YANN SCHREIBER/AFP

A ansiedade anda de mãos dadas comigo há vários anos. Desde criança, sempre tive tendência a preocupar-me com assuntos que nada me deviam preocupar – e pouco mudou com a idade. Sei que não estou sozinha. E é por isso que acho importante fazer esta reflexão.

Em março de 2020, a nossa equipa veio para casa. A palavra “teletrabalho” passou a fazer parte do nosso dia-a-dia, assim como as notícias diárias sobre um vírus desconhecido que estava a abalar o mundo. Número de infetados, número de internados, número de mortes. Todos os dias.

O problema da ansiedade, sobretudo quando prolongada, é a dificuldade em distinguir a realidade daquilo que a nossa mente nos diz que é a realidade. É o medo constante, a preocupação com a mínima ameaça. Estamos sempre prontos a “lutar”, sempre em alerta.

Pois bem, quando o inimigo é invisível, torna-se ainda mais complicado gerir a forma como nos sentimos e reagimos. Quando temos especialistas, nos vários meios de comunicação, a mostrar também desconhecer muito sobre essa ameaça. Quem saberá, então?

O problema da ansiedade é também a necessidade de controlar. Queremos ter controlo sobre os mais ínfimos detalhes da nossa vida, para que possamos respirar fundo. Afinal, só assim temos a certeza que estamos seguros. Mas não controlamos nada.

Imaginem, então, viver nesta dualidade, nesta necessidade constante de segurança, de controlar o que não controlamos, e sermos apanhados de surpresa por uma pandemia que veio alterar a forma como vivemos e nos relacionamos. E, quando esta parece acalmar, surge uma guerra. Só podemos estar a sonhar.

Quem diz sonhar, diz a ter um verdadeiro pesadelo. Mas o problema é que é real. E o que é que podemos fazer em relação a ele? Como é que o podemos travar? A sensação de impotência é real para a maioria. Imaginem para quem, já antes de tudo isto, vivia na base da preocupação e do medo do desconhecido.

Depois de dois anos de relações limitadas, de rotinas alteradas, de uma verdadeira mudança de 360 graus – e de todos os altos e baixos normais da vida, que continua -, quando achamos que vamos conseguir respirar fundo, pela primeira vez, não o podemos fazer.

Número de infetados, número de internados, número de mortes. Estas notícias não cessaram. Mas, agora, a esta útima estatística, juntam-se as vítimas de uma guerra na qual ainda custa acreditar. Que tremendo nó na garganta. Por todos os que sofrem direta e indiretamente, pelas famílias destruídas, pela incerteza que é o futuro.

Não podemos, nunca, minimizar os danos que tudo o que estamos a viver tem na saúde mental de milhares, milhões de pessoas. O impacto está a ser grande e de uma só vez. É impossível que não deixe sequelas. Pedir ajuda não é uma vergonha, é uma necessidade que não deve ser ignorada.

Felizmente, pela internet, temos várias fontes seguras às quais podemos recorrer na procura de dicas de gestão da ansiedade. Vários psicólogos têm disponibilizado informação para tentar ajudar todos os que se estão a ver num beco sem saída. Em seguida, deixo algumas.

Em conversa com o Washington Post, no início da pandemia, os psicólogos Shane G. Owens, Krystal Lewis, Charles Marmar e o terapeuta especialista em ansiedade, Ken Goodman, concordaram que as seguintes dicas podem ser úteis em momentos de stress como os que vivemos:

  1. Mantenha as suas rotinas o máximo que conseguir
  2. Privilegie as horas de sono necessárias
  3. Evite as bebidas alcoólicas e o café
  4. Faça exercício físico
  5. Escolha fontes seguras de informação (e limite o tempo que passa a assistir a notícias)
  6. Distraia-se – veja um filme, jogue um jogo, algo que lhe der prazer
  7. Peça ajuda

No instagram, o psicólogo Pedro Coutinho partilhou também, recentemente, algumas dicas para gerir a ansiedade face às notícias de guerra:

Em entrevista ao jornal Público, Tiago Pereira, psicólogo e membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses, reforçou a importância de irmos partilhando com outras pessoas a forma como nos sentimos e de selecionarmos as fontes de informação, bem como limitarmos o tempo exposto às mesmas.

Para terminar, deixo uma frase do psicólogo que, não eliminando a ansiedade, pode trazer-nos algum conforto: “É importante termos presente que, apesar de ser um acontecimento que não esperávamos e que é muito complexo, é um acontecimento temporário. As guerras também terminam”.

Estamos juntos.

Alguns contactos úteis (é garantido o anonimato):

SOS Voz Amiga
213 544 545 – 912 802 669 – 963 524 660 (das 15h30 às 00h30)

Conversa Amiga
808 237 327 – 210 027 159 (das 15h às 22h)

Telefone da Amizade
228 323 535 (das 16h às 23h)

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