
‘Sensibilidade e bom senso’ não tem a fama de ‘Orgulho e preconceito’ ou ‘Emma’ mas é uma das obras-primas da mais famosa escritora inglesa.
No ano de 2025 celebramos os 250 anos da grande Jane Austen, e nem de propósito há reedições também em Portugal. E o mais espantoso em ‘Sensibilidade e bom senso’ é que hoje lemos um livro escrito há mais de 200 anos e aquilo parece-nos tudo atual. Sim, a posição das mulheres em 1811, data em que o livro foi escrito, era apesar de tudo bastante mais precária do que é hoje. Uma família que perdesse o pai, marido ou figura tutelar masculina corria sérios riscos de sobrevivência.
E os amores e desamores das heroínas austeniana estão sempre ligados a preocupações económicas: devemos seguir a nossa loucura e casar com um homem charmoso mas que não tem nada de seu ou seguir o nosso bom-senso e confiar em alguém mais maduro? No tempo de Jane Austen, isto não era uma mera escolha do coração. A sobrevivência podia depender disso.
O início da história é altamente prosaico: um velho pai de família morre, e pede ao filho mais velho que cuide da mãe e das irmãs, deixando a cada uma delas uma determinada quantia de dinheiro. O filho pensa cumprir a última vontade do pai, mas é rapidamente disuadido pela mulher. E durante um capítulo absolutamente genial, marido e mulher discutem o futuro das quatro mulheres por quem deviam zelar até chegarem à conclusão de que elas na verdade não merecem absolutamente nada. A mulher do irmão e cunhada das 4 não merece muita estima por parte da autora, que a descreve assim:
“Mrs. John Dashwood nunca fora muito querida de nenhum dos membros da família do marido, mas não tivera, até aí, oportunidade de mostrar até que ponto conseguia ser escassa a sua atenção ao bem-estar dos outros quando a ocasião o requeria.”
Esta é uma das armas de Jane: uma ironia que desmantela os ridículos, os egoistas, os mal-intencionados, os cruéis e os emproados deste mundo. E é esta ironia que a mantém tão atual. Podemos divertir-nos ao longo do livro a tentar descobrir se Marianne e Elinor vão escolher Willoughby ou Brandon, mas quem nunca vamos esquecer é a pérfida cunhada que consegue desbaratar a mãe e as irmãs do marido. Afinal, quantas famílias não conhecemos nós assim?
Como ainda agora começámos a celebrar os 250 anos, conto voltar à Jane em mais ocasiões. Até lá, stay tuned e vão começando por aqui. Ou relendo. Ou lendo pela 184645867ª vez.
‘Sensibilidade e bom senso’ – Jane Austen, Presença, E17,90