
Estão-me aqui a dizer que a primavera já chegou, mas como pelas minhas bandas ainda não vi nada muito parecido, deixo-vos hoje com um policial nórdico que vai muito a condizer com o nosso inverno que não acaba. E já que não acaba, deixem-se estar em casa a ler.
Este ‘Aurora Boreal’ foi o primeiro livro de Asa Larsson, e ganhou logo o Prémio da Academia Sueca de Escritores para o Melhor Romance Policial de Estreia, em 2003. Mais de 20 anos depois, com uma nova capa e uma nova edição, o romance não perdeu nada da sua frescura (desculpem a piada) nem da sua atualidade, e foi o primeiro de uma série de seis que tem como heroína a advogada Rebecka Martinsson.
Ao contrário de outros autores nórdicos, Larsson interessa-se mais pelo lado psicológico dos criminosos do que propriamente por descobrir quem fez o quê.
Então, história: a perturbada Sanna descobre o corpo mutilado do irmão Viktor numa remota igreja. Os olhos foram arrancados e as mãos cortadas, no que parece ser um ritual assustador. Claro que a primeira suspeita é a própria irmã da vítima, que encontrou o cadáver. Viktor, a quem costumavam chamar ‘o Rapaz do Paraíso’, era o pregador mais famoso da Suécia, membro de uma igreja fundamentalista chamada Fonte da Nossa Força, política e socialmente importante. A pergunta é óbvia: que teria Viktor descoberto de tão importante que levasse a uma morte tão horrenda?
Para a ajudar, Sanna pede ajuda à sua ex-melhor-amiga de adolescência, uma advogada que cresceu com ela mas que vive há muito tempo em Estocolmo e que volta para tentar deslindar toda a teia de influências em Kiruna.
Para quem não sabe, Kiruna é uma cidade a norte da Lapónia sueca, aliás é a cidade mais a norte da Suécia. Famosa pelo clima gelado, pelo Hotel do Gelo, pelo povo Sami, pelas florestas e pelas auroras boreais, é uma terra de contrastes, de invernos onde o sol nunca chega verdadeiramente a nascer e verões onde nunca se põe. Aqui, a autora usa o gelo como metáfora das mentes frias dos ‘congregados’ da igreja. Aliás, a própria Kiruna é aqui a personagem principal.
É este o cenário de um crime que vai juntar muita gente num sítio onde aparentemente não se passaria nada. Acrescente-se que a advogada-heroína, a workaholic Rebecka, tem um passado em Kiruna que vai voltar a atormentá-la, e ela própria pertencia à igreja e conhecia bem Viktor e a família, incluindo Sanna, que a traiu. E este regresso obriga-a a confrontar muitos episódios do seu passado que ela julgara esquecidos. Tem várias razões para não querer voltar a Kiruna nem a falar com alguém ligado à igreja: afinal, Rebeka é uma mulher traumatizada (não vos vou vontar porquê, vão ler o livro) e nada disto vai ser fácil. A Rebecka junta-se ainda Anna-Maria Mella, uma polícia grávida e mãe de três filhos.
Asa Larsson, a autora, partilhou durante algum tempo a profissão da sua personagem principal. Também nasceu em Kiruna e formou-se em direito na Universidade de Uppsala, antes de se tornar escritora a tempo inteiro.
Se vale a pena ler: claro que vale, senão não vos estava a falar dele. Mas pode ser muito perturbador para as mentes mais sensíveis, porque os nórdicos, um dos povos mais pacíficos do mundo, não são meigos quando escrevem sobre violência. Por isso vão preparados.
‘Aurora Boreal’ – Asa Larsson, Planeta, E17,90