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A dermatite atópica (DA) é a doença inflamatória crónica mais comum da infância, muito pruriginosa e que se caracteriza por fases de agravamento e de remissão. Uma denominação que provém do facto de algumas das doenças associadas serem do foro atópico como, por exemplo, a asma e a rinite, mas a sua abrangência é muito mais vasta.

A pele encontra-se permanentemente seca, a descamar e, durante as crises, devido à inflamação, fica vermelha. Às vezes, surgem pequenas bolhas que emitem um líquido. A localização desta inflamação varia com a idade, mas nos casos mais graves pode envolver quase toda a superfície da pele. Como a comichão é intensa, confunde-se com alergias da pele, mas, na verdade, não é uma alergia, embora possa ser um fator de risco para a alergia de contacto. No fundo, a comichão é uma espécie de dor, uma vez que os nervos que conduzem esta sensação são os mesmos que transmitem a sensação da dor.

Estima-se que a DA poderá prevalecer, respetivamente, em até 25% das crianças e 8% dos adultos, tendo-se observado um aumento do número de casos nos últimos anos, incluindo no idoso e, sobretudo, nos países mais desenvolvidos. Só na Europa, cerca de 3 milhões de pessoas sofrem desta doença.

A fisiopatologia da DA é complexa, resultando da interação de fatores genéticos (genoma), ambientais (exosoma), alterações da barreira cutânea e dos microrganismos que colonizam a pele (microbioma cutâneo) e da desregulação imunológica. Nos últimos anos, têm-se observado importantes avanços na sua compreensão, nomeadamente nos fatores subjacentes à debilidade da barreira cutânea, que torna a pele mais seca e vulnerável a várias agressões e no importante capítulo da desregulação imunológica.

Esta última, resulta de alterações a vários níveis, podendo existir até diferenças nas várias populações humanas, mas há uma que se destaca em todas as situações: a denominada resposta Th2. A ativação deste braço do nosso sistema imunológico resulta da participação de vários fatores, em que avulta o papel do eixo IL-4/13. Para além de induzir a inflamação, ativa recetores que existem nos nervos que conduzem a sensação da comichão, contribuindo assim para o terrível ciclo inflamação-comichão.

É certo que a maioria dos casos de DA são considerados ligeiros a moderados, mas há um grupo significativo de doentes, estimado em 10-15%, que sofre de formas moderadas a graves. Para além de crises mais frequentes e extensas, podendo envolver quase toda a pele, estas formas de DA distinguem-se das ligeiras pela presença de inflamação sistémica. Isto é,  não se limita apenas às áreas de pele afetadas, podendo ser demonstrada no próprio sangue.

É possível que esta inflamação sistémica contribua para as doenças associadas não atópicas, tais como as neuropsiquiátricas e, de forma mais controversa, as cardiovasculares. De facto, as alterações neuropsiquiátricas contribuem muito para a deterioração da qualidade de vida dos doentes. A ansiedade, depressão e risco de suicídio são mais frequentes nos doentes com DA. O impacto na imagem e autoestima é altamente estigmatizante, podendo levar ao isolamento social, à discriminação e a um maior risco de vitimização por bullying.

As importantes perturbações do sono têm impacto deletério na vida diária dos doentes e os seus cuidadores. Outras doenças associadas que podem ser graves são as infeções da pele, em parte resultantes da debilidade da barreira e das alterações do microbioma da pele; as doenças oculares, como a blefaroconjuntivite; e as alergias de contacto (“verdadeira” alergia da pele), que podem interferir com a vida profissional do doente, sobretudo quando envolvem as mãos.

Mercê, em grande medida, dos avanços na compreensão patofisiológica da DA, têm surgido novas classes de medicamentos que enriqueceram o armamentário já existente e há outros em desenvolvimento e estudo. Como a DA moderada a grave manifesta importante inflamação sistémica, o seu controlo para ser eficaz requer, precisamente, tratamento sistémico, isto é, com medicamentos administrados por via oral ou por injeções.

Até recentemente dispúnhamos dos denominados imunossupressores convencionais, os quais colocam alguns problemas de segurança a longo prazo, para além de muitos deles não disporem de licenciamento para uso em idade pediátrica. Mais recentemente, temos ao nosso dispor medicamentos que são mais específicos no seu mecanismo de ação, atuando, nomeadamente, no bloqueio do eixo IL4/13, tendo-se revelado eficazes e seguros, incluindo em crianças, nas quais, atualmente, só um deles se encontra licenciado nesta faixa etária.

Outros medicamentos de uso sistémico atuam na denominada via JAK-STAT, combatendo a inflamação, mas atualmente só estão licenciados no adulto. Estas diferentes classes de medicamentos têm um perfil de segurança e de monitorização analítica diferentes, pelo que a sua escolha é sempre individualizada e conforme as caraterísticas do doente e da doença. O tratamento sistémico não dispensa os cuidados gerais e o tratamento tópico, na pele, dos doentes com formas moderadas a graves de DA e, em alguns casos, há, até, reforço ou sinergismo do efeito terapêutico.

Por se tratar de uma doença crónica, com forte impacto na qualidade de vida dos doentes e dos seus cuidadores, como já referido, os doentes, à semelhança de outras doenças crónicas da pele, como a psoríase, têm procurado associar-se no sentido de, nomeadamente, sensibilizarem a população geral sobre as questões pertinentes, relativas ao sofrimento do doente com DA. Assim, com o apoio da ADERMAP, no âmbito do Dia Mundial da Dermatite Atópica, 14 de setembro, é lançada uma campanha de sensibilização que se denomina “Dá Garra à Tua Vida”. Que sejam bem-sucedidos nesse desiderato, a bem de todos os doentes, em particular os mais graves.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a ACTIVA nem espelham o seu posicionamento editorial.

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