Famílias em férias: qual é a sua?

A Tradicional

– Onde vão: Todos os anos para o mesmo sítio, que foi aliás onde se conheceram quando tinham 2 meses. Já têm barraca de praia cativa há pelo menos quatro gerações, e conhecem cada banhista do areal, desde a senhora que vende os queques de laranja ao recém-chegado que assentou arraiais por trás do jornal e que já descobriram que é primo afastado da sogra do Sr. João do minimercado.

– Como passam o dia: De manhã vão à praça, porque geralmente vão para sítios onde há muito nevoeiro matinal e não adianta ir para a praia muito cedo, mas não são gente que se deixe ficar na cama, porque na cama só as almas fracas. Escolhem-se os melhores bifes ou sardinhas para o churrasco do almoço e vai-se à praia por volta das 11. Fica-se lá mesmo que esteja um frio de rachar, porque é o que se faz nas férias. Se está calor, fica-se ao pé da barraca a fazer tricô e a dizer que bom tempo que está. Se está frio, fica-se ao pé da barraca em casacos de malha a fazer tricô e a dizer que está mesmo desagradável. Se está a chover, fica-se dentro da barraca a fazer tricô e a dizer que a chuva agora é que não vinha mesmo nada a calhar, e só se vem para casa se a água começar a cair em cascata através da tela, e mesmo assim é com um sentimento de derrota. À tarde dorme-se a sesta ou vai-se apanhar amoras. Os miúdos mais velhos fazem surf numas prancahs pintads às flores. São umas férias fantásticas para todos menos para as mães, que se fartam de cozinhar, lavar, limpar e fazer tartes de amoras para aquela gente toda.

– De que falam: Do filho da D. Odete que era tão namoradeiro e deu em seminarista, do bebé da tenda ao lado como está crescido, da Mimi que acabou o namoro com o Paulo Jorge que parecia tão bom rapaz e afinal era um sacana. E do tempo.



A Desenrascada

– Onde vão: Se não há dinheiro para ir à Cuba do Fidel vão à Cuba do Alentejo. Se não dinheiro para ir à Cuba do Alentejo, vão de camioneta à praia mais próxima, com o guarda-sol às costas e a lancheira na mão.

– Como passam o dia: Chegam de madrugada porque o patriarca acha que os melhores ares são os das 8 da manhã. Espalham óleo no corpo sem perceberem que aquilo não tem um grama de protecção e que vão fritar que nem batatas fritas, que de qualquer maneira é o efeito pretendido. A meio da tarde os miúdos já estão podres de sono, o bebé grita, o do meio embirra que quer ir apanhar caranguejos invisíveis às rochas e o mais velho começou a catrapiscar a pequena três toalhas à esquerda e nunca mais ninguém o vê. São os últimos a ir embora, porque lhes dá prazer olhar para trás e ver a praia deserta, como se fechassem a porta.

– De que falam: A areia é um assunto inesgotável. "Ai este vento que horror, vou ficar cheia de areia", "Eu ia lá abaixo mas depois fico cheia de areia," "O chato de trazer comida para a praia é que fica tudo cheio de areia", "Tiago Miguel se não páras de encher a toalha de areia vamos imediamente para casa."



A Viajada

– Onde vão: Tudo o que fique para cá da Tanzânia, é subúrbio. Ir para fora cá dentro a eles não lhes chega, ir para fora é verdadeiramente para fora. Ir a Espanha é o mesmo que ir a Elvas, Paris fica ao virar da esquina e Londres só para os saldos e mesmo assim ir a Londres é o mesmo que ir ao Colombo. A partir de Helsínquia já se respira um bocado mais à larga, mas mesmo assim, viagem que se preze tem que ter pelo menos um oceano pelo meio. Fazem muita gala de ir pelos seus próprios meios e passam a vida dizer que odeiam andar acarneirados em excursões, e depois gastam imenso tempo, neurónios e stresse a tentarem pelos seus próprios meios ver aquilo que qualquer excursão lhes teria mostrado. Gostam de ir ‘à aventura’ mas o resultado da aventura é que geralmente quando chegam os hotéis já estão todos cheios ou então o carro vai-se abaixo em plenos Pirinéus.

– Como passam o dia. A subir castelos, escalar monumentos, descobrir adoráveis restaurantezinhos que mais ninguém conhece e onde são roubados à grande, verificar o estado da máquina fotográfica e planear o dia seguinte e pensar se será desta que encontram finalmente uma t-shirt a dizer: ‘Eu Estive no Fim do Mundo’.

– De que falam: Sobre o que viram mas principalmente sobre o que afinal não conseguiram ver, coisa que os transtorna consideravelmente. Ou então queixam-se dos calos.



A Beta

– Onde vão: A qualquer sítio que não exija esforço. Programa que inclua muita passeata, muito subir e descer de autocarro, muito safari ou aldeia histórica ou monumento, não é com eles: vão para ficar no mesmo sítio. Vão sempre para o sol para se bronzearem, mas tem de ser uma praia civilizada, quer dizer, que além de praia também tenha piscina, que é onde passam de facto a maior parte do tempo porque também tem sol e não tem areia, que é enojativa e arruina o verniz.

– Como passam o dia: Levantam-se tarde e abancam ao pé das piscinas em forma de 8 com uns nativos vestidos de nativos a servirem daiquiris verdes com um chapéuzinho cor de rosa. À noite mandam sempre alguém reservar os lugares da primeira fila do sítio onde vai haver espectáculo de danças e cantares típicos, ou concurso de máscaras, ou um ‘mix’ de canções do Frank Sinatra entoadas por nativos competentes e estafados, e depois, se puderem, acabam a noite a dançar que nem doidas na discoteca, porque é preciso queimar as calorias dos daiquiris. No último dia vão à aldeia ou à vila comprar recordações típicas.

– De que falam: Das pessoas que entram ou vão entrar no programa da Diana Chaves, do melhor sítio para fazer mesoterapia, das tias desconhecidas da segunda página da ‘Caras’ e da Letízia Ortiz que agora vai ficar gorda, bem feita. Não há miúdos a chatear porque estão numa colónia de férias ou num colégio inglês ou nos ATLs do hotel.



A Doméstica

– Onde vão: A lado nenhum. Gastaram o subsídio (quando têm subsídio…) a pagar contas atrasadas ou a dar entrada para um carro novo, ou então lembraram-se demasiado tarde que havia uma coisa chamada férias, e quando chegam ao primeiro dia vêem-se a acordar em casa e sem sítio para onde ir…

– Como passam o dia: As mães ficam a fazer tudo para o que não se teve tempo noutras alturas: penduram cortinados, vão às finanças, aproveitam os primeiros saldos. Os homens vão ao café. As crianças ficam a jogar consola ou a tentar encontrar algum amigo igualmente perdido no ‘Messenger’ ou a dar pontapés na bola na rua vazia ou a ver ‘A Praça da Alegria’ e as repetição de todas as telenovelas da Globo com a Isabela Garcia com 9 anos . Geralmente também há sempre alguém que se casa, e por um qualquer círculo de destruição arruína logo os três dias antes e os três dias depois. A meio da semana tentam ir à praia mas percebem logo que há filas como noutro dia qualquer, porque o destino de férias mais popular continua ser mesmo não sair de casa.

– De que falam: De tudo menos da palavra ‘férias’, que é tabu. São os únicos para quem voltar ao trabalho é um alívio.



A Comunitária

– Onde vão: Resolveram alugar uma casa juntamente com outros amigos, e embora pareça muito boa ideia do ponto de vista financeiro, geralmente dá confusão.

– Como passam o dia: A confusão começa logo de manhã. Há sempre quem se levante duas horas mais cedo e ligue o rádio na estação que só dá ‘remixes’ dos ‘Ena Pá 2000’, depois quem combinou ir à praia com outros fica sempre à espera porque o amigo que guia a carrinha demora três horas na casa de banho, depois o filho mais velho de uns comeu todos os iogurtes e o cão do casal B fez xixi na cama da filha do casal A que se pegou como casal C porque combinaram dividir a gasolina e eles nem ai nem ui, e nem sequer tiram os cabelos do ralo quando acabam de tomar banho. Ao fim do dia acabam sempre por chegar mais uns amigos que por coincidência também ali estão, ou uns tios de passagem ou uns amigos dos miúdos com respectivos pais à trela. Enfim, uma animação.

– De que falam: De antigos amigos e de reuniões de antigos alunos e que foi feito da Maria Isabel que parecia um ‘rotweiller’ e casou com o primo que parecia um caniche. Ao fim do segundo dia já ninguém se consegue ouvir.



A Anti-Praia

– Onde vão: A tudo o que não tenha um pingo de sol – museus, restaurantes, exposições. Andam brancos como fantasmas ou vampiros ou a mulher do Conde Drácula, mas acham que ser pálido é chique, e pelo menos não apanham cancro de pele, embora nunca tenham um ar genuinamente divertido. Não percebem qual é a graça de ir apanhar pó, calor, areia e sal a um sítio cheio de povo, chateia-os perceberem que são iguais ao resto do povo, só que menos musculados, menos bronzeados e definitivamente menos louros, sentem-se fragilizados e ridículos a andarem por ali de calções, e além disso não gostam de encher o Proust de areia, os calções de areia, a alma de areia.

– Que fazem durante o dia: Dormem até tarde, visitam uma livraria, andam pela cidade deserta e quando muito vão para uma esplanada ler e comer tostas mistas. Geralmente, quando têm crianças lá fazem o sacrifício de pôr os pés na praia um dia ou outro para lhes fixar o cálcio e lhes calar a boca, ou então vão em ’tour’ cultural a Sevilha ou visitar as grutas de Santo António, onde pelo menos se está à sombra, embora os putos lhes tivessem pedido de joelhos para ir à EuroDisney.

– De que falam: De como a cidade é bonita sem ninguém.



A Campista

– Para onde vão: Há os clientes sempre do mesmo parque que montam a tenda sempre no mesmo sítio ao lado dos vizinhos do costume, e os que experimentam todos os anos um poiso diferente.

– Como passam o dia – A meter conversa com o vizinho alemão, a regar as sardinheiras à volta da tenda, a descobrir como é que se diz: ‘os portugueses são um povo tão simpático’ em finlandês, a pescar cabelos do caldo verde ou a descobrir se a loura sueca sempre é adepta do nudismo integral. Há os domésticos que comem de terrina e toalha bordada como em casa, e os naturalistas que ao terceiro dia já convenceram a senhora do minimercado a fazer-lhes sanduiches de tofu, há quem ressone às 7 da tarde e quem às 3 da manhã ainda toque guitarra à volta da fogueira e cante o ‘Menina Estás à Janela’ com segundas vozes porque pode haver um olheiro musical disfarçado na tenda mais próxima. Há quem passe a vida na tenda a cozinhar feijoada e canja para o resto da família, e quem só volte da praia quando a lua vai alta. Ou quem não volte da praia.



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