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Calma, não vou falar novamente de liberdade. Quer dizer, até vou, de certa forma. Mas há certas coisas que me ‘encanitam’, como diria uma ex-colega de redação. No outro dia, preparava-me eu para defender os meus direitos e participar ativamente num protesto (não, não foi aquele em que reclamei acesso gratuito ao xarope de resveratrol), quando fui confrontada com algumas reações de pessoas que ficaram logo habilitadas a uma boa chapada à Batman – quem se lembra da moda dos memes com o super-herói a distribuir tabefes? Houve quem me dissesse que esse tipo de ‘cenas’ não eram a ‘sua onda’ ou que eu fosse lá fazer ‘isso’ se me fazia sentir melhor. Leia-se, “não frequento o Avante e indigno-me com a dignidade máxima de uma camisa às riscas e um pullover pelas costas.” Já estou a imaginar o Salgueiro Maia de sapatos de vela, a liderar a coluna…social de uma qualquer revista.

O estado a que chegámos! Lutar pelos nossos direitos não devia ser uma questão de esquerda ou de direita. Será que é o termo ‘lutar’ que incomoda? Suponho que ‘resistir’ também não seja opção. Batalhar também é demasiado classe operária, não é? Demasiado padeira de Aljubarrota… Ficamos por ‘debater’ – dito com o sotaque da tia Bli do Vasco Pereira Coutinho, ‘óvio’. Se ninguém fosse para a rua gritar – sussurrar, vá – ainda teríamos de pedir autorização aos nossos maridos para ir ao Mercadona comprar ananases (isso é tão 2024…)

O mesmo pudor que temos em ir para rua é o mesmo que temos para dizer certas palavras. Trabalhador, por exemplo. Dizemos vamos trabalhar mas não dizemos trabalhador. Porque somos colaboradores, algo que alegadamente fala para um contexto mais inclusivo e menos subjugante (chama-se ‘Marketing para Totós’). Mas quando pedimos a alguém para nos vir arranjar o estore a casa, é o homem das obras, ou só o homem, a não ser que seja um dos Property Brothers, demolidores de paredes que vestem calças caqui. Ouçam com atenção: colaborador, trabalhador ou operário, de sapatos de vela ou de botas, todos vamos bater com os costados na mesma fila da Segurança Social. (Quê, não há speedy boarding?)

Não vamos para a rua para torcer pelos nossos direitos, mas enchemos estádios a esgoelarmo-nos descabeladas pelo Pote – Pedro Gonçalves, para os sportinguistas puros. E não precisamos de megafone para, no trânsito, mandarmos os colegas de estrada para um certo sítio. Juro pelo meu querido Coco Manuel que nunca ouvi ninguém dizer “vai para o abono de família”, até porque nem sabemos o que isso é, certo?

Tentei começar abril de forma menos cínica. Mas agora que tenho a vossa atenção (ou não) o que vos queria dizer é: em 2025 lutem pelos vossos direitos, pelos vossos sonhos. E quando dominarem a arte, lutem também pelos direitos e sonhos dos outros. Vamos todos parar à mesma fila da Segurança Social, é verdade, mas pelo menos nós falamos a língua.

E depois do amor. E depois de nós.
O dizer adeus. O ficarmos sós.

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