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Ter um verão de jeito
Dantes, Verão era Verão. Ia-se à praia, comia-se gelados e protestava-se que não se conseguia dormir com o calor, isto ininterruptamente durante para aí três meses. Agora, há três dias de Verão em que se vai à praia e se come gelados e se protesta que não se consegue dormir com o calor. No dia seguinte – geralmente sábado – estão outra vez 12 graus. Tornamos a tirar as mantas e a ligar o aquecedor. E a calçar as galochas. Chove. É praticamente Natal. Acorda-se três dias depois e – toma lá que é para não te ficares a rir – estão outra vez 40 graus. O mais engraçado é que o Homem já foi à Lua, e ainda ninguém consegue prever o tempo para o dia seguinte.
Não engordar
Mas como vai conseguir perder peso, se a família gosta é de batatas fritas com qualquer coisa, de preferência qualquer coisa que nunca tenha visto o mar nem nunca tenha estado perto de qualquer coisa vagamente verde? Não engordar como, se as doses dos restaurantes foram pensadas para trabalhadores braçais da segunda parte do século XIX? Ficar magra como, se os nutricionistas aconselham a comer uma maçã a meio da manhã, mas uma maçã cala alguma fome? Magra como?!
Ter um corpo de atleta
Decide descobrir onde é que ficam os tríceps. Compra uns ténis último grito e apresenta-se fardadinha no ginásio. A instrutora está de camuflado como se fosse para o Iraque, o que não é bom sinal. Pergunta o que faz se a porta de casa estiver trancada. “Chamo os bombeiros”, responde você, mas a resposta certa é “arrombo-a!”, como grita o resto da turma em coro. Meia hora depois, já devem ter arrombado 40 portões blindados e mandado pròs anjinhos toda a corporação dos bombeiros de Paço d’Arcos. Você parece uma torneira humana. Pouco falta para malhar com as ossadas no tabuado. No dia seguinte, doem-lhe todos os músculos, inclusive músculos que não sabia que tinha. Continua a não saber qual deles é o tríceps, mas de certeza que também lhe dói.
Ter dinheiro
Claro que há vários graus de desespero e soluções para todos os gostos e necessidades: há quem arranje três empregos, quem invista na bolsa, quem aperte os cordões à dita, quem corte nos luxos, quem comece a achar que comer já é um luxo… Mas para quê falar mais nisso?
Ter tempo
No dia todo, 24 horas inteirinhas, parece que os únicos minutos verdadeiramente nossos são os que passamos a dormir. Infelizmente, esses não fazem a nossa felicidade. Já só vemos os amigos, a família e o cão no Facebook, isto se tivermos tempo para lá ir. No último filme que vimos, o Kevin Costner ainda era giro. Na última revista que lemos, o Brad Pitt ainda amava a Jennifer Aniston. No último livro que lemos, ainda conseguíamos não adormecer a meio da página (agora não aguentamos uma palavra com mais de duas sílabas). Na última vez que namorámos o Zé Manel, bem, inda estávamos casadas com ele. Na última vez que estivemos sem fazer nada, nada mesmo, a pensar na morte da bezerra, o Afonso Henriques inda devia ser rei de Portugal…
Não envelhecer
Dantes, e nas tribos longínquas da Papua-Nova Guiné, a velhice é que era valorizada. Mas ‘dantes’ tornou-se um país tão longínquo e tão exótico como a Papua-Nova Guiné. Até a palavra ‘velho’ se tornou um insulto. Agora é-se (os outros, claro) ‘idoso’. E ser ‘idoso’ é ser pobre e desvalido e com reumático. Não há ‘idosas’ giras e desempoeiradas com óculos Dior e malas Chanel. Não há hipótese: temos de parecer novas. Por este andar, toda a gente vai morrer aos 20.
Ter paciencia
Antes de ser mãe, ser mãe era ter um bebé rosadinho e, acima de tudo, caladinho. Nas revistas para pais, que são sem som, os bebés também eram rosadinhos e caladinhos. Outra particularidade, é que não se pode devolvê-los. A gente quer dormir mais cinco minutos, acabar o relatório, fazer o jantar, e eles estão lá: ‘ó mãe, dói-me um olho. A barriga. O cotovelo?’. Ninguém nos preparou para ser árbitra de cimeiras entre potências (‘ele roubou-me o carrinho!), ninguém nos disse que íamos odiar a Barbie e o seu castelo e mais o pequeno pónei e as suas escovas, ninguém nos avisou que íamos fazer a primária toda outra vez. Só resistimos porque, às vezes, eles também dormem.
Encontrar roupa única
Quer dizer, encontrar roupa até encontramos, o problema é o seguinte: se a podemos comprar, ficamos iguais a três milhões de outras caramelas. Se não podemos comprar, pronto, está o assunto resolvido. Às vezes vamos na rua e damos de caras com um (ou dois, ou 14) clone igual a nós, e dá-nos um sobressalto, recorda-nos que afinal não somos únicas como sempre pensámos, e isso angustia-nos ligeiramente, isso de ser preciso ter dinheiro para se ser diferente. Consolamo-nos a pensar que temos muita personalidade, mas há alturas em que trocaríamos alegremente para aí, digamos, 500g de personalidade por uma mala que mais ninguém tem.