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O optimismo é uma das chaves da felicidade. Assim pensa Luís Rojas Marcos, psiquiatra espanhol radicado nos EUA, autor do livro ‘A Força do Optimismo’ (Esfera dos Livros). É professor na Universidade de Nova Iorque, onde concluiu também um doutoramento em Ciências Médicas. À conversa com o psiquiatra, em Lisboa, descobrimos que ser optimista é “uma questão de sobrevivência”: os optimistas fazem mais amor – por isso geram e criam filhos optimistas – e têm uma atitude pró-activa na busca do seu bem-estar. Nesta obra, Rojas Marcos dá algumas estratégias para fomentar esta atitude e ser mais feliz.

ARREGACE AS MANGAS E SEJA PRÓ-ACTIVA

Os optimistas fazem com que as coisas aconteçam, revertem as circunstâncias a seu favor. “Sabe porque é que os estudos clínicos provam que eles têm mais possibilidades de cura? Porque tomam os remédios e seguem à risca a medicação! Um pessimista acha que nada irá fazer efeito”, explica Luís Rojas Marcos.

O psiquiatra cita no seu livro um projecto dirigido por Martin Seligman em finais da década de 80 em que se dividiram os candidatos a vendedores de seguros de uma companhia em ‘optimistas’, ‘pessimistas’ e ‘comandos especiais’. Os últimos tinham chumbado nas provas de aptidão mas a sua confiança era tão grande que se recusavam a render-se perante um ‘não’ de um possível comprador. A verdade é que foram superiores aos ‘optimistas’ em 26% e aos ‘pessimistas’ em 57%. Conclusão? Quem toma a iniciativa sem medo do fracasso tem mais tendência para aceitar propostas, seja a nível de trabalho ou a nível pessoal. “As pessoas que esperam conseguir aquilo a que aspiram tendem a trabalhar mais tempo e mais intensamente”, acrescenta Rojas Marcos.

RIA PARA EXORCIZAR A TRISTEZA

Na rábula final de ‘A Vida de Brian’, o mítico filme dos Monty Python, uma multidão de crucificados canta alegremente a música ‘Always Look at the Bright Side of Life’ (‘Olha sempre para o Lado Feliz da Vida’). Nonsense do melhor mas que, afinal, não anda longe do ideal. Fazer humor em momentos de desconforto e rir até na adversidade são modos de exorcizar a tristeza, o sofrimento. Também há razões biológicas para procurarmos a boa disposição: o riso despoleta a produção de seratonina, que, para além de proporcionar bem-estar físico, baixa os níveis de cortisol, a hormona do stresse. Afinal, parece que o velho ditado português ‘Muito riso, pouco siso’ pouco tem de verdade.

RESPEITE-SE! ABAIXO O COMPLEXO DE CULPA

A culpa é um dos maiores mecanismos de controlo social, mas também um dos sentimentos que mais envenenam a felicidade. O psiquiatra chama-lhe a ‘tirania do deveria’: um conjunto de pensamentos negativos que minam a nossa autoconfiança. “Isto acontece quando a pessoa pensa que é absolutamente obrigada a ser, sentir ou comportar-se de maneira utópica, incompatível com a sua personalidade, com a situação ou simplesmente impossível de realizar para qualquer ser humano. Expectativas irracionais e inatingíveis costumam alimentar sentimentos de fracasso, de culpa, de desmoralização e até de ódio em relação a si mesmo.” É o que acontece a uma vítima de violência doméstica que acha que é sua a culpa do comportamento violento do parceiro/a ou a uma mãe que se acha incompetente porque o seu filho adoeceu.

TENHA OBJECTIVOS E EXPECTATIVAS POSITIVAS

Os optimistas são pessoas que esperam que as coisas lhes corram bem mas que também se predispõem a isso. Rojas Marcos relembra a tarde em que encontrou uma fila enorme de gente que esperava para fazer a sua aposta na Lotaria, resistindo a uma tempestade medonha. Quando perguntou a um casal por que o faziam e se sabiam que a hipótese de lhes sair qualquer coisa era mais remota do que a de um raio lhes cair em cima, os dois responderam que, em teoria, sim. “Mas isso não os preocupava, porque se sentiam mais perto da sorte grande do que da faísca.” O psiquiatra salienta ainda a importância de perseguirmos objectivos alcançáveis e não quimeras impossíveis. 

A esperança na felicidade futura é mais importante do que a sorte que se tem na vida presente, revela o escritor e filósofo espanhol José Marías. “Quando dizemos que somos felizes, o que sentimos é que iremos ser felizes amanhã. São estas expectativas que nos fazem saltar de manhã com vontade, porque sabemos que nesse dia iremos conseguir realizar um objectivo. Ajudam-nos a sentir seguros e confiantes no nosso ir e vir.”

CULTIVE A SUA ESPIRITUALIDADE

Quem pratica alguma forma de religião aumenta a sua saúde física e mental – sofre menos de ansiedade e hipertensão, provam  alguns estudos sobre esta matéria. Aprende-se a dar um sentido a um mundo que parece desprovido dele, a ver a vida como um todo, a dar importância ao que realmente é prioritário. A escritora inglesa Kate Armstrong diz no livro ‘Uma História de Deus’ que é muito mais importante que uma ideia sobre Deus funcione e cumpra o seu objectivo do que seja lógica ou racional. Rojas Marcos acrescenta que “muita gente constrói a sua própria espiritualidade, sem deuses nem anseios de eternidade.” Também já ficou provado o poder da oração na cura de doentes por quem a ciência nada mais pode fazer.

AME PERDIDAMENTE E DEIXE-SE AMAR

As pessoas que têm um parceiro, família ou grupo íntimo de amizades sentem um nível de satisfação muito maior do que os que vivem sozinhos, como revelam centenas de investigações. A paixão leva o cérebro a produzir substâncias, como a dopamina, que proporcionam sentimentos de euforia, felicidade e bem-estar. Os casais com sorte, diz Rojas Marcos, passam à fase seguinte, mas o que começa a faltar em turbilhão de emoções e hormonas é compensado por vínculos fortes de carinho, lealdade, interesses em comum e amizade. “As relações estáveis de carinho não só constituem uma fonte de satisfação na vida como são um antídoto muito eficaz contra os efeitos nocivos de todo o tipo de desgraças”, escreve Rojas. Um estudo da Universidade de Cornell, nos EUA, citado pelo autor, descreve como as pessoas optimistas se sentiam mais à vontade com afirmações como ‘Geralmente é-me fácil aproximar dos outros e sinto-me bem dependendo deles’ ou ‘Não me incomodo quando outras pessoas se aproximam de mim e dependem de mim’. Quanto mais pessimista é a pessoa, mais procura esquivar-se a relações íntimas.

PONHA AS COISAS EM PERSPECTIVA

As pessoas mais felizes são capazes de se lembrar primeiro das experiências mais felizes, dos êxitos e das relações que as enriqueceram e de as porem à frente das memórias negativas. Charles Thompson, psicólogo da Universidade do Kansas, pediu a pessoas que mantinham diários pessoais há mais de 15 anos para os consultar. Depois pediu-lhes que recordassem os acontecimentos mais importantes desse período. A maioria minimizava o impacto dos fracassos. É por isso que, perante uma adversidade, um optimista dirá quase sempre “podia ser pior” ou que essas lutas o prepararam melhor. Pelo contrário, um pessimista confrontado com um golpe de sorte desconfiará ao ponto de dizer que “não há almoços grátis”.

DÊ MAIS IMPORTÂNCIA AOS PEQUENOS PRAZERES

São os pequenos prazeres quotidianos que ajudam a melhorar o  estado de espírito. É o que revela um inquérito da revista ‘Time’ e um estudo recente do psicólogo e economista Daniel Kahneman.  Neste ‘campeonato’ estão as conversas com amigos e família, brincar com o animal de estimação, ouvir música, rezar ou meditar, tomar um banho relaxante, ajudar os outros, fazer exercício, comer, passear de carro e… fazer sexo. Para uma mãe de família, basta ter algum tempo só para ela, a assistir ao seu programa de televisão preferido. “Factos simples, como encontrarmos inesperadamente uma moeda no depósito de troco de um telefone público, ver uns minutos de um filme cómico, receber um ramo de rosas ou darmo-nos conta de que executámos bem uma tarefa, são suficientes para aumentar o nosso nível de optimismo”, diz o psiquiatra. Os momentos de alegria moderada beneficiam a memória, a resolução criativa de situações, a tomada de decisões, a aprendizagem, a motivação e os nossos relacionamentos. Aprender a apreciar as pequenas alegrias faz-nos perceber que, afinal, a vida pode ser uma experiência gratificante… e positiva.

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