todos e deve ser para todos. E leiam já, não deixem para comprar na Feira do Livro e ler no verão porque toda aquela bruma sueca exige inverno à nossa volta.
Boas leituras e não matem ninguém. Se conseguirem.