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O que é a dislexia

A dislexia é perturbação neurodesenvolvimental e manifesta-se na dificuldade de aprendizagem da leitura, usualmente em pessoas com inteligência normal ou acima da média.

Esta dificuldade crónica não está relacionada com a qualidade do ensino, o nível intelectual, as oportunidades socioculturais ou as alterações sensoriais. Tem uma base neurobiológica, com alterações na estrutura e funcionamento neurológico, e pode derivar de influência genética.

Embora esteja relacionada com a aprendizagem da leitura, a dislexia pode ter consequências noutras áreas académicas e a nível emocional e comportamental. É frequente a comorbidade com outras perturbações: perturbação específica da linguagem, discalculia, disortografia, descoordenação motora, défice de atenção, com ou sem hiperatividade, alterações do comportamento, perturbação do humor, perturbação de oposição e desvalorização da autoestima.

Em termos científicos, está definida a prevalência de 10% da população escolar. Portanto são milhares de alunos abrangidos pelo Sistema Educativo.

Diagnóstico

Perante os sinais de alerta persistentes, os docentes devem sinalizar a criança para ser efetuada a Avaliação-diagnóstico. É feita pela aplicação de provas psicopedagógicas que avaliam se o nível de desempenho em áreas de desenvolvimento consideradas “alicerce” para as aprendizagens simbólicas, se encontra no nível adequado para a faixa etária. Concretamente é avaliado o nível de linguagem, a consciência fonológica, as perceções auditiva, visual e táctil, a orientação no espaço e no tempo, a coordenação óculo-manual, a memória e atenção. Deve ser efetuada, em todas as escolas, por uma equipa multidisciplinar constituída pelo psicólogo, por docente especializado em educação especial, por terapeuta.

Intervenção especializada

Quem sofre de dislexia apresenta um esforço acrescido para distinguir letras, formar palavras e compreender o seu significado. Tais alunos não são necessariamente preguiçosos, pouco inteligentes, imaturos, nem sofrem de problemas visuais, auditivos ou de postura.

Requerem um tratamento terapêutico intensivo e apoio no processo de ensino-aprendizagem, para que consigam ter sucesso, porque são as competências que constituem pré-requisito das aprendizagens simbólicas que se encontram diminuídas, sendo imprescindível analisá-las precocemente e treiná-las, para se alcançar a eficiência necessária, favorecendo a aprendizagem escolar. O Decreto-Lei n.º 54/2018 prevê a Educação Inclusiva, para todos. Estes alunos situam-se na “zona cinzenta”, isto é, sofrendo embora de uma disfunção neurológica, por não apresentarem problemas do foro intelectual, motor, visual, auditivo (antes referidas como deficiências), não são atendidos na maioria das escolas com o cuidado necessário.

Em geral, quando são diagnosticados, são previstas medidas “universais”, isto é, são rodeados de cuidados em sala de aula: não são penalizados pelos erros na escrita, dispõem de mais tempo para as tarefas e avaliações, são mais reforçados e apoiados nas suas dificuldades, evita-se a exposição, por vezes são feitas ligeiras adaptações curriculares, etc. Este formato de intervenção atende aos aspetos relacionados com o contexto, mas fica alheado das “causas”. Isto é, não se cuida de desenvolver, por treino, as áreas que constituem “alicerce” das aprendizagens em geral. Os anos vão passando, as dificuldades mantêm-se, a criança não progride de forma adequada, só não tem insucesso completo se a família os puder apoiar. Só em poucas escolas existe apoio psicopedagógico, dado por especialistas. Na maioria das escolas há apoios socioeducativos dados por docentes sem especialização. Em muitas outras escolas, estes alunos, continuam sem ser “percebidos/sinalizados”, chegando mesmo ao secundário e universidade sem qualquer diferenciação (eles mesmos, já jovens, são exímios em inventar estratégias engenhosas para “esconder” o seu problema).

Sinais a que pais e professores devem estar atentos

Em linguagem – tem dificuldade em compreender o que lhe é dito / em compreender histórias e recontá-las / tem fraca iniciativa em linguagem e a resposta ao diálogo é pobre / fala pouco, usando frases curtas / tem pouco vocabulário / não articula corretamente todos os sons da fala / ao falar faz inversões, omissões, adições de sílabas.

Na psicomotricidade – revela atraso na interiorização do esquema corporal / usa ora a mão ou o pé esquerdo ora a mão ou o pé direito / não reconhece com segurança direita e esquerda, em si, no outro e nos espaços reais ou gráficos / altera a orientação espacial dos grafismos quando os desenha / desenha letras invertidas e números em espelho / confunde noções de tempo simples / não ordena situações vivenciadas / não ordena cenas representadas em imagens.

Na coordenação motora – não carrega no lápis ou caneta com a força adequada / o desenho das letras ou números segue direção errada / os traçados das letras são desarmónicos, angulosos, de tamanhos impróprios / as ligações entre as letras manuscritas são irregulares.

Na perceção e memória (auditiva e visual) – não discrimina (ou confunde) sons próximos / não consegue memorizar (ouvir e repetir) séries de 4-5 palavras ouvidas em sequência / não executa ordens ouvidas com 2-3 orientações / não reconhece diferenças em desenhos / confunde as cores / não reconhece tonalidades / não memoriza e não reproduz 4-5 símbolos gráficos, simples, previamente visualizados.

Implicações da dislexia nas aprendizagens

Segundo o DSM V (2014) a Perturbação de Aprendizagem Especifica (PAE) pode manifestar-se: i) em défice em Leitura (dislexia), com dificuldades significativas na descodificação e compreensão de textos; ii) em défice em escrita (disortografia), com dificuldades na codificação de palavras e na expressão escrita; em défice em matemática (discalculia), com dificuldades na linguagem quantitativa: na compreensão de enunciados, na leitura e escrita de números, na tabuada e técnica operatória, no cálculo mental e raciocínio matemático.

Pelos direitos das crianças e jovens com dislexia

A DISLEX, Associação Portuguesa de Dislexia, tem como objetivo lutar pelos direitos das crianças e jovens com dislexia, enquanto alunos/estudantes. Dedica-se à sensibilização pública, à formação de professores e de pais, à investigação neste domínio, à publicação de recursos para intervenção. Orienta as famílias para respostas especializadas situadas em diversos pontos do país.

A DISLEX apresentou recentemente ao Governo um conjunto de medidas para o envolvimento psicopedagógico dos alunos com dislexia.

A – Na organização, estrutura e funcionamento:

Em cada Agrupamento, na EMAEI, criação da Equipa de Apoio à Dislexia / EAD a ser constituída por psicólogo, terapeuta(s), professor(es) especializado(s) em EE. De forma multidisciplinar, em complementaridade, assumirá toda a ação nas Escolas, quanto à questão da Dislexia:

  1. procedimentos para que todos os docentes atendam aos Indicadores de Dificuldades e sinalizem os alunos em tempo útil, a definir;
  2. aplicação, de forma articulada entre os elementos da EAD, de Provas de Avaliação Compreensiva/diagnóstica, descritas em Checklist, aos alunos sinalizados, seguida de Relatório com o Perfil desenvolvimental e de realização do aluno* e previsão de Medidas de Intervenção Diferenciada;
  3. planeamento e implementação das Medidas previstas a ser desenvolvidas por terapeutas e professores de apoio socioeducativo com a coordenação de professores especializados em EE;
  4. estudo do impacto e avaliação dos resultados.

B – Quanto a Formação de docentes especializados em EE:

Na Formação Contínua, ser definido e disponibilizado pelo ME um Curso de Formação com 25 horas, creditado, dirigido a professores especializados em EE que integrem a EAD – a ser localmente promovido pelos Centros de Formação – para habilitação para a Avaliação Compreensiva/diagnóstica dos alunos sinalizados e Planeamento da Intervenção Diferenciada.

C – Quanto a Formação de docentes de apoio socioeducativo:

Na Formação Contínua, ser definido e disponibilizado um Curso de Formação para docentes do regular, em funções de apoio, com 25 horas, para habilitação para a Intervenção Específica com alunos com Dislexia, em Pequeno Grupo, a ser constituído com base na tipologia das dificuldades evidenciadas, no formato de atelier/clube/oficina.

D – Quanto a Formação de docentes em geral:

Ao nível do Agrupamento, Ações de curta duração, com 3 horas, para sensibilização e formação dos educadores de infância e dos docentes do ensino básico (e secundário) sobre aspetos introdutórios de natureza concetual e prática, no âmbito da Dislexia, nomeadamente conhecimento da Checklist de Indicadores de Dificuldades, segundo o ano escolar, e da importância da sinalização atempada de casos, para a EAD.

E – Quanto a Definição de Política educativa:

  1. Obrigatoriedade da educação Pré-escolar, no referente à idade dos 5 anos;
  2. Prevenção consistente, nessa etapa, das dificuldades ao nível dos pré-requisitos das aprendizagens simbólicas (linguagem, conhecimento fonológico, noções de espaço e tempo, perceção e memória auditiva e visual, motricidade e coordenação viso motora), com recurso a prova de avaliação da existência destas competências, antes da iniciação escolar;
  3. Revisão do rácio para colocação de docentes de Educação Especial, passando a ser considerado o seu papel na EAD; inclusive, atendendo à previsão horária para a articulação entre elementos da EAD com funções de coordenação e orientação de outros docentes, nomeadamente os de apoio socioeducativo, no tocante à intervenção específica com alunos com Dislexia, e com os docentes em geral, para formação e apoio quanto a adequações no processo de ensino-aprendizagem, em sala de aula, e nos processos de avaliação;
  4. A possibilidade de itinerância, no Agrupamento, dos elementos da EAD, possibilita a garantia de eficácia e qualidade de respostas;
  5. Alterar, na prática, concretamente na Dislexia, o erro da omissão de diagnóstico. Neste caso, importa efetivamente saber a causa das dificuldades dos alunos, para uma intervenção eficaz e para alocação de recursos humanos. (A política educativa que, progressivamente, se tem focado num modelo social que parece caminhar para um distanciamento do fator aluno e da causa das suas dificuldades, olhando quase exclusivamente para os contextos, é prejudicial*, porque tal entendimento leva a que as escolas não considerem como prioritária a intervenção especializada na Dislexia, nomeadamente, com professores especializados em educação especial e com terapeutas).

Helena Serra Fernandes é investigadora na área da educação especial e professora coordenadora jubilada da Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti. É doutorada em Estudos da Criança/Educação Especial pela Universidade do Minho. É ainda Presidente da Assembleia Geral da DISLEX.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a ACTIVA nem espelham o seu posicionamento editorial.

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