‘Admito: sou incapaz de negar o que quer que seja aos meus filhos.’ Ana Rita Diniz, secretária de direcção, sabe que os seus filhos, Carlota, de 15 anos, e João Pedro, de 12, vivem num mundo privilegiado e admite também que isso lhe dá satisfação. ‘Talvez ache, de vez em quando, que devia negar-lhes qualquer coisa, mas também não vejo razões para isso. Eles são bons alunos, nunca me causaram problemas, e se têm uma mesada quatro vezes maior do que eu tive melhor para eles.’ A Carlota e o João são os últimos a queixar-se. A mesada mais do que generosa dá-lhes para luxos que não são raros: os amigos têm quase todos as mesmas calças, o mesmo modelo de telemóvel, os mesmos ténis. Mas o vício não nasce neles: os jovens não se auto-sustentam. Ou seja: eles acabam por ser o reflexo do mundo dos adultos.

‘Isto reflecte a força do marketing na sociedade e também a exposição dos jovens aos meios de comunicação social’, confirma Pedro Moura Ferreira, sociólogo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. O poder de compra juvenil já sustenta um enorme ‘império’ de marcas, tornadas símbolos à volta dos quais se faz hoje a socialização e a construção da identidade. ‘Tanto os jovens como os adultos dão importância às marcas.

O que é diferente dos adultos é a apropriação que os jovens fazem das marcas que escolhem. Na juventude, a ideia não é tanto demonstrar poder, marcar uma posição e revelar um certo nível socioeconómico, como nos adultos, mas uma forma de construção de identidade e relações de pertença.’ Ou seja: enquanto nos adultos uma marca demonstra status, nos jovens indica um estilo e uma afirmação de pertença. ‘As marcas permitem–lhes criar uma determinada imagem e diferenciarem-se entre si’, nota Pedro Moura Ferreira. ‘Todas as tribos passam pelas roupas, passam pelas marcas. Por exemplo, as nuances que há na leitura dos ténis são imensas, há uma gradação de interpretações sem fim, e é um ‘código’ que escapa à grande maioria dos adultos.’ Não é uma ideia perversa, a de que se é aquilo que se tem? ‘É um pouco. Mas isso também tem a ver com a dominância das relações económicas no mundo actual. Os aspectos tradicionais de afirmação estão um pouco preteridos em função de aspectos mais económicos, mais visíveis. Somos cada vez mais a imagem que transmitimos.
Mas isso também pode ter um lado positivo: queremos passar para os outros a nossa identidade, e oferecemos-lhes a maneira mais fácil de eles nos lerem.
Através da minha imagem, olhando para mim, o outro percebe a que grupo é que pertenço.’

QUAL É O PROBLEMA DE TER 30 T-SHIRTS?
Mas esta cultura da imagem exige dinheiro para a manter. E não são só os adolescentes que exigem: os próprios pais já se aperceberam de que ter estas calças ou estes ténis é mais do que um capricho, é uma senha de entrada e de pertença. E mesmo quem não tem uma vida monetariamente tão abonada como Ana Rita se arruína para dar aos filhos privilégios que, regra geral, os pais nunca tiveram. ‘Não há nada mais complicado do que ter de lidar com uma criança que é excluída por coisas tão tolas como não ter a marca tal’, nota Madalena Lupi, directora, com Ana Freire, da agência de estudos de mercado Web Channel. ‘Portanto, não custa nada, ou custa ‘apenas’ dinheiro, que é o bem mais descartável hoje em dia, porque o mais precioso é o tempo. Isto é um ciclo vicioso: como as pessoas têm cada vez menos filhos, têm cada vez mais dinheiro para gastar com cada filho, e se uma criança tem, todas as outras querem, e depois as pessoas não têm mais filhos porque não podem dar a cada um aquilo que eles pedem, e por aí fora.’ Os próprios adolescentes assumem o seu consumismo desenfreado. ‘Eles têm muito poder de compra e autodenominam-se consumistas, mas sem qualquer dificuldade.
Qual é o problema de ter 30 T-shirts, questionam eles? Problema é matar e roubar…’ A obsessão com a roupa faz parte de um mundo cada vez mais competitivo.
‘Vou ser cruel’, diz Madalena, ‘mas é assim: dantes, tinha-se dez filhos porque três morriam. Agora tem-se só um, e ele tem de ter uma vida perfeita. Não pode sofrer, não pode passar por frustrações. Ora, tudo isto é importante. Porque é que os miúdos hoje se arriscam a ser eternos adolescentes? Porque ninguém os deixa sofrer! E sem sofrer não se cresce. Esta sociedade que temos hoje não é necessariamente boa nem necessariamente má, temos é de ter alguma sensatez.’ ‘Penso que negar estas coisas não é solução,’ reforça Ana. ‘Eles até podem ficar génios, mas ficam sem contacto com os outros. Não podemos cair em extremos e é preciso ver o lado positivo das coisas.’

A IMPORTÂNCIA DE DIZER ‘NÃO’
Pois, já percebemos a importância simbólica de mais umas calças. Mas será que isso justifica uma geração que muitas vezes parece não ter noção do valor do dinheiro? E o que é que está por trás deste gigantesco poder de compra dado aos adolescentes? ‘Os pais não passam tanto tempo com os filhos e tentam compensá- los. Mas também tentam compensar-se a eles próprios pela infância que não tiveram,’ nota a psicóloga Eunice Neta, responsável pela Consulta da Adolescência e da Família no SEI Consultório de Orientação Psicopedagógica. ‘O problema é que isso não é apenas uma competição dos adolescentes, é antes de mais uma competição entre os próprios pais! E isso não faz sentido nenhum. Até porque a função dos pais com filhos em formação é impor-lhes regras e limites.’ É importante saber dizer não? ‘Não é importante, é fundamental! Eles não podem ter só direitos à Playstation, às calças de marca e nenhum dever! A missão de um pai e de uma mãe não é financiar tudo isto: é dar o essencial e ensinar a valorizar aquilo que se tem.

E aquilo que se tem hoje em dia é ao mesmo tempo sobrevalorizado e desvalorizado.’ A psicóloga alerta as pessoas para uma sociedade que as destrói: ‘A maioria das famílias com adolescentes apenas sobrevive, mas sobrevive mal, porque faz um esforço sobre-humano para dar aos filhos aquilo que eles pedem, e esse esforço acaba por arrastá–las para situações difíceis. Quando se procura um determinado nível de vida, procura-se uma gratificação interior, mas depois ela não chega, porque nunca é suficiente. Resultado: estamos a alimentar uma máquina que não pára, que se multiplica. Surgem formas cada vez mais elaboradas de convencer as pessoas a comprar e de as convencer de que irão ser mais felizes se tiverem isto ou aquilo, e não há grande reflexão ao fazer compras.’ Claro que a função do marketing é vender: ‘Mas as pessoas têm de aprender a defender-se disso! Acima de tudo, faz–me muita impressão que não se ensine as crianças a gerir o dinheiro’, explica Eunice. ‘O dinheiro é algo que lhes cai não se sabe bem de onde, e eles não têm nenhuma noção daquilo que as coisas custam a ganhar.’ Então, quando se tem dinheiro e as coisas não custam a ganhar, também não se deve dar tudo? ‘Principalmente quando se tem dinheiro’, ri Eunice. ‘Como diriam as nossas avós, convém não delapidar a herança…’

É POSSÍVEL EVITAR A EXCLUSÃO

Voltemos às tribos: sem as tais calças de marca, não se correrá o risco de se ser excluído? ‘Todos sabemos que não ter algumas coisas é um factor de exclusão, e a própr ia auto-estima do jovem pode ficar de negrida. Mas há outras formas muito mais saudáveis de se construir a auto-estima e a auto confiança do que através de umas calças….’, afirma a psicóloga da Consulta da Adolescência e da Família.
‘Se calhar, se os pais conseguissem conversar mais com os filhos e aprender a conhecê -los melhor, perceber a razão da necessidade de terem aquele objecto ou roupa, até de lhes darem exemplos de como responder a certos colegas cruéis, ser ia mais produtivo do que entrar na roda e dar-lhes logo o que eles querem.’ Até porque, muita s vezes, ter uma mesada generosa não resulta apenas em compras aparentemente inócuas, como roupa ou telemóveis.
‘Muitos deles têm dinheiro para comprar cigarros, para gastar em álcool e em drogas, e ainda por cima há todo um enredo construído à volta deles para que o façam. Por isso é que a prevenção no que diz respeito às drogas (onde incluo o tabaco) e ao álcool tem de começar muito cedo.’ Por outro lado, como já vimos, os pais têm imensa dificuldade em dizer não. ‘Têm muito medo de perder o amor dos fil hos.
Mas é preferível perder temporariamente o amor do filho e tê-lo chateado e fechado no quarto do que perder o filho de facto. Perder os f ilhos para a noite, para o álcool, para a d roga. O que é que é melhor? ‘

QUE TIPO DE PES SOAS ESTAMOS A CRIAR ?

Vamos fa zer a pergunta que eles fa zem: ‘Mas qual é, afinal, o problema de se ter tudo? ‘
Eunice responde imediatamente: ‘O problema é que estamos a criar adolescentes sem nenhumas responsabilidades, e isso vai ter influência no tipo de adultos que estamos a formar: uma pessoa que se crê omnipotente, que não quer realizar grandes esforços para atingir os seus objectivos e que não valoriza aquilo que tem.’ Ou seja: estamos a criar uma geração incapaz de resistir à frustração.
‘Podemos estar a formar adultos que não conseguem lidar com a dor, o desapontamento, a espera, a frustração.
E como é que se lida quando não se está preparado? Não se lida: cai-se em depressão. Todos estes limites do ‘não’ que aconselhamos aos pais são exercícios para muscular o coração e as emoções.’ Hoje em dia já se assiste no mundo adulto ao resultado deste tipo de (não) formação: ‘Há muita gente desempregada e muito pouca gente a aceitar certo tipo de empregos. Assiste-se a jovens que ao escolher o curso já estão a ver o que é que irão ganhar quando terminarem, mas nunca pensam que têm de passar por um processo de aprendizagem. Exigem resultados finais sem a capacidade de sustentar um processo, porque também tiveram um processo de crescimento que não foi sustentado.’ Apesar de tudo, a psicóloga está optimista: ‘Acredito que tudo isto irá mudar, até porque o País está em crise e não vamos conseguir aguentar esta situação durante muito tempo. Os pais andam um bocadinho em terra de ninguém: a mentalidade muito vincada de antes do 25 de Abril já não nos serve, mas ainda não encontrámos outra que nos sirva. Os pais de agora estão a ser um bocado cobaias, porque toda a sociedade se alterou radicalmente. Por outro lado, há jovens com uma consciência muito clara do que é positivo e saudável, e portanto tenho esperança em que vá surgir uma nova mentalidade.’ Estes pais e estes filhos estão todos, estamos todos, em fase de laboratório.

‘Se calhar, só daqui a 10 anos é que iremos saber lidar com esta sociedade de informação e de consumo. Ela não tem de ser um problema: não podemos é deixar-nos escravizar. Temos de aprender a integrá-la para nos sabermos defender a nós e ensinarmos os nossos filhos a defenderem-se.’

EDUCAR PARA O CONSUMO

Aqui ficam algumas sugestões: . Partilhe com os seus filhos parte das tarefas domésticas e ensine-os a pagar as contas para que eles saibam quanto custam as coisas. A maioria dos adolescentes não faz a mais pequena ideia de quanto custa a electricidade, a TV Cabo e a Internet.

. Ensine-os a não fazer compras impulsivas e a refrear o consumismo. Vá às compras com eles, ensine-os a ver os preços dos produtos e a escolher bem as coisas que trazem.

. Não lhes dê nada de mão beijada.

Isso não quer dizer que não possa ajudá-los a conseguir aquilo que querem. Pode avisar a família de que eles estão a juntar dinheiro para determinada compra, por exemplo.

Faça-os ‘lutar’ pelos seus objectivos.

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