A nova realidade pode durar mais tempo do que imaginava. Na falta de um tratamento ou vacina eficaz, as pessoas em todo o mundo poderão ter de continuar a praticar algum tipo de distanciamento social até 2022 para travar a pandemia do novo coronavírus.

Num estudo publicado esta terça-feira, 14 de abril, na revista científica “Science”, as projeções dos investigadores da Escola de Saúde Pública T.H. Chan, da Universidade de Harvard, indicam que poderia haver um grande ressurgimento da infeção se as medidas de distanciamento social fossem suspensas de uma só vez, potencialmente atrasando o pico da epidemia e, por conseguinte, sobrecarregando os serviços de saúde.

A equipa usou dados dos Estados Unidos para modelar a transmissão de outros coronavírus em regiões temperadas e projetar possíveis cenários de infecção por COVID-19 até o ano 2025. “Esforços de distanciamento menos eficazes e únicos podem resultar numa epidemia prolongada de pico único, com a extensão da sobrecarga do sistema de saúde e da duração necessária do distanciamento, dependendo da eficácia,” escreveram os autores do estudo.

Os especialistas acrescentam ainda que “o distanciamento intermitente pode ser necessário até 2022, a não ser que a capacidade dos cuidados intensivos seja substancialmente aumentada ou que um tratamento ou vacina esteja disponível”. Tratamentos e vacinas eficazes podem demorar meses ou anos a serem desenvolvidos e testados, deixando as intervenções não farmacêuticas como o único meio imediato de conter a propagação da infecção.

Segundo o estudo, se a imunidade à COVID-19 não for permanente, o vírus poderá entrar em circulação regular, tal como acontece com a gripe, possivelmente em padrões anuais, bienais ou esporádicos nos próximos cinco anos. Num dos modelos, depois de um período de 20 semanas de distanciamento social, houve um pico de ressurgimento quase tão grande quanto o de uma epidemia não controlada.

“O distanciamento social foi tão eficaz que praticamente não foi construída nenhuma imunidade populacional,”dizem os cientistas de Harvard. “As maiores reduções no tamanho dos picos vêm da intensidade e duração do distanciamento social, que dividem os casos de uma forma quase igual entre os picos”.

Os investigadores reconheceram que “o distanciamento prolongado, mesmo que intermitente, provavelmente terá consequências económicas, sociais e educacionais profundamente negativas”. Assim sendo, esclarecem que o seu objetivo ao modelar tais políticas não é apoiá-las, mas sim identificar trajetórias prováveis da epidemia sob abordagens alternativas.

“Não tomamos uma posição sobre a conveniência desses cenários, dado o ónus económico que o distanciamento sustentado pode impor, mas observamos o ónus potencialmente catastrófico previsto para o sistema de saúde se o distanciamento for pouco eficaz e/ou não for sustentado por tempo suficiente.”

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