Pôs a sua experiência de anos de jornalismo ao serviço dos ‘retornados’, contando as muitas histórias, sofridas e aventurosas, das pessoas que voltaram de África depois da Guerra Colonial. Não foi fácil dar a voz a quem nunca a teve, mas Marta quebrou este silêncio ‘cultural à volta de um dos períodos mais dolorosos da História portuguesa. Podemos lê-la em ‘Retornados’, ‘Cartas de amor e de dor’ ou ‘Madrinhas de guerra’.

Não é estranho que, passados tantos anos, ainda haja tanto silêncio à volta da guerra colonial, de quem a fez e das suas consequências?

É muito estranho. Apesar de tudo já passou muito tempo, e ainda se fala em surdina desse passado, principalmente dos retornados, fala-se muito pouco e ensina-se muito pouco nas escolas.

Achas que temos vergonha?

Talvez tenhamos, olhando para trás. Muitos destes homens que fizeram a guerra colonial foram para lá como heróis e foram recebidos como assasinos, e sem culpa nehuma, porque foram a mando da pátria. Outras foram simplesmente à procura de uma vida melhor. Voltaram porque não tiveram alternativa e foram muito mal recebidas. Portanto acredito que há partes da nossa história que gostariamos de ignorar. Mas não podemos porque estas pessoas vivem connosco, ainda cá estão.

Se agora não tomarmos nota destas memórias, daqui a pouco estas pessoas desaparecem e nós não deixámos registadas as suas vivências…

Por isso mesmo é que eu acho que esta é a altura certa para fazê-lo. Esta luta contra o tempo pela memória deste passado que é rccente mas já está em risco de desaparecer temos de registar o máximo possível.

Porque é que é importante rgeistar estas memórias?

Porque sem passado nâo compreendemos o presente e não antecipamos o futuro. Mas o que me interessa é a vida comezinha, a vida de todos os dias, a vida do pequeno protagonista e não da alta patente, do capitão que saiu nas notícias. Interessa-me a vida das pessoas como nós que foram apanhadas num turbilhão da História e que temos de conhecer e de perceber, para termos bem presente e não deixarmos que estas coisas se repitam.

É isso que torna o livro tão apelativo: pensas sempre ‘aquela podia ser eu’…

Foi isso que eu senti quando conecei a escrever. Podia ser eu. Isso marca-nos muito. Estas pessoas ainda estão connosco e tudo isto as marcou muito e ainda marca. Há homens que eram militares e ainda se escondem debaixo da cama quando ouvem barulho. E há retornados com muitas saudades de África. Alguns contaram-me que vão ao jardim zoológico quando querem matar estas saudades, para sentirem o barulho dos animais, o cheiro da terra molhada. E isto não os afeta só a eles, acaba por passar para as outras gerações.

Mas tu sentes isto como a tua história, mesmo não a tendo vivido…

Completamente. A história dos nosso pais e dos nossos avós colam-se-nos à pele.

É giro dizeres que esta não é a história dos teus avós porque nunca registaste as memórias deles, mas esta é também a história deles contada através de outros, não é?

Sim, é como quando deixamos um lugar à mesa para aqueles que já não estão. Eu não quis trair a memória deles contando a história que deviam ter sido eles a contar. Mas não devia ter sido assim, se eu tivesse despertado para isto mais cedo. Mesmo assim, este livro acaba por ser uma homenagem à história deles.

Sempre os ouviste contar histórias de África?

Sim, sempre soube que eles tinham vivido em África, era um tema vivido com alguma alegria, com memórias boas misturadas com as tragédias. O meu avô foi primeiro, ver, trabalhar, e quando percebe que vai funcionar, a minha avó vai ter com ele levando três filhos dos seis que tinha, incluindo a mais nova que tinha um mês quando ele parte e que o vota a ver já com 5 anos. Portanto a minha avó deixa três filhos em Portugal, entre os 10 e os 15 anos, e só os volta a ver em 75. E há aqui um sofrimento enorme dos dois lados. Os meus tios que não foram falam de um sofrimento atroz. A comunicação era muito difícil. Eu sempre convivi com este lado de sofrimento, mas também com um lado de imensa alegria quando recordavam a vida em África, assim como muitas palavras africanas, ‘balalaica’ para dizer camisa ou ‘machimbombo’ para autocarro, os baús de pau preto onde trouxeram as poucas coisas que conseguiram, o dinheiro que o meu avô trouxe escondido num compartimento seceto. Portanto, eu neste livro quis dar os dois lados: não contar só o retorno e as dificuldades da chegada mas também o que motivou a ida, a vivência em África e aquilo que trouxeram de lá e não esqueceram.

Chamava-se retornados a todos mas a palavra não serve a meio milhão de pessoas…

Não, de todo. E há muita gente que me diz ‘olhe eu quero muito ler o livro mas não concordo nada com o título porque não me considero retornada’. As histórias são todas diferentes e muita gente de facto não se considera retornada, até porque algumas até nasceram lá. E muitas pessoas nem sequer consideram Portugal a sua terra. Temos de separar isto da questão da emigração. Os nossos emigrantes que iam para França, e que tanto sofreram lá, iam geralmente com o plano de regressar, um dia, quando tivessem vida e dinheiro para isso. Estes não. Quem ia para África ia para ficar. Ninguém me diz – Eu ia para África fazer dinheiro para um dia regressar à minha aldeia. – As pessoas tornavam-se africanas. E África em comparação com Portugal era um país muito mais avançado em tudo, nos costumes, nas vivências, nos hábitos. Havia muito mais convivência, imensas festas, as portas todas abertas, uma liberdade que cá não havia. E para quem voltava, o choque era brutal a todos os níveis. E depois há a tal magia de África que ninguém sabe explicar, algures entre a cor e os cheiros.

E tu, já foste a África?

Nunca fui, só a S. Tomé e Príncipe. Mas não hei-de morrer sem ir ao sítio onde os meus avós viveram.

Foi fácil chegar a estes testemunhos?

Foi. Entrevistei pessoas que já conhecia, andei em grupos de retornados no Facebook, de uns passei para outros, e isto funcionou muito bem a partir do passa-palavra.

Há histórias absolutamente extraordinárias, aliás cada uma delas dava um filme…

Sim, a realidade ultrapassa em muito a ficção. Houve histórias muito impressionantes. Por exemplo, a história do José Silva, que tinha 12 anos. O pai foge de Angola e precisa de levar dois camiões, e ele, com apenas 12 anos, oferece-se para guiar um deles. O pai tenta protegê-lo e vai à frente. Levaram 300 pães para distribuir onde fosse preciso, depois ficaram num campo de refugiados antes de chegarem a Portugal, e aí o José foi responsvel por distribuir a comida pelas pessoas. Também me marcou muito a história dos meus sogros, casados debaixo de fogo numa terra já muito destruída pela guerra civil, onde não havia farinha para fazer o bolo, o rolo das fotografias estava estragado, o ourives tinha fugido para Portugal com as alianças, a minha sogra pouco depois descobre que está grávida mas todos os médicos tinham fugido, eles conseguem fugir para o Gabão e depois ela vem sozinha e grávida de 7 meses do Gabão para Portugal. Também me marcou a história do António Neves: foi para Angola com 5 anos, na altura da tropa foi mobilizado para combater por Portugal, três dias antes de casar fica mutilado e cego mas casa na mesma, e na altura do retorno vai ao aeroporto de Luanda e entrega a filha bebé de um ano a um desconhecido para a salvar, pedindo que a entreguem no Lobito aos avós. Ele e a mulher voltam a encontrar a filha meses depois em Portugal.

Essas histórias marcaram-te?

Inevitavelmente. Quando escrevemos sobre isto, estas pessoas passam a viver dentro de nós e a fazer parte da nossa vida. E tudo isto me fez pensar que, neste momento, 50 anos depois do 25 de Abril, nós portugueses vivemos mesmo num cantinho do céu.

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