Novas drogas - sabe o que o seu filho anda a tomar?

‘Tomei a minha primeira pastilha de MDMA aos dezassete anos, numa rave. Queria experimentar, sabia o que estava a fazer, que aquela substância nos deixava cheios de energia. Desde então, consumo com alguma regularidade quando saio à noite.’ O testemunho é de Paulo, que conta agora 21 anos e é aluno universitário. Os pais nunca desconfiaram de nada. ‘Como é que podiam se não sou nenhum drogado ou delinquente e se sempre fui bom aluno? Há pais de família que bebem todos os dias e acabam a noite bêbados, mas aos olhos da sociedade não estão a fazer nada de mal. Eu tomo uma pastilha de vez em quando e se conto aos meus pais é o fim do mundo!’

Festas, drogas e muita música
Depois de duas décadas em que a heroína deixou marcas, com o seu trilho de overdoses, sida e delinquência, os pais têm a droga como a maior das suas preocupações. E se é incontestável que o consumo de heroína decresceu, não é menos correcto afirmar que novas substâncias tomam o seu lugar. ‘Os males causados pela heroína ajudaram as novas gerações a evitá-la à heroína estão associadas ideias de dependência e degradação, sendo o estereótipo do consumidor o junkie que arruma carros ou que rouba. Esta já não é uma imagem que agrade à generalidade dos jovens’, lembra Filipa Soares, do Check-In Grupo para a Gestão de Prazeres e Riscos em Contextos Festivos.
Neste contexto, as substâncias com efeitos estimulantes e psicadélicos tornaram-se mais apelativas para os adolescentes do que outras, com efeitos depressores. O consumo passou a obedecer a um padrão recreativo: ‘ocorre em grupo, em contextos festivos e associados a espaços de música e dança e é geralmente integrado numa vida social normalizada (escola, família.)’, explica Filipa Soares. Quando se fala deste tipo de substâncias é preciso ter em conta o baixo custo (cerca de dez euros a dose) e o facto de serem de fácil acesso: há sempre alguém que conhece um ‘amigo’ que vende, pelo que se cria uma rede informal de acesso. As drogas mais comuns a este nível são as anfetaminas, o LSD e o ecstasy.

As anfetaminas (cápsulas e comprimidos) têm um efeito que dura entre seis e doze horas. Dão uma sensação de euforia sob a forma de excitação nervosa, insónia, aumento da confiança e de concentração, falta de apetite e hiperactividade. Em termos físicos, causam transpiração, taquicardia e tiques exagerados. Em caso de sobredosagem, podem ocorrer náuseas, alucinações, insuficiência respiratória, convulsões ou mesmo a morte.

O ecstasy ou MDMA (comprimidos e cápsulas) actua cerca de doze horas. Pode aparecer com vários nomes, sendo sempre a mesma substância, o mais recente é o raw. Leva ao aumento da capacidade de comunicação, despreocupação, autoconfiança e euforia. As pupilas dilatam, há taquicardia, diminuição do apetite e transpiração. Caso não se ingiram líquidos durante o seu consumo, o ecstasy pode ser fatal, ao provocar desidratação severa.

O LSD (cápsulas, comprimidos, tiras de gelatina e ‘selos’ embebidos do produto que derretem na boca) provoca sintomas que se prolongam durante cerca de oito horas. Entre os efeitos contam-se a agudeza sensorial (as cores ficam mais brilhantes, por exemplo), alteração das noções de espaço e tempo, alucinações e sentimentos místicos, de profunda união com os outros. Não representa perigos de toxicidade já que a dose activa situa-se em apenas 50 microgramas e não é tecnicamente possível morrer com uma overdose de LSD.
A nível psicológico, pode proporcionar experiências intensas ao ponto de serem perigosas para a estrutura psicológica do sujeito aquilo a que se chama uma ‘má viagem’, que dá azo a estados de pânico, vertigens e descontrolo emocional.
Há ainda a possibilidade, como alerta Fernanda Feijão, do Instituto da Droga e da Toxicodependência, desta substância ‘trazer ao de cima problemas psiquiátricos latentes: alguém com tendência para a esquizofrenia pode ver essa doença desencadeada pelo consumo desse tipo de substância’. O que pode fazer Não há fórmulas mágicas, mas alguns conselhos que podem ajudá-la a lidar melhor com esta questão.

Esteja bem informada sobre o assunto
Estar bem informada sobre estas substâncias, quais são os seus efeitos e riscos é fundamental. Só uma informação objectiva e livre de moralismos pode levar a um diálogo construtivo com o seu filho. Muito importante: ‘As substâncias psicoactivas não são entidades maléficas em si mesmas é na relação que o adolescente estabelece com a substância que nos devemos centrar’, lembra Filipa Soares. Ou seja: não pense que porque o seu filho consome este tipo de substâncias tem necessariamente problemas de adição, nem pense nele como um ‘drogado’.
Neste caso, aplicam-se os mesmos princípios que no caso, por exemplo, do consumo de álcool. É importante perceber que uma coisa é o uso de uma substância, outra, bem diferente, é o abuso da mesma. ‘A experimentação de substâncias é vulgar na adolescência, não constituindo forçosamente um sinal de perigo. O abuso regular e repetido é já mais grave e precisa de apoio.’

Crie laços de confiança
Importa estabelecer com o adolescente uma comunicação positiva: não interessa saber se ele anda a consumir se não houver à-vontade para falar sobre isso. Se o seu filho sabe que pode não ser aceite e até vir a ser punido, não quererá admitir um possível consumo.
Assim o prova o testemunho de Márcia,* 51 anos. ‘O meu filho começou a sair à noite aos dezasseis anos.’ Preocupava-a, como a qualquer outra mãe, que ele experimentasse esse tipo de substâncias: ‘era uma conclusão óbvia se os jovens as tomam, porque é que o meu filho seria diferente’? Começou a informar-se sobre os efeitos do LSD e do ecstasy para estar preparada. ‘Um dia, a questão das drogas surgiu em conversa durante o jantar e eu perguntei-lhe, sem dramas, se já tinha experimentado ‘pastilhas’. Admitiu que sim. Eu e o meu marido ficámos preocupados, mas optámos por não o castigar, antes escutar os seus motivos, sem o julgar.’

Nunca deve mentir
O discurso convencional dizer aos adolescentes que ‘a droga é má’ não produz resultados consistentes, porque não é cem por cento verdade. ‘O consumo de substâncias psicoactivas tem consequências, umas positivas, que estão associadas à dimensão do prazer, outras negativas, associadas ao dano se negarmos que existe a dimensão do prazer, qualquer alerta cai por terra. Um jovem cujos pais sempre o alertaram para o perigo da droga, dizendo que causa dependência e que acaba no consumo de heroína, quando vê, por exemplo, que os amigos fumam ‘charros’ e que continuam a sua vida sem problemas, não irá recorrer aos pais para o esclarecerem porque já viu que eles não percebem nada’, explica Filipa Soares. Resultado? O silêncio. Outro dos riscos de uma posição parcial é ter o efeito contrário: a sensação de ser algo de proibido aumenta a atracção.

Ajude o seu filho a não consumir
Nenhum pai pode ter a ilusão de estar presente em cada momento de tomada de decisão de um filho. ‘Ainda que a abstinência seja o comportamento que os pais mais desejam, a maioria dos adolescentes vai contactar com estas substâncias, muitos vão experimentá-las e alguns vão consumi-las.’ Isto não quer dizer que sejam maus ou que os pais sejam negligentes. ‘O que importa é tomar decisões informadas e não deixar que um consumo ocasional se torne num padrão problemático.’ Compete-lhe proporcionar ao seu filho a sensatez para, caso decida consumir, que se relacione com as drogas da forma mais segura: ‘Os pais devem transmitir informações como a importância de beber água quando se toma anfetaminas ou ecstasy, ou que uma coisa é fumar um ‘charro’ numa festa, outra bem diferente é fumar a toda a hora.’

Não vale a pena proibir
‘A proibição do consumo de substâncias psicoacti-vas está destinada ao fracasso. Tratar os jovens como crianças, além do risco que comporta ao tornar atractivas as drogas por serem perigosas, pode anular as capacidades críticas e de reflexão madura do indivíduo’, frisa Filipa Soares. A responsabi-lidade dos pais passa por dialogar com os filhos e dar–lhes os recursos necessários quando necessitam de ajuda. Em caso de dúvidas, pode recorrer ao Check-In, um grupo co-financiado pela Agência Piaget para o Desenvolvimento e pela Coordenação Nacional da Infecção VIH/sida, que disponibiliza informações e apoio no sítio http://check-in.apdes.net, bem co-mo ao Instituto das Drogas e da Toxicodependência, através do sítio www.drogas.pt ou da linha de apoio 1414.

Há risco de adição?
No caso das anfetaminas, há grande potencial aditivo em termos físicos e psicológicos, marcado por letargia, fadiga, insónia e depressão, que desaparecem poucos dias após cessar o consumo.
O LSD e o ecstasy (na foto) não provocam dependência física. Mas é preciso ter em conta que há possibilidade da dependência psicológica. Esta depende da personalidade individual, que atenua ou aumenta o potencial aditivo. Como explica Filipa Soares, ‘perante uma mesma substância podemos assistir ao consumo de baixo risco (um copo de vinho ocasional), até ao consumo de alto risco (bagaço ao pequeno–almoço, cerveja a meio da manhã, vinho ao almoço e por aí fora)’.

Não se precipite
É importante estar atenta às alterações de comportamento do seu filho. Por exemplo, estar ‘ressacado’ depois de uma saída à noite ou andar mais irritado sem explicação aparente. Porém, de nada serve andar ansiosa à procura de sinais ou ser demasiado rápida a tirar conclusões. ‘Essa busca pode criar equívocos, dado que certos sinais, aparentemente relacionados com consumos, serem resultado de outros factores, como a própria idade. Por outro lado, muitas vezes os consumos não produzem mudanças visíveis’, diz Filipa Soares.

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